Crônicas & Contos - Vida de Cabocla Urbanóide - Mapa da Cachaça
Verallia

Vida de Cabocla Urbanóide

12 de 12 de 2011

Quem nasce na cidade costuma ter a sola do pé fina, preservada pela textura macia da palmilha de pano + borracha dos tênis e sapatos. Mas depois de seis meses submetendo a sola à aspereza das areias do litoral nordestino, à vermelhidão das terras do norte e ao contato cru da pele com o sal, o sol e com os extremismos climáticos daquelas bandas, a fineza vai toda embora. O que fica é a dureza e uns sulcos cascudos no calcanhar, que remetem muito aos sulcos das falésias coloridas de Canoa Quebrada, no Ceará. Assim ficam os pés de quem, como eu, é do mato por afinidade de espírito, mas não por localização geográfica.

crônicas e contos - Pés caboclos em kombi lotação na ilha de Itamaracá.

Pés caboclos em Kombi lotação na ilha de Itamaracá

A mutação epitelial nos pés nem foi o fato mais extremo daquela viagem de tantas diferenças pelo norte e nordeste do país. Extremos mesmo eram os bichos que encontrei na comunidade ribeirinha a 100 quilômetros de Manaus, por exemplo, às margens do rio Negro, onde passei cinco dias. Cada inseto, cada alien de asas cascudas… um maior que o outro. Todos imortais. Às nove da noite, tudo escuro – não havia luz elétrica –, o banheiro da casa era a sala de estar de várias espécies com asas. Mas disso eu não sabia até a tentativa do primeiro banho. Atenta ao caminho até o box de madeira, lá fui eu, cabocla de alma, urbanóide na prática, com uma vela acesa, carregando toalha e pijama. Com a vela na mão direita, bem próxima das paredes do banheiro, fui escaneando cada milímetro do espaço antes de tirar a roupa e ligar o chuveiro. Parede 1: ok. Parede 2: ok. Parede 3: ok. Chão: ok. Teto: ok. Tudo limpo. Ninguém mais se movia ali além de mim. Entrei, pendurei a toalha num prego, apoiei saboneteira e pijama na privada, fechei a porta (que era a parede 4) e apoiei a vela acesa num aparador atrás dela, na mesma altura de duas baratas gigantes, uma preta, outra transparente, ambas descomunais, quase do tamanho da palma da minha mão. Prendi a respiração, peguei a vela, a saboneteira, o pijama, abri a porta, saí de ré, voltei pro quarto e dormi suja. A gente enfrenta do jeito que sabe os desafios da vida.

crônicas e contos - sabrina em itamaraca

Sabrina em Itamaraca de pés descalços

Outro extremismo caboclo ao qual um ser estranho do asfalto não está acostumado, absolutamente, é a integração da natureza à própria vida, ao próprio corpo. Natureza e caboclo estão em comunhão, e por diferentes que sejam, não se repelem. E eu juro que tentei viver isso. Mas comunhão tem limites na cabeça de um urbanóide. Quando um carrapato aderiu ao meu corpo pela primeira vez na vida, foi durante essa tal viagem. Eu estava em São Miguel do Gostoso, Rio Grande do Norte. Àquela altura, eu já havia passado por alguns lugares do norte e nordeste e vivido algumas caboclices que me deixaram mais ligeira, a carne mais dura, a vida mais agreste. Já tinha tomado mordida de cavalo e picadas de marimbondo; tinha tido insolação, virose e intoxicação alimentar. Já tinha montado um cavalo bravo com sela frouxa que decidiu disparar comigo e também já havia atolado no mangue até os joelhos, sozinha, na Ilha de Itamaracá (PE). Ainda não havia sido queimada pelo tentáculo de uma caravela (espécie de água viva) que confundi com um fio plástico boiando num mar da Bahia. Mas o carrapato foi algo totalmente especial.

Eu me arrumava diante do espelho quando, ao levantar o braço, notei uma pinta inédita no antebraço, na altura do cotovelo. Era impossível enxergar a pinta de frente sem utilizar o espelho. Me aproximei, olhei, olhei. Pinta diferente, essa… Graaande, gordinha até. Do dia pra noite? Humm… E isso aqui na borda? Tá parecendo com… com…. patas? A ideia de que poderia ser um carrapato me deu uma agonia momentânea, dessas de querer sair correndo e pedir ajuda. O desespero, na verdade, era muito menos pela periculosidade real do bicho do que por conta de um pesadelo recorrente que tenho (e que é angustiante) de que um bicho asqueroso morde alguma parte do meu corpo e, por mais que eu tente tirá-lo de mim, ele não se deixa soltar. Mas àquela altura da expedição, como eu disse, a vida estava bem mais agreste. Me tranquilizei pensando que poderia não ser um carrapato, e sim um outro bicho qualquer, menos aderente. Tentei fazer como em outra vez durante aquela viagem, quando peguei na ponta dos dedos um bicho que caminhava pelo meu corpo, ergui-o na frente da tela do notebook, digitei “carrapato” no Google, cliquei em imagens e comparei o bicho real com o virtual. Não era carrapato. Quando tentei tirar o inseto do meu cotovelo pra confirmar na internet quem era ele constatei, pela resistência dele em me deixar, que daquela vez era, sim, um carrapato.

