Elitizar a Cachaça? - Mapa da Cachaça
Verallia

Elitizar a Cachaça?

27 de 07 de 2011

Valorizar a cachaça não é elitizar a cachaça

Falar em valorizar a Cachaça é falar em elitizá-la? Está posta aí uma questão delicada para um produto que fez a fama baseado justamente em seu caráter popular e ligado aos costumes da terra. Tirá-la desse universo de “batismo” seria “desvirtuá-la” ou negar sua “verdadeira essência”. Se falar em “cachaça valorizada” é falar na bebida vendida apenas para ricos, em sofisticadas boutiques, etc., “prefiro continuar com a minha branquinha do jeito que está”. São dizeres como esse que surgem frequentemente quando o assunto é a valorização da bebida nacional.

E eu não ousaria dizer que quem pensa assim está errado. Muita coisa que veio do “popular” para o território da “elite” passou a ter um status exacerbado, com preços altíssimos mas, por isso mesmo, com menos valor do que o produto dito “verdadeiramente da terra”. No entanto, não posso deixar de constatar que esse mesmo pensamento pode estar sendo, sim, uma trava para a valorização de nossa bebida.

Até hoje não se serve Cachaça em formaturas, casamentos, ou nas baladas dos jovens de classe AB. A tradição é levar para as festas uma garrafa de whisky, não de Cachaça “Premium”. Não se encontram caipirinhas verdadeiras nos bares e restaurantes, e, nos supermercados, ela ainda está nas últimas prateleiras, empoeiradas e escondidas – e é mais fácil encontrar um bom vinho de Bordeaux do que uma Cachaça produzida em sua própria região. É a tudo isso que me refiro quando digo que ela não é “valorizada” ou “respeitada” na nossa sociedade hoje. O que mais surpreende é que ela tem todas (ou quem sabe, até mais, em certos aspectos) as condições para o ser.

É preciso sim trazer a Cachaça para este público. Isso não quer dizer que vamos “elitizá-la”. Por acaso quem toma “caipirinha” de vodka ou de saquê hoje são pessoas da multimilionária elite brasileira? Não exatamente, certo? São essas pessoas que tem condição de adquirir uma bebida de qualidade, e que favorece o pequeno produtor que conserva até hoje o espírito da Cachaça bem feita, ou até de grandes grupos capazes de trazer este tipo de trabalho para um público mais amplo. São essas pessoas (tanto consumidores quanto produtores) que podem ajudar a garantir o real valor que a Cachaça merece no Brasil e no mundo.

É verdade que uma elevada de alguns preços deve ser feita sim. Acho irresponsabilidade, se não somente do governo, mas também dos próprios varejistas, disponibilizar tais produtos a tais preços. Mas ainda é possível ter Cachaças custando menos que a vodka ou o whisky, e, claro, ter também aquelas que custem mais caro que estas outras bebidas. Esse não é o ponto: há, e deve continuar havendo, Cachaça para todos os bolsos e paladares. No entanto, há uma série de outras riquezas escondidas na Cachaça que não são traduzidas apenas em reais. Afinal, “valor” não é assunto que significa simplesmente “dinheiro”. A Cachaça que o diga, não é mesmo.

Foto: usuário tao_zhyn, do Flickr (reproduzida sob licença Creative Commons).

 

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PUBLICADO POR:

TAGS: valorizar.

Comentários

  1. João Godoy

    julho 27, 2011

    Olá Renato

    Concordo que valorizar não é elitizar. Devemos valorizar a cachaça para que os engenhos continuem tradicionais, mas não deve significar aumentar os preços.
    No nosso bar temos 525 marcas, temos as mais caras: Havana, Anísio Santiago, Weber Haus, Vale Verde etc, mas temos ótimas cachaças vendidas a R$ 4,50. Para quem toma vodka ou whisky é barato e para quem toma cerveja é razoável. Devemos valorizar os produtores, mas não elitizar a bebida.
    Parabéns pelo site!

  2. renato figueiredo

    julho 27, 2011

    Excelente exemplo, João!
    É isso mesmo que faz da Cachaça uma bebida interessante para os tradicionais consumidores de outras bebidas!
    um abraço,
    renato.

  3. Matheus

    agosto 1, 2011

    Concordo com o texto, mas tem um porém:

    Em nosso país, infelizmente, preço quer dizer qualidade (o que não é uma regra).
    Por isso, talvez a cachaça só será mais valorizada quando as classes mais altas beberem cachaças, que terão que ser mais caras.

  4. Lucas Portela

    agosto 8, 2011

    Valorizar NAO PODE ser elitizar. O que faz da cachaça um patrimonio nacional é exatamente a sua ligação com o povo brasileiro, que mais que histórica, é cultural. Impossivel pensar em um plano de elitização do destilado mais popular do pais.

    O ideal, ao meu ver, é buscar distinguir a cachaça de outros destilados, e nao tentar vence-los em seus mercados. No Brasil, o exótico é consumir o que~é da própria cultura, e essa incoerencia nao é exclusiva da cachaça. As classes A e B nao se consideram brasileiras, propriamente. Associar a marca cachaça ao entendedor de bebidas, que nao se prende a preconceitos (no caso, contra a propria cultura) seria uma boa estratégia, e que nao precisaria elitizar a bebida.

    Mais importante, seria buscar informar o consumidor nao iniciado que assim como qualquer produto, há dos muito ruins aos muito bons. Grande parte dos meus conhecidos nao consumia cachaça porque tinham com experiencia a 51. Quando apresentei a Anisio Santiago, Virgulino de Oliveira, etc… Nao so gostaram como passaram a consumir rotulos nao tao desenvolvidos, mas com qualidade, como Claudionor ou Serra Limpa.

    O ideal seria reposicionar o pensamento corrente de que “cachaça é bebida de pobre”. Como é muito dificil eliminar o preconceito social inerente à frase, o ideal seria torna-la “cachaça é a bebida do brasileiro”.

  5. Ana Maria Pompeo de Camargo jannuzzi

    agosto 10, 2011

    Acredito que o trabalho de voces tenha conscientizado muitas pessoas. Eu mesma acabava pedindo uma caipirinha de vodca!!! Que horror. Hoje só peço caipirinha de cachaça.
    Meus amigos espanhois só bebem cachaça quando estão no Brasil e levam muitas garrafas para casa.
    Viva a cachaça com moderação!!!!!

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