Os nomes da cachaça: origens e sinônimos - Mapa da Cachaça
Verallia

Os nomes da cachaça: origens e sinônimos

24 de 05 de 2019

Aprenda sobre as possíveis origens e os motivos para os diferentes nomes da cachaça.

Ao longo da história, encontramos diversos nomes para denominar a aguardente de cana produzida no Brasil. Entre eles: aguoa ardente (Bahia, 1622), agoardente (Bahia, 1643), aguardente da terra (1646), jeritiba (Bahia, 1689), geritiba (Luanda, Angola, 1688), pinga (1773), caninha (1867). Mas qual seria a origem do nome cachaça?

Há algumas hipóteses para que “cachaça” tenha sido oficializado como o nome do destilado de cana-de-açúcar brasileiro, e todas elas fazem referência a uma bebida que já nasce com complexo de inferioridade.

A primeira menção à palavra cachaça está na carta de Sá de Miranda (1481-1558) dedicada a Antônio Pereira e estaria se referindo a uma aguardente de uva de baixa qualidade, e não ao destilado produzido no Brasil: “Ali não mordia a graça./ Eram iguais os juízes. / Não vinha nada da praça. / Ali, da vossa cachaça! Ali, das vossas perdizes!”.

Em Cartas chilenas (1788-1789), Tomás Antônio Gonzaga, um dos responsáveis pela Inconfidência Mineira, elenca “cachaça” pela primeira vez como produto de procedência brasileira: Outros mais sortimentos, que não fossem / Os queijos, a cachaça, o negro fumo. / […] / Pois a cachaça ardente, que o alegra,/ Lhe tira as forças dos robustos membros.

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A origem do nomes cachaça

Outros termos de procedências variadas também podem ter influenciado essa escolha do nome cachaça.

Cachaza ou cachaça: era a aguardente de uva produzida em Portugal e Espanha. A palavra faria referência ao cacho de uva, assim como bagaceira – outra aguardente de uva popular em Portugal – se refere ao bago da fruta.

Cagaça, cagassa ou caxaça: termo para se referir ao caldo de cana usado para alimentar os animais no comedouro. Também referia-se à espuma produzida pela primeira fervura da garapa.

Cacher: o verbo francês cacher, que em português significa “esconder”. Durante muitos séculos de perseguições e proibições, a cachaça era produzida e consumida às escondidas.

Cachaço: o porco selvagem reprodutor era chamado de cachaço. A carne dura do animal era curtida em aguardente.

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Definição de Cachaço no livro “Termo e expressões do coloquial do cotidiano da zona rural no Brasil Central no século XX – Universidade Federal de Goiás

Os outros nomes da cachaça – sinônimos:

Ao longo do tempo, o povo brasileiro foi incorporando outros termos para designar o famoso destilado nacional. Algumas dessas palavras foram usadas com o propósito de enganar a fiscalização de Portugal nos tempos em que a cachaça era proibida nas terras coloniais. Outras são formas regionais de retratar carinhosamente a bebida. Algumas se perderam com o tempo, outras se consolidaram na nossa cultura, e muitas ainda estão em dicionários e livros, registrando mais de 700 sinônimos de cachaça.

Pinga Coqueiro de Paraty

Em Paraty pinga é um outro nome da cachaça e tem uma conotação positiva.

Pinga: A origem da palavra pinga historicamente está relacionada a uma dose de bebida – principalmente uma dose de vinho. Com a interiorização da aguardente em Minas Gerais e a popularização do destilado, a palavra pinga acabou sendo relacionada ao consumo de uma dose de cachaça, e dessa forma, naturalmente se tornando um sinônimo da bebida.

A palavra refere-se também à destilação em alambique de cobre, em que o vinho de cana é aquecido na panela e seu vapor é resfriado e condensado lentamente, saindo aos pingos. Em cidades como Paraty e no interior de Minas Gerais, pinga é sinônimo da cachaça de qualidade. Apesar de derivar do processo artesanal de produção, em alguns lugares, como no estado de São Paulo, a palavra faz menção à aguardente de baixa qualidade ou à industrializada, ganhando sentido pejorativo.

“Co’a marvada pinga / É que eu me atrapaio / Eu entro na venda e já dou meu taio / Pego no copo e dali num saio / Ali memo eu bebo / Ali memo eu caio / Só pra carregar é que eu dô trabaio.” – “Moda da Pinga” (1953), pérola do cancioneiro popular escrita e interpretada por Inezita Barroso

Aguardente da terra: no Brasil Colonial, cachaça era chamada de aguardente da terra, enquanto a bagaceira, destilado da uva produzido em Portugal, era aguardente do reino.

Brejeira: como é chamada a bebida artesanal na Paraíba, referindo-se aos pequenos produtores de cachaça de alambique do Brejo Paraibano, tradicional região de produção do estado.

Paraty: a fama de Paraty como cidade produtora de cachaça cresceu tanto que passou a ser sinônimo de cachaça. Documentos oficiais mostram que o destilado de cana produzido em Paraty já era bastante prestigiado no período colonial.

