Isadora Belo Fornari

Mariana abriu a tampa e encheu a taça. Era dia de comemorar conquistas e refletir sobre o futuro. Além do Dia Internacional da Mulher, ela tinha acabado de receber um presente inesperado. Uma garrafa de cachaça. Flores e chocolates eram mais comuns no dia 8 de março. Já cachaça? É coisa rara! 

Essa história até poderia ter acontecido. Mas, se alguém for procurar, numa daquelas listas com dicas de presentes, o destilado tipicamente brasileiro nem aparece como sugestão para as mulheres. Para a pesquisadora em tecnologia e qualidade de bebidas, da Esalq/USP, Aline Bortoletto, cachaça agrega e é um presente ideal, em qualquer situação. “Todo mundo combina com cachaça!”, dispara.

Foi-se o tempo em que cachaça era coisa só de homem. Talvez, nunca tenha sido. Em mais de 500 anos de história, as mulheres sempre estiveram presentes, de alguma forma. No início, garantiram a produção familiar dos alambiques, enquanto os homens trabalhavam fora. História contada por Alessandra Trindade, autora do livro “Cachaça, um amor brasileiro”.

Depois, as mulheres estamparam os rótulos das garrafas. Na década de 40 e 50, a sedução era uma estratégia publicitária para a venda da bebida. “Assim, a mulher era exposta como um fetiche que serviria de êxtase ao público masculino”, definiu Andréa Barbosa Camargo, pesquisadora em Design.

Hoje, representações femininas são mais raras nas rotulagens. E, quando aparecem, carregam uma proposta diferente: aproximar as mulheres do universo da cachaça, homenageá-las e exaltá-las. Afinal, mulher também aprecia cachaça. Algumas só não descobriram isso.

A verdade é que existe uma cachaça perfeita para cada tipo de pessoa, como explica a consultora Elen Lopretti Baroni. Durante uma degustação, ela se deparou com uma mulher que dizia não gostar de cachaça, só de uísque. “Selecionei, uma cachaça envelhecida no mesmo tipo de madeira do uísque e a cliente levou a garrafa”. 

No Dia Internacional da Mulher temos motivos para comemorar: a evolução do mercado de cachaça

Nas últimas décadas, a cachaça experimentou um salto de qualidade. Tem mudado sua apresentação e se ressignificado. Com o reconhecimento internacional, foi elevada ao patamar de outros destilado produzidos no mundo. Para a sommelière Isadora Fornari é uma das bebidas mais democráticas. “A cachaça, em si, não é só coisa de mulher. É coisa de quem tem um paladar mais desenvolvido. E normalmente, as mulheres têm isso”.

Aline Bortoletto explica que do ponto de vista de análise sensorial, as mulheres têm mais sensibilidade do que os homens para aromas e sabores, que são necessários na finalização do produto. No laboratório de pesquisa e qualidade sobre bebidas, em Piracicaba, trabalham sete cientistas, cinco são mulheres. Em cursos de cachaça, ministrados pela pesquisadora, o público feminino também já é maioria.

mulheres cientistas
Cientistas da ESALQ estudiosas da cachaça

Segundo o IBGE, as mulheres vem conquistando novos espaços. Os indicadores mostram que elas estão mais escolarizadas, com maior participação no mercado de trabalho. Assumindo cada vez mais posições de comando. 

Sócia-proprietária e responsável pela carta de cachaças do Restaurante Jiquitaia, restaurante de comida e bebidas brasileiras, em São Paulo, Carolina Bastos, afirma que muitas barreiras foram quebradas. Mas, revela que ainda existem pontos a serem superados. “Existe um desrespeito implícito: a hora que a gente vai dar nossa opinião, parece meio ‘café com leite’”, se referindo a reação de alguns homens.

No universo da cachaça, estima-se que 90% dos alambiques brasileiros ainda sejam negócios familiares, onde a mulher tem papel importante. Produtora há 15 anos, no interior de São Paulo, Viviane Baldin conta que 70% de seus consumidores são mulheres. “Elas não sentem mais vergonha de assumir que são cachaceiras”, afirma. 

A produtora da cachaça Tiê, para o Dia Internacional da Mulher, fez um vídeo no Instagram contando mais sobre o papel da mulher, suas inspirações e o que a motivou a entrar nesse mercado ainda dominado pelos homens.

Isso também reflete na vida social. Confrarias e clubes de cachaça foram criados só para elas. E tem encontros semanais. “As mulheres já chegam sabendo o que querem e do que gostam”, observa Márcia Bars, ex-bancária que virou vendedora de cachaça.

Para Isadora, as mulheres são mais ousadas. “A cachaça representa um público que não tem medo de coisas novas no paladar. Não tem medo de explorar coisas mais complexas. E e, em geral, as mulheres são assim”, completa a sommelière. Carolina complementa, “Cachaça e mulher combinam pela versatilidade das duas”. 

Se, mesmo assim, ainda restar dúvidas na hora de escolher o presente, a dica é investigar o que a pessoa já gosta. E usar as informações de referência na hora de definir o tipo de cachaça. Para iniciantes, o ideal é começar com licores de cachaça que são mais doces e ácidos ou cachaça mais amenas e envelhecidas em madeiras, como amburana e carvalho. Incluir um manual, com dicas de como consumir a bebida, pode ajudar. Afinal, não tem nada mais gostoso do que descobrir novas paixões, seja no Dia Internacional da Mulher, seja em qualquer outro dia do ano.

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Ana Paula Palazi

Ana Paula Palazi

Jornalista, repórter, especialista em jornalismo científico e cachaceira. Atualmente, misturando comunicação, cachaça e percepção pública da C&T num mestrado pela Unicamp

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  • f.saioron@hotmail.com
    março 5, 2020 at 9:27 pm

    Gostaria de poder representar vendendo,ou sendo representante vendedor.Achei muito bonito

    • mapadacachaca
      março 6, 2020 at 10:05 am

      Como vai? Obrigado pela mensagem. Somos um site sobre informação sobre o cachaça. Por favor nos avise qual cachaça gostaria de representar e podemos te colocar em contato com o produtor.

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