“Vai a segunda aí, patrão?”

“Opa! Mas vê se capricha!”

“Você que manda, chefe!”

Eu sempre venho aqui. Acho que das últimas vezes venho com mais freqüência do que quando conheci o lugar. Eu gosto da cadeira na rua, das camisas de futebol na parede, dos aperitivos no jarro de vidro. Das várias cachaças que o dono faz por aqui.

Mas eu não conheço ninguém. Não sei o nome do dono, do garçom, da mulher do dono que sempre aparece e me cumprimenta com um sorriso indiferente – eu tenho certeza que ela acha que eu sou gay. Ninguém. A minha habilidade de ser carismático foi se esvaindo conforme eu fui prometendo e não cumprindo.

Foda-se. Acho que vou me arranjando bem. Quando me sinto assim, faço um balanço da semana – semana pós-carnaval; o ano começou pra todo mundo, mesmo que eu já estivesse trabalhando desde janeiro; cambada de filho da puta; aquele time desgraçado empatou na quarta; tô cansado desde quinta; saco; é, eu vou ficar sozinho mesmo.

O engraçado é que vislumbrei tudo isso quando era mais novo – eu tenho 45: crescer no trabalho, parar com o trompete e seguir sozinho numa caminhada asceta. Enfim, eu sabia disso tudo. Não ficava com medo, não me sentia pressionado, era exatamente como agora. Vai ver essa foi a única promessa que eu realmente cumpri.

Talvez não fosse igual por uma coisa: eu gostava do carnaval.

O bloco na rua. Voltar pra casa de manhã cedo. Experimentar alguma coisa diferente. Ver uma moça bonita na rua e seguir confiante atrás dela. O pessoal vibrando. Pensa: são quatro dias que todo mundo se esqueceu de tudo e resolveu festar.

Hoje eu fico com raiva. Não esqueço de tudo, muito menos tenho alguma confiança ao abordar uma jovem bonita na rua – na rua! Aonde eu andava com a cabeça!

Eu fiquei velho, inseguro e quieto. Na minha – e me basto assim, e pronto. Não é nenhum trauma, as coisas caminharam desse jeito e eu fui atrás delas, no mesmo caminho, na rota certa.

E eu minto. E acredito em cada palavra da minha mentira. Eu fui mais jovem, mais bonito, mais charmoso, mais legal. Eu era esse cara. Uma pessoa que não se importava com o que ia acontecer. Alguém desprendido e simpático, que não ficou abalado quando ela pegou o litro de cachaça, olhou pra mim com uma cara de “poxa vida, não tem nada aqui pra mim” e foi embora festar o carnaval – e eu não fui atrás.

“Mais uma, patrão?”

“A saideira, chefe. Não posso voltar pra casa cheirando caninha!”

“Rá!, Tem que chegar cheiroso pra patroa, né, não?”

“Opa…”

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  • Stefany Silva
    março 4, 2013 at 4:31 pm

    Perfeitamente escrito!

    Um texto natural, verdadeiro. Que se aproxima do leitor!!

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