“[…] a passagem que nela se faz para as Minas e a quantidade de aguardente de cana que ali se fabrica lhe dão a opulência conhecida.” – D. Antônio Rollim de Moura, conde de Azambuja, governador de Goiás e Mato Grosso, 1750

John Luccock, comerciante inglês, em 1818, anotou que Paraty desfrutava “de considerável comércio com a capital; sua aguardente, acima de tudo, é de grande aceitação”.

Depois disso, já no século XX, pipocaram na cultura popular menções a Paraty como sinônimo de cachaça:

“Farinha de Suruí, pinga de Parati e fumo de Baependi é comê, bebê, pitá e caí” – “Relicário” (1924), poema modernista de Oswald de Andrade

“Em vez de tomar chá com torradas, tomou parati” – “Camisa listrada” (1935), canção escrita pelos irmãos Valença e eternizada na voz de Carmen Miranda

“Ceci amou Peri / Peri beijou Ceci / Ao som… / Ao som do Guarani! / Do Guarani ao guaraná / Surgiu a feijoada / E mais tarde o Paraty” – “História do Brasil” (1934), marchinha de Carnaval composta por Lamartine Babo

Salinas: a fama da produção local de Salinas, no norte de Minas Gerais, na década de 1940, fez com que a cidade ficasse conhecida como um dos nomes da cachaça artesanal. Todos os anos é realizado o Festival Mundial da Cachaça de Salinas como forma de celebrar essa importante atividade econômica do município.

Januária: em meados do século passado, Januária era a principal referência em cachaça artesanal no norte de Minas Gerais. Mas o aumento da demanda e a queda de qualidade fizeram com que Januária perdesse o título de capital da cachaça para Salinas. O sinônimo, contudo, continua valendo.

Morretiana: Morretes, município paranaense, foi um grande centro de produção de açúcar e cachaça. A fama como produtora de cachaça de qualidade era reconhecida não apenas no Brasil, mas na Argentina, Uruguai e Chile – há registros de importação para esses países que datam do século XIX. As poucas marcas que restaram na cidade honram a história morretiana, produzindo excelentes cachaças de alambique.

Café-branco: durante sua história, a cachaça por diversas vezes teve sua produção e seu consumo proibidos. Para enganar a fiscalização, era consumida nos balcões em xícaras de café. Era só chegar e pedir um “café-branco”. Diziam que a xícara vinha acompanhada do pires, mas sem a colherzinha para mexer.

Mé: a palavra faria menção ao mel de cana ou das “casas de cozer méis”, como eram chamados os engenhos produtores de açúcar e aguardente. O sinônimo foi popularizado pelo comediante Mussum na década de 1980. Outra referência para a palavra seriam os remédios caseiros chamados popularmente de “mezinhas” – medicações populares que levam cachaça na composição. A fama de Mussum era tanta que mé pegou e virou um dos nomes da cachaça mais queridos.

Caiana ou cayana: variedade de cana-de-açúcar da espécie Saccharum officinarum muito usada antigamente por pequenas unidades de produção de cachaça artesanal. A associação espécie/produto logo ganhou as ruas como sinônimo. Essa espécie é caracterizada por altos teores de açúcar e baixa presença de fibra. No entanto, são sensíveis a várias doenças e exigentes no que diz respeito a clima e solo.

Jeribita ou giribita: A aguardente de cana era conhecida na África como jeribita e os comerciantes da bebida de giribiteiros. O destilado era usado como moeda de troca por escravos na costa africana.

Angola é terra de pretos mas por vida de Gonçalo, que o melhor do mundo é Angola, e o melhor de Angola os trapos. (…) Houve o motinar-se o Terço e de ponto em branco armado na praia de Nazareth, por nós em sítio versado. Houve que Luis Fernandez foi entonces aclamado por rei dos giribiteiros, ou por soba dos borrachos. ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes. Formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII.

Martelo ou martelinho: um dos nomes dados ao copo de 60 ml geralmente usado para consumo de cachaça em bares e botecos. Há o costume de bater o copo na mesa depois de virar uma dose – a base reforçada do copo aguenta a “martelada”.

copo martelinho - shot cachaça

O “martelinho” é conhecido também como “olé” e é fabricado pela Nadir Figueiredo.

Cachaça de cabeça: cabeça é a fração da destilação da cachaça que apresenta alto teor alcoólico e componentes prejudiciais à saúde. Consumi-la não é considerado seguro, mas, em muitas regiões do Brasil, alambiques informais comercializam essa cachaça de cabeça. O nome acabou pegando, mas evite porque não é sinônimo de cachaça de qualidade.

Bendita: italiano e descendente de escravos, são Benedito foi adotado como padroeiro da cachaça. O sinônimo “bendita” é um dos mais corriqueiros, sendo até título de programa de Bendita Marvada e do livro: De marvada a bendita, de Renato Figueiredo. “Marvada” é outra palavra popularmente usada como sinônimo de cachaça.

O Mapa dos Sinônimos da Cachaça

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