Canera e a nova geração de empreendedores em Cachaça

Destilaria de cachaça

A Canera é mais um exemplo de uma nova geração de jovens que reatam laços com o campo investindo em boas práticas ambientais e na produção de cachaça com tecnologia e regaste às tradições locais

São Vicente de Minas é a terra dos queijos finos, mas também tem história no que diz respeito à Cachaça. A cidade foi uma das três rotas dos bandeirantes que partiam na busca pelo ouro das Minas Gerais, movimento que alimentou a produção, o comércio e a tradição da Cachaça na região. Hoje, uma nova geração de talentos está determinada a elevar o nome da charmosa cidade, com uma Cachaça que mistura laços afetivos com a terra e muito conhecimento científico: a Cachaça Canera – e parece que o ímpeto continua crescendo, apesar de todas as adversidades.

A Canera é o resultado de um sonho em família, não o tipo de ambição vertical que passa de pai para filho, mas um conceito horizontal – entre primos e amigos. Um movimento de retorno às origens de quem foi ganhar a vida na cidade grande, conheceu o mundo e confirmou que a felicidade almejada residia em viver no campo (e do campo). Jovens herdeiros de uma agenda ambiental que busca utilizar os recursos naturais com consciência. O resultado é uma cachaça fina, produzida em pequenos lotes, fermentada com leveduras selvagens e bidestilada em alambique de cobre.

“A Cachaça é uma paixão em São Vicente de Minas, adoramos isso e queremos desenvolver o destilado nacional como um produto de prestígio no Brasil e no Mundo”,

diz Pedro Carvalho, sócio-proprietário da Cachaça Canera, que tem se dedicado a apresentar um pouco desse rico universo em vídeos e lives nas redes sociais.

Canera: Cachaça com ciência, ousadia e herança cultural

Aos 33 anos, o engenheiro bioquímico, Pedro Carvalho, se apresenta como um apaixonado por fermentação e destilação. Com ele estão o amigo Carlinhos, que administra a parte operacional da empresa, e o primo Frederico, investidor da Canera. Na infância e adolescência, Pedro cresceu vendo o tio destilar cachaça e o pai produzir etanol com partes descartadas no processo – a cabeça e a cauda. O combustível feito em casa foi manchete de capa da revista Globo Rural, em 2007, orgulho e passaporte que impulsionou o jovem a altos voos no setor. Mas a trajetória de Pedro começou longe do negócio da família.

Aos 18 anos, o jovem foi enviado à escola de Engenharia de Lorena, a USP do Vale do Paraíba, para fazer faculdade. O pai tinha outros planos para o filho, mas encantado em estudar num dos berços tecnológicos do Programa Pró-Álcool, Pedro logo se envolveu com um grupo de pesquisa em destilação. Em seguida, foi trabalhar para uma usina de cana na área de inovação de açúcar e álcool. Em pouco tempo, passou a operar na área comercial de uma multinacional do agronegócio em Londres, na Inglaterra, e depois em Genebra, na Suíça. Só que a passagem no mercado internacional deixou impressões marcantes.

Lá fora, Pedro conheceu mais a fundo a história do uísque, do gin e do rum, além da própria história da cachaça, pelo olhar estrangeiro, e viu o potencial brasileiro no mercado de bebidas destiladas. Em conversas com Frederico e Carlinhos, decidiu tirar do papel a ideia de um negócio próprio. O primeiro resultado dessa experiência foi a Trimon, uma empresa de agronegócio inspirada em conceitos de economia circular, determinada a refinar a seleção da cana, na busca por variedades que se adaptem ao clima frio da região do Sul de Minas Gerais – de altitudes nada modestas no sítio que fica a 960 metros do nível do mar.

A Canera veio, depois, para consolidar tudo isso na forma de um produto, ou melhor, uma família de três, para contemplar os diferentes gostos: a Cachaça Canera Clássica, um blend de Cachaças brancas; a Cachaça Canera Chêne – como a tradução do nome já diz -, descansada em tonéis de carvalho francês; e a Cachaça Canera Oak, em referência ao armazenamento em tonéis de carvalho americano de primeiro uso.

“Desenvolvemos produtos com leveduras do nosso próprio canavial, com as características que queremos para uma Cachaça mais saborosa, aromática e intensa. A cana-de-açúcar é o segredo de nossa Cachaça, é dela que vem a essência da Canera”

revela pedro carvalho, produtor da cachaça canera

O respeito com a terra e com o futuro da Cachaça

A Cachaça Canera com seus jovens empreendedores ajudam a impulsionar um movimento de produção ecológica e biológica da Cachaça, na busca por práticas que promovam o impacto positivo no ecossistema agrícola – aliando tradição e tecnologia. O conceito de sustentabilidade acompanha todo o ciclo. As ponteiras e o bagaço da cana alimentam o gado criado no sítio, as fezes dos animais são coletadas e vão para a compostagem de onde voltam para nutrir a terra.

O nome Canera – que soa como se tivesse um acento circunflexo no meio (ca-nê-ra) – é uma referência ao princípio de tudo: a cana-de-açúcar que dá origem à Cachaça e todos os produtos e subprodutos nos quais essa gramínea pode se transformar. Rapadura e rum estão na lista futura de novos investimentos da empresa. É da cana que vem também um ideal de equilíbrio produtivo para o agronegócio, como uma fonte interessante de sequestro de carbono, causador do efeito estudo, para um manejo de baixo impacto.

O próximo passo é a auto-suficiência em energia no processo de destilação, com um biodigestor que produz gás natural para alimentar a caldeira do alambique. A Cachaça Canera tem por ideal privilegiar os recursos locais, tirando valor de tudo aquilo que a terra pode oferecer. A marca teve o registro oficializado em março de 2020, um período conturbado para o setor, mas o projeto se desenrola desde 2016, quando as terras onde o alambique está instalado foram adquiridas.

Os desafios têm sido grandes. Logo no segundo ano, o canavial foi perdido num incêndio. Prejuízo que se repetiu mais uma vez, agora, em 2021. Apesar dos imprevistos, a coragem de quem largou uma carreira estável e promissora por uma visão empreendedora, onde é preciso de adaptar e inovar de formas rápidas, se mantém irrigada pela certeza de estar produzindo uma Cachaça que carrega princípios e qualidade que valem a pena serem preservados e exaltados.

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Ana Paula Palazi

Ana Paula Palazi

Jornalista, repórter, especialista em jornalismo científico e cachaceira. Atualmente, misturando comunicação, cachaça e percepção pública da C&T num mestrado pela Unicamp

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