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100 anos de um ícone na Cachaça Brasileira: Anísio Santiago e a Cachaça Havana

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Anísio Santiago é o produtor da Havana - uma cachaça de Salinas (MG) que virou mito pela sua qualidade, valores e história

No dia 2 de fevereiro deste ano comemora-se o centenário do nascimento de Anísio Santiago, um dos brasileiros mais ilustres da história da Cachaça. Anísio foi responsável pela fabricação e sucesso da cachaça Havana, produzida em Salinas (MG), região que hoje talvez deva a ele muito de sua fama. Muita gente já soube que a família havia perdido o direito de utilizar a marca, processada pelo rum Havana Club, e por isto passou um tempo batizando a bebida de Anísio Santiago. Ao final do ano passado, no entanto, a cachaça reaveu seu nome de batismo, e voltou a se chamar Havana com todo o direito e propriedade.

Cachaça Havana

foto de Claudio Brisighello, usuário do Flickr, sob licensa Creative Commons.

A história da Cachaça Havana da preciosa é interessante para entender um pouco mais sobre o espírito da Cachaça brasileira. Eu falo sobre ela com mais detalhes no meu livro (“De Marvada a Bendita”, 125p, Matrix Editora, r$24,00), e repito aqui que a Cachaça Havana é um grande ícone do que pode ser a Cachaça de qualidade no Brasil.

Anísio começou cedo (1943-1946) a fabricação de um produto de qualidade, desde então com registro e nota fiscal, com todo cuidado e esmero que a mesma merece. Com honestidade, trabalho bem feito e com um empurrãozinho de um caminhão Chevrolet Leadmaster adquirido no Rio de Janeiro em 1947, Anísio fez sua fama por toda região. O que mais espanta em Havana é justamente a sua despretensão: mesmo depois de anos, ela continua quase da mesma forma quando foi lançada, sem ter se sujeitado a pirotecnias marqueteiras ou publicitárias como o fizeram outras marcas de origem parecida, mas com tanta fama quanto. É uma história rara, se não única, e nos dá inspirações sobre como a nossa Cachaça pode traçar um caminho de maior valorização, sem necessitar talvez de tanto alarde aos moldes do mercado.

Envelhecida por cerca de 10 anos na madeira bálsamo, típica em Salinas, a cachaça Havana tem um gosto e sabor muito peculiares – e marcantes. Não é, logicamente, para ser degustada a qualquer hora, tampouco por qualquer paladar desavisado. Fala-se muito também nos seus segredos de produção, mas a experiência de tomar um dos seus preciosos goles vai muito além da mera sensação gustativa. A famosa Pinga tem um legado inegável para a história da Cachaça do Brasil, e em cada trago de sua história envelhecida dissolve-se uma série de causos, mitos, sabedoria alambiqueira e fatos que valem a pena serem contados. Só para dar um gostinho: quem nunca ouviu falar do curioso fato de que Anísio pagava seus funcionários com Cachaça? E quando o governo suspeitou de atividades comunistas na fazenda do produtor? Isso sem contar, é claro, a lista de ilustres que já foram presenteados ou requeriram, eles próprios, seus exemplares da Cachaça.

Por estas e outras, não deu para passar em branco a história de uma de nossas mais icônicas caninhas. Como bons brasileiros, vale a pena conhecê-la um pouquinho mais. Alguns produtores, no entanto, se sentem injustiçados ao ver tanto foco para uma pessoa só, visto que há muitos outros responsáveis pela valorização de nossa bebida nacional. Isto é muito verdade, é claro. O que muita gente não entende é que a fama da Havana não se justifica apenas por ser vista por alguns como a melhor do Brasil, e até a mais cara. Há outros exemplares com preço até mais alto, e outros com características particulares que também garantem uma qualidade excepcional. O que, sem dúvida, esta bebida representa é todo o seu legado cultural, histórico e de “sabedoria” alambiqueira, que transformou muito da Cachaça de Salinas e, consequentemente, a mineira e, quiçá, a brasileira. Não poderia, portanto, passar em branco. Um brinde super especial e até o próximo post!

No blog História de Salinas você encontrará mais informações sobre Anísio Santiago, e, no meu livro (“De Marvada a Bendita”, 120p, Matrix Editora), eu conto um pouquinho mais sobre a história desta marca e sua representatividade para nossa bebida nacional.

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Renato Figueiredo

Renato Figueiredo é um Cachaciador: aprecia a Cachaça de um jeito gourmet, brasileiro, e sem chatice desnecessária. É autor do livro "De Marvada a Bendita: A História, a Gastronomia e as Curiosidades da Cachaça, a Mais Brasileira das Bebidas", no qual fala sobre este novo olhar sobre a bebida brasileira. (Ed. Matrix, 120p - nas livrarias).

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Comentários

3 comentários

  1. A família de Anísio Santiago agradece ao site Mapa da Cachaça pela reverência ao ícone da legítima cachaça de Salinas pelos seu centenário de nascimento. Trata-se de uma data especial para a família, que mantém firme compromisso em produzir uma cachaça – a Havana/Anísio Santiago – com obcessiva busca pela qualidade.

  2. Caro Roberto,
    Agradecemos muito o comentário. É um prazer poder homenagear uma Cachaça tão importante e cheia de histórias para contar e ensinar.
    Forte abraço,
    Renato.

  3. Pingback: Visitando a Cachaça Havana de Anísio Santiago | Mapa da Cachaça