Romulo Cembranelli

Quem passa pelo antigo traçado colonial que liga Taubaté a Ubatuba, no Vale do Paraíba – hoje, Rodovia Oswaldo Cruz -, vê de longe a pintura em letras garrafais que se ergue nas montanhas. O nome é tão famoso por ali como as construções históricas ou a cultura folclórica e festiva do carnaval. Ao passo que, para os apreciadores, três palavras são o convite perfeito a uma mudança de rota: Destilaria Mato Dentro.

Tal qual a propaganda na beira da estrada, em São Luiz do Paraitinga, a simplicidade desse alambique esconde uma joia preciosa. O nome Mato Dentro é referência ao bairro rural onde fica localizado o Sítio São Paulo, local de produção de uma das mais icônicas cachaças do Brasil. É um daqueles refúgios onde o tempo parece parar e a mente divaga em contemplação.

Ali, rodeado pelas belezas da Serra do Mar, o advogado e aposentado Manoel Rômulo Cembranelli descobriu os prazeres afetivos da ciência etílica quando começou a pequena produção artesanal, em 1986. Na época, o fundador da Mato Dentro tinha 60 anos e nunca havia destilado cachaça. A princípio, a ideia era fabricar uma “desculpa de qualidade” para se reunir com os amigos e saborear uma boa conversa. No fim, a brincadeira virou a alma da própria criação.

Com uma personalidade despretensiosa, a Cachaça Mato Dentro conquistou o paladar dos maiores especialistas do país. “Seo” Rômulo, como era carinhosamente chamado, faleceu em 2019, aos 94 anos, deixando um legado de trabalho e amor pela cachaça que têm sido mantidos com a mesma dedicação pelos filhos e netos. Hoje, a destilaria produz seis rótulos, tem diversos prêmios, várias histórias para contar – como seu fundador gostava – e muitas novidades fermentando.

Autossuficiência e novos projetos

A Mato Dentro é uma cachaça de alambique que reverencia a terra. Simples e forte, como os trabalhadores representados em seus rótulos. Com uma produção anual de 20 mil litros, a pequena destilaria acaba de alcançar a autossuficiência em cana e tem investido fortemente em modernização e diversificação do portfólio. “Estamos aperfeiçoando alguns processos, criando outros produtos e ampliando as madeiras usadas para conquistar novos públicos, sem deixar de lado a tradição”, disse o neto do fundador, Daniel Cembranelli.

Mato Dentro

Além de barris de amendoim, bálsamo, castanheira e amburana, a destilaria lança mão de madeiras como jequitibá e jaqueira para a produção de novos blends, ao mesmo tempo em que retorna às raízes de seu criador. O mais novo projeto é uma cachaça branca “direto da bica”, com graduação alcoólica máxima de 48% e que, diferente da já consagrada Mato Dentro Prata, não terá repouso em madeira.

Para o mercado premium, a aposta é uma cachaça envelhecida no carvalho por três anos para fazer parceria às notáveis Mato Dentro Bálsamo, Mato Dentro Amburana e Mato Dentro Carvalho Ouro. Gin e drinks prontos também estão no radar da empresa que já trabalha com cachaças compostas com mel, limão e cambuci, fruta nativa e típica da Serra do Mar.

Mato Dentro: Reserva do fundador

Já para aqueles que buscam exclusividade, a destilaria anunciou a continuação da coleção Mato Dentro Reserva do Fundador, sucesso que encerrou em alta o difícil ano de 2020.  A criação relembra a trajetória de mais de trinta anos do alambique (vinte como marca registrada de cachaça) e busca homenagear seu criador. Apenas 300 garrafas foram postas à venda e esgotaram do estoque em poucas semanas.

Mato Dentro Reserva do Fundador
Reserva do Fundador, uma homenagem ao fundador da cachaça Mato Dentro

“Lançamos a Mato Dentro Reserva do Fundador no dia nove de outubro, data do aniversário do meu avô, com apenas uma foto de divulgação nas redes sociais. Ainda não tínhamos garrafa nem rótulo pronto e no dia seguinte já havia gente na porta do alambique querendo comprar”, lembra Daniel.

