As mulheres, a cachaça e os conflitos de gênero - Mapa da Cachaça
Verallia

As mulheres, a cachaça e os conflitos de gênero

10 de 02 de 2015

Apesar de sempre ter sido tratada muito bem pelos homens especialistas em cachaça, cerveja, vinho, whisky… é saudável a gente sempre trazer as discussões sobre conflitos de gênero para sites, jornais, revistas e mesas de bar e questionar nosso papel numa sociedade ainda machista e não igualitária. Afinal, ainda passa na cabeça de muita gente: “quem é essa menina falando sobre bebida de macho?”.

Antes de entrar no tema, quero compartilhar uma propaganda que me motivou a escrever esse artigo. No intervalo do Super Bowl, o minuto mais caro da TV, a P&G lançou um comercial que critica o senso comum que inferioriza o sexo feminino. Vejam, vale a pena:

O run like a girl, o “correr como uma menina”, é no imaginário popular do norte-americano e do brasileiro, a cena de uma menina boba, de chiquinhas no cabelo, sem coordenação nos braços e pernas, se movimentando de forma destrambelhada pela rua. Eu já fui uma menina, hoje sou mulher… e em nenhuma fase da minha vida corri assim.

Há três anos iniciei um caminho dedicado a defender a cachaça. Desde o início tive muitos amigos que me incentivaram a estudar, a buscar uma atuação honesta e me alertarem sobre a responsabilidade da opinião. Hoje o que me dá forças para atuar nesse mercado é ver como posso ajudar na valorização de um patrimônio brasileiro e como o fato de ser mulher num meio dominado pelos homens pode contribuir para me dar uma voz própria – não melhor ou pior, mas com um toque feminino que pode fazer toda a diferença.

Conversando com alguns profissionais do mercado descobri que não há muito tempo atrás era comum as mulheres que trabalham em bar ou atuando com bebidas não serem vistas como capazes – geralmente, a projeção delas estava relacionada com sua aparência. Todo mundo quer uma mulher bonita na sala, mas na prática elas acabam não tendo voz. Em 2015, quando imaginávamos que vivêssemos numa sociedade mais igualitária, o comercial da P&G é genial porque escancara algo que passa despercebido – como se fosse algo normal. Na prática, a mulher nunca é a mestre cervejeira, ela é a garçonete bonita do comercial.

Me surpreendi com esse retrato porque percebo hoje grandes mulheres contribuindo muito para a evolução do mercado de bebidas. Posso citar várias: a Drª Aline Bortoletto da USP, as sommeliers Carol Oda, Bia Amorim e Deise Novakoski, as produtoras de cachaça Maria Izabel e Katia Espírito Santo, as bartenders Jéssica Sanchez e Talita Simões entre tantas outras que têm meu respeito e que me dão orgulho de fazer parte desse time.

Mas se o cara for muito cabeça dura e não acreditar no potencial das mulheres como profissionais do vinho, cerveja, cachaça e afins eu apelo para a ciência:

Você sabia que as mulheres possuem uma habilidade inerente de distinguir melhor aromas e sabores? Pois é. De acordo com uma pesquisa realizada na Universidade de Copenhagen há uma pequena diferença entre a percepção no paladar de garotos e garotas. E as crianças de sexo feminino são mais sensíveis. Segundo a sommelier de cerveja e diretora do centro de pesquisas sensoriais do Marketing Sciences do Reino Unido, Drª Deborah Parker, somente uma pequena parcela das pessoas possuem sensibilidade inata para análises e em sua maioria elas são mulheres. Porém, após um treinamento sensorial os gêneros se igualam em percepções.

Como diz minha amiga e mixologista Jessica Sanchez “Ser mulher é uma estatística”. Concordo. Assim como ser homem. Como ser brasileiro, paulista, carioca… Independente de sexo, raça, beleza, hoje todos temos que ter voz! E ser ouvidos! Em nossa trajetória a favor da valorização do destilado do Brasil sempre haverá espaço para debates, questionamentos e polêmicas pois elas que nos fazem progredir.

Agora, já ficou velha essa discussão de limitações por diferenças. Eu considero as diferenças individuais responsáveis pela riqueza de opiniões e fundamental para a evolução e amadurecimento de assuntos relevantes – e não como um fator limitante. Quem alimenta o preconceito é quem deveria perder voz.

Meu nome é Isadora, sou mulher, represento e tomo cachaça. E para finalizar, deixo uma frase da produtora Maria Izabel de Paraty que diz: A cachaça deve ser igual as mulheres: delicadas, mas fortes!

Schmitt, Patrick (2014)– “Women are better tasters than men”, The Drink Business, 23 de Junho, consultado em Fevereiro de 2015
http://www.thedrinksbusiness.com/2014/06/women-are-better-tasters

University of Copenhagen, Público (2008) “Girls have superior sense of taste to boys” EurekaAlert, 16 de Dezembro , consultado em Janeiro de 2015
Disponível em http://www.eurekalert.org/pub_releases/2008-12/uoc-ghs121608.php

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