Crônicas e Contos - Sertanejos por Alexandre Severo
Sertanejos por Alexandre Severo

Sinto falta da simplicidade, do raciocínio claro e objetivo, das explicações retas, lisas. Sinto essa falta mais em mim do que nos outros. Porque quando é nos outros, a gente ainda consegue burlar a escassez. O cidadão está lá, falando bicas, chegando em lugar nenhum pelo bem da verborragia, e a gente pede desculpas, interrompe e diz: “Fulano, por favor, ative o foco, sim?”. Ou é fulana que está lá, tecendo mil teorias sobre a necessidade de resolver uma pendenga com alguém, e se justificando, e se esquivando, e debatendo consigo mesma num eterno monólogo sonso e a gente encurta o caminho sugerindo: “mas, Fulana, por que você não marca um encontro com Beltrano pra dizer tudo isso a ele?”

Quando a falta de simplicidade é com a gente fica um pouco mais difícil sanar a coisa. Visto de dentro, o emaranhado é muito mais cabuloso. Não tem jeito de achar o fio que conduz ao centro mais puro do raciocínio. A gente tá dentro dele, do emaranhado, todo confuso, deitado e enredado, a cara voltada pro chão. Assim, não há jeito de levantar e acender a luz.

Mas a gente não toma jeito. Continua fazendo tudo igualzinho todos os dias, se complicando, rocambolizando a existência, crescendo os capítulos de uma novela que só acaba mal porque acaba tarde – se a trama terminasse antes, evitaria o cansaço e o desgaste da vida.

O sucesso dessa mazela que é o “ser complicado” só tem uma explicação: complicar as coisas é necessário. Vai falar que não é? É! É necessário porque livra a gente de dizer ou ouvir a palavra final, da decisão, daquele sim ou não rotundos (quando este é o caso – e na maioria das vezes é) que fazem a gente suar frio e ter queimação nas tripas dias antes de dizer ou ouvir. Complicar é necessário porque aperfeiçoa a criatividade. A gente passa o dia trabalhando na cozinha do nosso pensamento, preparando uma paella mental deliciosa, cheia de teorias exóticas e raras, de cores e cheiros finos que excitam nosso paladar pras coisas complexas. Mas complicar é inútil. No fim do dia, a paella não fica pronta, os ingredientes esturricam, a panela queima, a cozinha fede e a gente vai dormir com uma puta fome e com a certeza doída de que um pão na chapa honesto resolveria o problema.

E esse preâmbulo todo pra dizer que eu sentia falta da simplicidade em mim, né? Eita preâmbulo metalinguístico! E olha que eu nem estou na minha fase mais rococó do pensamento. Já tive ideias mais sinuosas – bendito psiquiatra que um dia me disse: “Sabrina, deixa de tanta metafísica, menina. A vida é X-Salada, X-Salada!”. Verdade é que estou mais comedida nas paellas de cérebro que apronto. Resolvi, há alguns meses, que minha cozinha seria minúscula pra eu não ter tanto espaço pra sujeira – ter uma vida portátil, de quitinete, resolve inúmeras questões materiais e metafísicas. Mas ainda há muito o que redimensionar aqui. Dá pra ser mais simples, sabe? Sempre dá.

No ano passado, passei seis meses viajando pelo norte e nordeste do país, a trabalho. Foi lá, no meio do total desconhecido e de uma escassez proposital, que descobri isso de ser simples na vida. Ouvi e vivi histórias e diálogos que me marcaram pela crueza do pensamento, da objetividade das palavras, da filosofia cabocla que se baseia na ciência das coisas vividas – ou você acha que é apenas sol aquele monte de vinco na cara dos caboclos mais velhos? Basicamente, a simplicidade – que não é simploriedade – só é possível quando a gente tem a manha, a coragem de resolver aquele problema primeiro, aquele, que está embaixo da pilha toda e que é justamente o que a desequilibra e a faz despencar todos os dias, espalhando confusões no chão da gente. Pra meter a mão lá, na base da pilha, é preciso muito topete. Topete que um senhor pernambucano, da cara agreste e morena, palavreou assim, num diálogo rápido comigo logo que cheguei em Olinda:

Ele: tu veio sozinha, foi?

Eu: vim.

Ele: tu tem corági, né?

Eu: hum… achu qui sim.

Ele: é, tudo é mais fáci pá quem tem corági.

Eu: u senhor tem coragem?

Ele: rapáiz, eu tenhu’a corági médonha!

 

foto: Alexandre Severo

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  • Monstrinha
    março 21, 2012 at 9:00 am

    hahaha! coragem medonha foi ótimo!

    De vez em quando eu também decido simplificar minha vida, daí faço uma faxina geral (começando pelas tralhas e guarda-roupa e indo até objetivos de vida rsrsrs).
    Mas devo ter um gene bagunceiro e complicado no sangue, porque quando vou ver já está tudo embolado, emaranhado e confuso outra vez.
    A simplicidade tem que ser um esforço continuo, no meu caso. Infelizmente!!

  • carlos pinto
    março 28, 2012 at 3:09 pm

    ¡ delícia de texto, beleza de conteúdo – gracias & saúde !

  • Shirlei
    julho 16, 2012 at 11:38 pm

    Escrita fantástica, Sabrina!

    • sabrina
      fevereiro 7, 2013 at 10:36 pm

      oi, gente,

      obrigada!!
      simplicidade pra gente.

      grande abraço,
      sabrina

  • FDomingues
    julho 29, 2014 at 5:24 pm

    Adorável.

  • marcia regina
    julho 30, 2014 at 8:28 am

    e nesse remexido da vida
    as mudanças necessárias
    a gente esquece
    a gente bagunça
    a gente complica
    e o que importa mesmo
    e o que importa mesmo
    é as desimportâncias
    é as inutilezas
    e o que falta nesse remexido
    pra ficar uma mistura boa
    é amor coragem, coragem amor
    pra levar a vida X- SALADA
    corági fiee!

    sabrina, obrigada por tudo isso.

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