Estrangeiros, Marketing e Cachaça - Mapa da Cachaça
Verallia

Estrangeiros, Marketing e Cachaça

29 de 06 de 2011

Os estrangeiros estão investindo em cachaça

Vamos lembrar de grandes marcas brasileiras? Havaianas, da Alpargatas. Casa Bahia. Guaraná Antártica e cerveja. E outras menos óbvias como Boticário, Habib’s e Caloi. Todas marcas duradouras, ainda contemporâneas, e que estão até hoje fazendo grande sucesso aqui dentro e, algumas vezes até lá fora. Sabe o que elas têm em comum, além de serem ‘brasileiras’? Todas foram fundadas, ou co-fundadas, por executivos estrangeiros radicados aqui.

A história do Brasil foi construída pela mão de muitos brasileiros, é fato, mas brasileiros esses que também parecem ter contado com gente de fora para valorizar sua própria cultura e, principalmente, capacidade. Comecei a notar esse “fenômeno” já no mundo da fotografia. Nomes como Pierre Verger, Thomaz Farkas (!): sempre uma pronúncia difícil ao falar de algo super brasileiro. Houaiss (o dicionário): tem muito estrangeiro envolvido quando o assunto é Brasil.

E o que isso tem a ver com Cachaça? “Tem a ver que o seguinte”: quando ‘cheguei’ no universo da Cachaça de repente me deparei com um fenômeno parecido – estrangeiros estavam investindo mais tempo e esmero na divulgação e valorização da Cachaça do que nós próprios brasileiros. Isso pode parecer uma grande ameaça, principalmente para quem vê a história do Brasil com os olhos que eu vejo, que enxergam um país vendido ao exterior, aberto ao capital estrangeiro, e pouco cuidadoso ou preocupado com suas riquezas. Falar em “estrangeiro” é sempre uma grande ameaça.

Alguns exemplos do que está acontecendo a gente conta nessa série de artigos chamados de Marketing da Cachaça.

No entanto, temos que prestar atenção e sermos, talvez, mais cuidadosos em relação a isso. Existem marcas de Cachaça lideradas por executivos estrangeiros, tais como Cachaça Cabana, Cachaça Leblon, Água Luca e uma por mim recém descoberta Soul, que têm feito um interessante trabalho de marketing pela brasileirinha. Será que mais vale uma marca 100% nacional que exporta seu produto a granel, quase como uma commodity, para ser vendido no exterior com outra marca, ou uma marca “pseudo-nacional” como algumas dessas, fundada por não brasileiros, mas que valorizam mais do que nós próprios a cultura brasileira?

Não acho que todas as campanhas e iniciativas sejam válidas (vocês verão posts ainda sobre isso), mas também acho que temos excelentes trabalhos sendo feitos aí. Acho que é louvável, e temos muito a aprender com eles. Nem que seja para entender  que quem enxergou a oportunidade primeiro foram eles. Mas ainda há tempo de dizer que o Brasil também sabe fazer sozinho. Que o digam Luiz Seabra (Natura), Amador Aguiar (Bradesco), Rogério Farias (Troler), Edson Moura (baterias Moura). Ou o pessoal da Germana, Sapucaia, Armazem Vieira, Canarinha, Rochinha, Serra Preta, Dona Beja, Santo Grau, Tabaroa, Nêga Fulô, Volúpia, Casa Bucco, da Tulha, Maria Izabel, Magnífica, Claudionor, Vale Verde, Havana e até da… Weber Haus.

 

Em tempo: Weber Haus é o nome de uma marca de Cachaça produzida no sul do país. Mas tem nome quase tão complicado como Houaiss! E todas as outras não são escolhidas aleatoriamente: tratam-se de todas as marcas que, como a última, fizeram bonito e foram selecionadas no Ranking Playboy da Cachaça de 2009.

Foto: Ana Carmen, usuária Flickr, sob licensa Creative Commons.

