Fake News

A história da cachaça está cercada de mistérios, lendas e relatos improváveis. Há uma versão falsa sobre a origem do destilado, muito divulgada principalmente na internet, que assume também um significado fantasioso para as palavras pinga e aguardente.

Diz a lenda que os escravos ao produzirem açúcar, cansados de tanto mexer o caldo de cana no fogo, pararam para descansar e a mistura desandou. Temendo as conseqüências, guardaram aquele melado longe das vistas do feitor. No dia seguinte, para sua surpresa, viram que o líquido havia fermentado, ficando levemente alcoólico e azedo. Ao colocarem novamente no fogo com mais caldo de cana, o vinho evaporou e condensou nos tetos da senzala, formando goteiras que pingavam constantemente na forma de um líquido incolor e de alto teor alcoólico, o chamaram de pinga.

A bebida que pingava e caia nos corpos machucados dos escravos fazia com as feridas ardessem, como uma água ardente ou… aguardente. Caindo em seus rostos e escorrendo até suas bocas, os escravos perceberam que aquela água tinha propriedades que os deixavam mais animados e propensos a trabalhar em condições desumanas.

Quais são as fake news?

1. Apesar de ser uma das versões mais difundidas sobre a origem da cachaça, como toda boa lenda, a estória está repleta de relatos falsos. Ela apresenta a distorcida e ambígua versão da elite brasileira sobre o consumo de álcool por parte dos escravos, ora assumindo a cachaça como antídoto e fuga do cotidiano opressor, ora tendo seu consumo proibido por servir como incentivo à rebeldia. O que se sabe é que os africanos tinham conhecimento sobre fermentação e o consumo de bebidas alcoólicas sempre esteve associado às práticas culturais, religiosas e hedonísticas de muitas tribos. Inclusive, há registros do século XVII que descrevem que os escravos na Bahia já fermentavam os derivados da produção do açúcar de maneira consciente para consumo do vinho de cana. Até hoje, em Paraty, no litoral do Rio de Janeiro, é costume dos mais velhos beber o mucungo, palavra de origem africana para designar o caldo fermentado da cana. Portanto, ao contrário do que aponta o texto acima, não seria uma surpresa a transformação do caldo de cana em bebida alcoólica de efeitos inebriantes.

2. A lenda também peca em explicar o processo de destilação quase como uma intervenção divina. A evaporação do caldo fermentado e posterior condensação nos tetos da senzala é fisicamente improvável. A primeira cachaça teria sido destilada de maneira premeditada em alambiques de barro ou de cobre trazidos pelos colonizadores.

3. A origem da palavra aguardente nada tem a ver com os maus tratos de escravos e é muito mais antiga do que a produção do destilado de cana no Brasil. Ela é um termo genérico para caracterizar bebidas destiladas, como whisky, rum, gim, Cognac. A palavra teria relação com vuurwater ou acqua ardentes, significando água de fogo. Já a palavra pinga faz referência ao processo de destilação em alambique de cobre, em que o vinho de cana é aquecido na panela e seu vapor é resfriado e condensado lentamente, saindo aos pingos.

Sem dúvida podemos afirmar que essa não foi a origem da cachaça. Mas afinal, quem inventou o destilado brasileiro? Nós fizemos um artigo extenso contando mais sobre as hipóteses:

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