Feriado de Finados - Crônicas e Contos

Sexta-feira.

Ante-véspera do feriado de finados – o dia dos mortos caía na terça, mas já tinha se programado para estender à sexta, sua jornada de descanso solo.

“Tô precisando dum tempo sozinho, amor”, “Sim, eu te ligo. Tchau”.

Lembrou que deveria votar – exatamente, tinham conseguido marcar as eleições presidenciais num domingo anterior ao feriado. Mas tinha se esquecido de transferir o titulo há algum tempo e não queria voltar à cidade natal – decidiu ficar sozinho.

“Filho? Cê tá bem? Olha, eu sei que você não vem pra votar, mas aconteceu uma coisa muito chata: o primo morreu”.

Desligou a secretária eletrônica e não se moveu – o infeliz do primo tinha escolhido justamente esse final de semana pra fechar a conta?

Não pensou na ironia, tampouco se comoveu – apenas se pôs a lembrar do primo. Assim como ele, era filho único – tinham a mesma idade e, como costuma acontecer, passaram a infância juntos no interior.

A última vez que tinha visto o primo foi no casamento do falecido. Já não eram tão próximos. Havia ido estudar fora e o primo, cada vez mais caipira, resolveu se casar com 25 anos. Na época, pensou em dizer que era contra, que era uma cagada sem tamanho, mas ponderou – achou que ela estava grávida – e deu os parabéns. De presente, deu uma t.v. junto com o pai e a mãe e, de lembrança, ganhou uma garrafa de cachaça – nem todos ganharam, mas não deu tanta importância: estava se tornando preguiçosamente indiferente.

Seguiu lembrando do primo, da cidade, das pessoas, do cheiro da rua e passou desapercebido pelas 4 horas de distância entre capital e a “terrinha”. Chegou e foi direto ao velório, do lado do estádio municipal numa rua de paralelepípedos. Pensou em fazer piada com o estádio, o primo e a cerimônia, mas se sentiu culpado: fazia décadas que o time da cidade não jogava mais ali – era difícil lembrar com ternura daquele lugar.

Prestadas as devidas homenagens, acompanhou a tia até a casa dela – não queria, mas foi. Soube que o primo estava solteiro há algum tempo; não estava doente; era correto; não fumava; porém, passava o tempo todo em casa. Passou da varanda até a sala, pôs os olhos numa estante velha, deu de cara com uma foto sua  e do primo, cada um com seus 15 anos e ensaiou o choro.

Do lado da foto, uma réplica da garrafa que havia ganho de lembrança no casamento. Sentiu o peso da peça – quase cheia – abriu a tampa de madeira, passou o gargalo debaixo do nariz e, por conta da foto, decidiu fazer um brinde ao primo.

Saiu na varanda, sentou-se no chão, serviu a dose na tampa e bebeu. O gosto surgiu na boca chamando o resto da saudade que existia e resistia, inspirou fundo guardando o aroma pra si, olhou para a rua e chorou.

Fazia tempo que não ficava sozinho.

 

 

Foto: Leandro Paiva

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