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PUBLICADO POR:

Comentários

  1. Alexandre

    julho 16, 2011

    Gostei muito das colocações. Acontece em muitos setores e inclusive cada vez mais nas cachaças. Temos que mostrar as pessoas, através de todos os meios a questão para enriquecer a discussão e não deixar marcas genuinamente nacionais serem esquecidas por força do marketing, puro e simples.
    Temos que considerar a história num produto tão brasileiro como a cachaça, embora saibamos que o marketing é sempre parte importante desse trabalho, mas o conteúdo deve ser analisado. Abraço a todos!

  2. Alexandre

    julho 16, 2011

    O que vale mesmo é uma marca 100% nacional, que não vende seu produto a granel e sabe agregar valor… mas existe um grande trabalho pela frente no mercado para mostrar ao consumidor isso. Ele também precisa saber.

  3. mapadacachaca

    julho 16, 2011

    Oi Alexandre, aqui no Mapa da Cachaça queremos mostrar isso para os consumidores. É não é tão dificil, já que é a cachaça é um produto tão rico de história, cultura e sabor! Não deixe de visitar o http://www.guia.mapadacachaca.com.br – estamos mapeando as histórias dos alambiques. É um cadastro gratuíto e colaborativo.

  4. Carlos Alberto Pereira da Silva

    novembro 16, 2011

    RENATO estou em pleno acordo com voce quando sua fala transmite a força representativa da cachaça artesanal,falo isso com um pouco de conhecimento de familia venho de familia produtora de refrigerantes, groselha e cachaça. e atualmente estou aposentado e iniciei em meu Sitio o fabrico de cachaça temos que valorizar aquilo que é feito com bastante responsabilidade e capricho a alta qualidade do produto vai ser o carro chefe do produto e o marketing é o nosso cliente que comentará com os demais que ainda não obtiveram o produto. Continue nesse seu proposito de enaltecer nossa cachaça pois é um orgulho de todos os brasileiros.

  5. Renato Figueiredo

    junho 8, 2012

    Caro Carlos Alberto,
    Muito obrigado pelo comentário e boa sorte em sua empreitada na valorização da nossa bebida!
    Renato Figueiredo.

  6. Gabriel Ilário Lopes

    fevereiro 5, 2013

    Ótima colocação. Precisamos aprender muito com os “estrangeiros”, mas nunca tentar “transplantar” os valores e a cultura de fora. Sou sommelier de cervejas e vejo a “invasão” da cultura cervejeira no Brasil. Uma cultura que, quando estudada e observada a fundo, revela uma íntima relação com a história de países como Alemanha, Bélgica e Reino Unido. A raíz da cultura cervejeira está lá, na história desses países e, por mais que se produza cerveja de qualidade no Brasil, dificilmente teremos o mesmo cenários que na Europa. Até os EUA, que vivem um boom de micro-cervejarias têm um panorama diferente do europeu. Desse mundo da cerveja podemos tirar boas lições: admitir a cachaça como um bem cultural brasileiro; compreender a relação da cachaça com nossa história. Se, na Alemanha, o costume é consumir cerveja na própria cidade em que ela foi produzida, aqui, podemos incentivar e valorizar o consumo da cachaça dos vários alambiques que nossas cidades têm. Embora isso já aconteça (aqui no Vale do Paraíba-SP, praticamente toda cidade tem um ou mais alambiques), é preciso institucionalizar essa cultura, mostrá-la como um dos nossos elementos culturais. E, nesse movimento, valorizaremos o consumo de qualidade da bebida: cachaças bem feitas, consumidas com consciência e moderação e afastaremos os tantos estigmas que a bebida carrega. Vamos divulgar os diferentes tipos de cachaça, suas possibilidades gastronômicas, as diferentes sociabilidades que se podem realizar em torno da bebida…enfim, divulguemos a CULTURA CACHACEIRA.

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