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Virga – 1º Gim Artesanal do Brasil é feito de cana e destilado em alambique de cachaça!

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Virga é o primeiro gim artesanal do Brasil e o único no mundo a levar cachaça de alambique no seu blend. Além de apresentar botânicos nacionais, o gim quer valorizar nossa tradição de mais de 450 anos destilando cana-de-açúcar em alambiques de cobre.

Há pouco mais de 10 meses fui convidado para participar da produção do gim Virga. A ideia seria produzir um gim artesanal, de alta qualidade, mas com preço acessível – que não fosse tão caro quanto os equivalentes importados.

Nessa mesma época tinha viagem marcada para Berlim para falar sobre cachaça no Bar Convent Berlin, uma das maiores feiras de destilados do mundo. Por lá, tive a oportunidade de experimentar gins produzidos em diferentes cantos da Europa, feitos com ingredientes e revelando aromas, sabores e histórias locais. Muitas das nossas motivações com o Mapa da Cachaça está em ter no destilado brasileiro uma maneira de valorizar ingredientes e culturas regionais. Em Berlim, vi que poderia fazer algo semelhante produzindo um gim nacional.

Voltei da Europa com a mala lotada de garrafas de gim e com a vontade de colaborar com o projeto.

gim sipsmith

Comecei a investigar. Depois de Berlim, fui para Londres participar do London Cocktail Week e aproveitei para conhecer a produção do gim Sipsmith.

Felipe Jannuzzi e Felix

Felix do Sipsmith, destilaria de gim em Londres

Mas como deveria ser nosso gim nacional?

Apesar da origem holandesa, a bebida se tornou tão famosa na Inglaterra que contribuiu para um dos estilos mais populares, o London Dry Gin: versão do destilado que não leva açúcar. Depois de beber muitas marcas diferentes para buscar referências de qualidade, definimos que faríamos um gim que seguisse esse estilo: o Dry ou Seco.

O segundo passo seria entender qual tipo de álcool usaríamos como base. A maioria dos gins usa álcool neutro de cereais – materia-prima mais acessível na Europa. Mas como estamos no Brasil, resolvemos usar como base alcoólica a cana-de-açúcar. O álcool neutro de cana-de-açúcar, de alto teor alcoólico, tem papel de extrair as propriedades sensoriais dos botânicos durante as infusões.

Outro ponto importante que decidimos desde o princípio é que Virga seria todo destilado em alambique de cobre. Além de melhorar a qualidade do gim, utilizar o alambique de cobre é também uma forma de homenagearmos nossa tradição em destilar cana nesses equipamentos, uma prática que fazemos no Brasil desde o século XVI

Virga Gim, destilado em alambique de cobre

Virga é todo destilado em alambique de cobre para produção de cachaça

Estima-se que existam mais de 40 mil alambiques de cachaça no Brasil – algo notável e que gostaríamos que fizesse parte da história do nosso gim. Como a cachaça é um produto de safra, ou seja, ela é produzida apenas quando a cana está madura, muitos produtores de cachaça possuem uma capacidade de produzir outras bebidas na entressafra. Esses equipamentos de destilação poderiam ser usados para produzir rum, uísque, grapa, gim…

Para a produção do nosso gim, contamos com a colaboração do Gabriel e Fernando Foltran, proprietários da cachaça Engenho Pequeno, de Pirassununga no interior de São Paulo. Toda nossa produção é feita por lá e Gabriel assina como mestre alambiqueiro de Virga.

Depois de definido que usaríamos álcool de cana, precisávamos fechar a receita dos ingredientes e suas proporções. Todo gim tem notas marcantes de zimbro, ingrediente indispensável. E como estamos no Brasil, com rica variedade de recursos naturais, tinhamos uma paleta enorme de ingredientes para escolher.

Mas também não é nosso objetivo apresentar o mesmo de sempre: uma imagem de Brasil estereotipado, apelando sempre para o exótico de botânicos de nomes que nós brasileiros de São Paulo ainda não ouvimos falar. Nós queremos fazer do gim uma maneira de conhecer o Brasil, e não engarrafar um perfume inusitado para turistas buscando experiências rápidas e pouco inspiradoras – não queremos que gostem do nosso gim por ele ser exótico, queremos que gostem dele por ele ser único, por contar uma história e por nos ajudar a entender e valorizar nosso país – ah… e por casar muito bem com gelo e uma tônica geladinha 😉

Como botânico especial para Virga escolhemos o pacová (Renealmia alpinia), uma planta da Mata Atlântica da familia do gengibre. Sensorialmente, achamos que o pacová lembra cardamomo, gengibre, menta, amadeirado – uma pequena semente brasileira com um potencial de sabor incrível ! Quem nos ajudou a escolher o pacová foi nosso amigo Helton Muniz, que em sua fazenda mantém uma preciosa coleção de mais de 1.300 espécies botânicas,

Outro ingrediente especial de Virga, que o torna único, é a utilização de uma pequena porcentagem de cachaça de alambique no seu blend final. Como a maioria dos gins produzidos utilizam apenas álcool neutro (etanol), nossa vontade era trazer para nossa base alcoólica aromas e sabores – algo notável apenas em bebidas que não foram multidestiladas, como a cachaça. Dessa forma, parte da riqueza aromática do nosso gim está na utilização de uma excelente branquinha produzida especialmente para Virga.

 

Virga - Primeiro Gim de pequenos lotes do Brasil

Virga, primeiro gim artesanal do Brasil. Inovamos ao utiliza o alambique de cobre utilizado para cachaça, o pacová e a cachaça de alambique.

Novos destilados brasileiros

Acreditamos e torcemos para que em breve muitas outras marcas de gins brasileiros artesanais sejam lançadas. Estamos no que poderia ser um onda muita interessante com pequenos produtores artesanais lançando suas versões de gins nacionais – como foi com a cerveja anos atrás. Gostaríamos que a popularização de destilados nacionais de qualidade nos ajudem a avançar em algumas questões:

  1. A valorizar nossas receitas e tradições regionais.
  2. A trabalhar de forma sustentável nossos botânicos.
  3. A descobrir e popularizar aromas e sabores dos ingredientes brasileiros.
  4. Utilizar a capacidade ocioso dos centenas de produtores de cachaça para produzir outros destilados artesanais

Onde encontrar?

www.ginfest.com.br

 

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Felipe Jannuzzi

Felipe Jannuzzi

Felipe é produtor multimidia. Na velhice, talvez sossegue e monte o próprio alambique, mas agora quer conhecer e divulgar todos os cantos do Brasil.

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Comentários

5 comentários

  1. Muito boas observações em relação às questões que devemos avançar (apontadas no término do texto). Concordo com todos. Parabéns mais uma vez pela matéria e pela iniciativa.

  2. Uma boa ideia. Estou muito curioso de experimentar. Espero que logo chegará na Alemanha. Não conheço a palavra pacova. Encontrei no dicionário: banana e um tipo de cardamomo. Deve ser cardamomo. Posso imaginar um sabor especial. Parabéns!

    • Oi Henri, o pacová é conhecido como cardamomo brasileiro. Ficou realmente especial. Converse com o pessoal da Amburana que eles podem enviar umas garrafas para você ai na Alemanha. [email protected] / (19) 3258-4726. WhatsApp: (19) 99868-3004

      abraços

  3. Parabéns a todos pelo belo trabalho. Parabéns também pelo empenho, entusiasmo, dedicação e amor dedicado a este produto que só vem fortalecer o mercado de destilado e mostrar ao Brasil e ao mundo do que somos capazes. Espero um dia poder comprar uma ou mais garrafas para degustar e presentear os “mais chegados”.