O primeiro blend da edição especial harmonizou quatro madeiras brasileiras e foi feito pela pesquisadora e especialista em envelhecimento de cachaça, Aline Bortoletto, a partir do precioso acervo pessoal de Rômulo Cembranelli. O próximo lançamento está previsto para o segundo semestre de 2021.

Com o olhar no futuro, sem negligenciar o presente e o passado, o sítio busca agora a certificação de produção orgânica. São seis hectares de cana de açúcar, em expansão, protegidos por uma faixa preservada da Mata Atlântica. Recentemente, foi iniciado um projeto de compostagem para o melhor reaproveitamento do bagaço e a lenha usada para manter o fogo direto nos dois alambiques de cobre é plantada na propriedade.

A pedra fundamental

Na década de 80, quando recebeu das mãos do vizinho dois tonéis e um pequeno alambique para a produção de apenas vinte litros de cachaça, “seo” Rômulo quis reagir ao mal entendido, mas segurou a fala por educação. Entre as várias qualidades dele, sempre estiveram presentes a generosidade e o afeto para com todos.

O aposentado tinha acabado de trocar duas novilhas no equipamento usado, sem antes ver o destilador e, anos mais tarde, confidenciou que esperava algo maior e mais profissional. Na época, ele encerrava um curto ciclo como produtor de leite e procurava uma atividade a qual não lhe custasse a qualidade de um tempo que buscava ter desde que se mudara da capital para o interior com a família.

“Eu comprei o sítio para voltar às minhas origens, para ler, ver passarinho cantar, comer um churrasquinho e só”, contou numa entrevista registrada em 2015. Sem nunca ter feito nada parecido, Rômulo decidiu se aventurar. Assim, de desapontamentos e muita curiosidade surgia a Mato Dentro, a joia líquida de São Luiz do Paraitinga.

Elixir da juventude

“Eu acredito que a cachaça deu ao meu avô, pelo menos, vinte anos a mais de vida”

calcula o produtor Daniel Cembranelli

Fazer cachaça para Rômulo não era trabalho, era pura alegria. A bebida o fez voltar aos estudos e ele passou a devorar os escassos livros publicados, até então, sobre o assunto. Bebeu até a última gota. Depois foi procurar na fonte, criando uma longa amizade com o engenheiro agrônomo Fernando Valadares Novaes, professor e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), que anos mais tarde desenvolveria o processo de bi-destilação. 

Com novos equipamentos e consultoria especializada, a Destilaria Mato Dentro chegou a produzir cachaça o ano inteiro, muito embora o volume nunca tenha sido o objetivo de seu fundador. Tampouco o marketing e a propaganda, que por décadas foram o boca a boca.

A primeira menção num ranking nacional veio em 2008, na revista Playboy, para a surpresa de Rômulo que completava 83 anos. A inscrição tinha sido feita por um distribuidor que não se conformava de ver um produto tão bom fora da lista das melhores cachaças brasileiras. Mas se havia uma coisa que trazia mesmo felicidade ao criador da Mato Dentro era receber os visitantes que chegavam na porteira do sítio.

Como um verdadeiro alquimista, Rômulo descobriu seu próprio elixir da juventude. Todos os dias, o produtor fazia o mesmo trajeto, de casa até o barracão, onde a cachaça é feita até hoje. No caminho, passava por jardins floridos, parava para apreciar o canto das aves e admirava o lago da propriedade. “Visitar o alambique era o passeio diário dele e sua maior motivação. É um orgulho falar que meu avô fabricava cachaça e, agora, o sonho dele é o nosso sonho”.

Ana Paula Palazi

Ana Paula Palazi

Jornalista, repórter, especialista em jornalismo científico e cachaceira. Atualmente, misturando comunicação, cachaça e percepção pública da C&T num mestrado pela Unicamp

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