Vidros Quebrados

Pedro Gomes da Silva, também conhecido como Pedro Bonzinho, era um rapaz solteiro. Trabalhava na agricultura e na lida com animais. Morava e trabalhava na Fazenda Esperança sediada no município de Cuitegí, interior da Paraíba. Pedro dava duro o dia todo, e no final do dia gostava de sair com seus poucos amigos da roça para tomar uns aperitivos.

A preferência deles eram as cachaças brejeiras, mas na necessidade tomavam qualquer coisa, rum, vodka e quando estavam bem de bolso, um whiskizinho sem gelo. Um de seus amigos, o Carlos, dizia que Pedro tomava de tudo. Só não tomava acetona, pois fazia mal pro esmalte do dente.

Na cidade havia poucos bares interessantes, alguns no centro, outros nos sítios, e alguns mais distantes, a exemplo de um chamado Querubim Bar. O nome em si já dizia tudo. O local era um prostíbulo, ou como chamavam, um Brega.

Não tinha nenhum luxo. Não tinha radiola de ficha, não havia pole dance, nem nada de jogo de luz. Nem mesmo quarto havia, se quisessem ficar com alguma moça teriam que combinar e sair para os motéis vizinhos. O bar era desprovido de tudo. Era apenas a bebida, a mesa, e as profissionais do sexo.

Pedro ainda era virgem, não contava isso pra ninguém. E sempre ia escondido pra lá e ficava conversando com as moças pra ver se ele meio embriagado, e elas também meladas, poderia surgir alguma coisa. Nada. Toda vez que ia pra lá, bebia, bebia, e… não comia ninguém. Elas não se embriagavam. Pensava ele. Estas meninas aguentam muito álcool. Bebem mais do que o carro do patrão.

Pois é, a vida rolava, milho pras galinhas, feno pro cavalo, tirar leite da vaca duas vezes por dia. Isto todo dia, o dia todo, contava os dias para o final de semana. Sexta-feira Santa, feriado, o patrão deu folga pra todo mundo. Sem outra opção, e com uma vontade enorme de saber como era afogar o ganso, foi novamente para o Brega. Conheceu uma morena simpática, cor de jambo, cabelos de índia, quase tudo no lugar. Conversa vai, conversa vem. Pediu uma mesa. Sentaram. Pedro pediu a de sempre. Uma caninha de entrada e um cajá de tira-gosto. A moça, como todas as outras do recinto, disse eu só tomo Mazile Rosé. Tudo bem, disse ele. E começaram os trabalhos etílicos. Na terceira dose, já afoito, Pedro pergunta-lhe o nome e onde morava.

– Shirley, sou de Jampa, João Pessoa, em tom de gíria. Ele na oitava dose, a língua meio enrolada, ela nona, ainda firme e sorridente.

– Essas meninas, não existem, são muito preparadas. Disse Pedro.

– Garçom, mais uma brejeira, uma cerveja pra lavar. Toma essa cerveja comigo, né Shirley ?

– Não, disse a moça, só tomo Mazile Rosé.

– Ele já totalmente bêbado, disse, –  Então bota outra porra dessas pra ela, garçom.

Trouxe a conta, noventa e seis reais e cinqüenta centavos.

Pedro, olhou desconfiado, achou caro, mas pagou resmungando.

– É que uma dose de Mazile custa oito reais, disse ela.

O garçom atendeu, e começaram a tomar a saideira. Ele já não conversava coisa com coisa, cantou um aboio, falou de seu pai e sua mãe pra garota, ela já olhando pra outro rapaz que chegara em outra mesa, não seria aquele dia que iria ter sucesso. Aí ele de supetão foi no copo da moça e disse deixa eu dar um gole nessa porcaria também. Bebeu. Degustou, ficou estalando a língua e gritou com toda força dos seus pulmões.

– É quisuki, é quisuki!!!

Confusão arretada, mesas quebradas, gente segurando, carro da polícia. Desvendou todo o mistério, havia um complô entre elas e os atendentes. O rapaz revoltou-se, e, com razão.

foto: uhltank

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