Eu vi. Ele correu na minha frente, fez como se eu não existisse e pouco adiantou dizer que não queria. Comprou um litro de cachaça dessas que vendem em supermercado, dessas que eu realmente não sei se são boas ou se apenas vem em rótulos legais. Estava tudo errado, viram a gente andando juntos na rua, chovia em plena sexta de Carnaval e eu queria ir pra casa: não gosto nem um pouco do carnaval.

Não gosto. E talvez isso encobrisse a minha vontade de fazer tudo errado. Tudo errado como (ou com) ele. Pensei “eu me conheço, eu sei até onde eu posso ir”. Não era uma desculpa pra não ir ao apartamento dele, não tomar as cervejas, não degustar a cachaça. Não era.

“Eu me conheço”. Fiz questão de pensar de novo. Tudo já havia virado questão. Seja de ordem, de princípios, de vontades, de desejos escondidos e até então perversamente expostos pelo meu par em pequenas pílulas ao longo do caminho. Ele continuava fingindo que eu não existia e eu continuava fazendo questão disso.

“Eu gosto do carnaval. Pensa, olha o bloco: são alguns dias que todo mundo se esqueceu e resolveu festar. Quando é que você vê as pessoas cantando na rua, sem reprimenda, sem objeções a se divertir?”

“Faz sentido.”

Quando ele usou ‘sem reprimenda’ seguido de ‘sem objeções a se divertir’ me deu um certo desgosto, quase nojo. Chegamos ao apartamento dele e ninguém além da gente estava ali.

“Acho que o pessoal foi viajar”

“Você acha, é?” e aí eu fiz questão de provocar com um sorriso quase feliz por não haver ninguém por lá.

“Sim” – ele não percebeu. Tirou o tênis e fez pouca menção se eu estava confortável ou não. Eu coloquei minha bolsa no sofá de dois lugares, limitando o espaço da conversa à minha zona de conforto: longe dele e de qualquer suspiro indecente que eu pudesse invocar. Tocava um disco do Caetano que eu não conhecia e cogitei dizer que sempre preferi o Gil – mas fiquei com vergonha de dizer isso: não gosto de nenhum dos dois. Eu estava acuada, quieta demais, escondida demais. Tirei a jaqueta molhada e disse pra ele colocar em algum lugar seco.

“Por favor?”

“Por favor, você poderia colocar a minha jaqueta que está ensopada em algum lugar seco e que não faça mais estrago do que já fez?”

“Claro”: ele colocou a blusa molhada no quarto dele. Aproveitou para mostrar o resto da casa –um apartamento de três quartos bem arrumado pra um solteiro de 25 anos. Àquela altura, todo o anonimato já me fazia querer alguma coisa, de um jeito que me sentia insegura se ele ainda tinha interesse, se em algum momento ele realmente teve.

“Vamos abrir a cachaça?”

“Eu achei que você não queria.” E ele foi cretino ao me lembrar disso.

Abri a cachaça e tomei uma dose rápida que empurrou pra um canto escuro, dentro de mim, qualquer reprimenda e objeção. O gosto quente da cachaça ainda estava no meu corpo enquanto ele servia a sua dose. Olhei praquela criança de barba querendo minha aprovação para cada passo daquilo que ele entendia ser um jogo de conquista e não tive dúvidas: roubei a cachaça, desci e fui acompanhar o bloco na rua.

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