Não havia jeito de nos separarmos. Cavuquei as bordas com a unha, tentei espremê-lo pele afora pelas laterais; até o cartão de crédito eu usei pra ralar a pele e ver se ele se desprendia. Impossível. Era carrapato mesmo; um pioneiro no meu corpo e que, pelo ineditismo, até merecia estar ali. Foi então que lembrei da minha mãe me contando de como tirava o bicho do corpo nos seus tempos de cabocla de verdade, nas roças do interior de Minas Gerais onde ela cresceu e onde carrapato é rei. Basta tocar fogo no bicho que ele se desprende, simples assim – mas é preciso cuidado ao retirá-lo do corpo pra que não fique nenhuma pata encalacrada na pele que venha a inflamar depois. Bastou lamber o bicho com a chama do isqueiro umas duas vezes para ele jogar as patinhas pra cima, feito gente em micareta. Com um pinça, icei seu corpinho tostado, inteiriço, e o coloquei na palma da mão para admirá-lo. Era grande e parrudo meu primeiro carrapato. Um verdadeiro herói. Tive o impulso de ligar pra minha mãe e contar a façanha. Mas ela, sem dúvida, ficaria preocupadíssima com doenças provocadas por carrapatos, barbeiros, mosquitos em geral, e ia perguntar se eu estava comendo direito, tomando água, dormindo, se minha alergia estava controlada, se eu estava usando protetor solar…. afff. Melhor que isso, deixei registrado pra ela e mais uma centena de pessoas no meu Facebook o relato daquela experiência. Foi um registro curioso: meu PC aberto em cima da mesa da pousada, areia e maresia por todos os cantos, coqueiros, pernilongos, meu pé cascudo descalço no chão, o carrapato-defunto ao lado do teclado. No texto postado no mural do Face, a experiência narrada com uma linguagem matuta que desenvolvi especialmente para as redes sociais. Minha caboclice urbanóide só podia chegar ao mundo via internet.

“agora é oficial: ganhei um carrapato no cotovelo. pra tirar é assim: tu acende um fósforo, mete o fogo no bicho, ele joga as maozinhas pra cima (micareta!), ce pega ele no contrapé com uma pinça e puxa. depois poe ele num envelope e manda pra mãe com o seguinte dizer: “mãe, estive em são miguel do gostoso e lembrei de voce”, afinal, foi ela quem ensinou o truque do fogo. salve, dona maria, (ainda) to saudável”.

Crônicas e Contos - Escritório em São Miguel do Gostoso

Escritório em São Miguel do Gostoso

 

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PUBLICADO POR:

Comentários

  1. maray

    dezembro 13, 2011

    só de ouvir contar já estremeci, com medo e nojo. Vc conta muito bem, o que no caso do carrapato chega a ser um problema, que eu sou urbanóide até por convicção filosófica. Mas urbanóide ou não, amo meus bichos de paixão e já tirei muito carrapato das minhas cachorras. com pinça, com bacon, só não usei a boca porque amo minha saúde, além das cachorras.
    Adoro te ler!

    abração

  2. sabrina

    dezembro 15, 2011

    Oi Maray,

    tudo bem?
    que massa que curtiu!
    mas me explica uma coisa: tirar carrapato com bacon? como? essa eu não conheço (e é sempre bom conhecer uns truques novos 🙂

    beijo!
    sabrina

  3. Marcelo Rosa

    dezembro 28, 2011

    Olá Sabrina! Que fantástico ler seus relatos! Adoro ler o que você escreve! É um orgulho enorme ver que a minha antiga companheira de ônibus (da Cásper para o Jaguaré) escreve maravilhosamente bem. Não sei se você se lembra ainda de mim, mas fica aqui a minha admiração pelo seu trabalho …

    Falta nos presentear com um livro, né? Conteúdo pra isso você tem …

    Parabéns, Sá!

    Bjs

  4. Renato Figueiredo

    janeiro 3, 2012

    Oi, Sabrina!
    Me diverti muito com suas “caboclices urbanóides”. Que delícia tudo isto aí!
    Abração,
    Renato.

  5. Diane

    janeiro 7, 2012

    Oi Sabrina. Eu também tenho o cabelo curtinho e também sou moça. Moro em Minas onde, como você disse, carrapato é rei. Desde pequena aprendi a identificá-los e puxá-los com a unha ou tirá-los cuidadosamente à maneira do meu pai: passar álcool e cortar o corpinho do carrapato com tesourinha de unha deixando o ferrão na pele para se soltar naturalmente. Mas isso a gente faz quando encontra um ou dois hóspedes no corpo. Quando são centenas… nem em Minas existe solução. Há muitos anos atrás minha família tinha um sitiozinho aqui perto e fomos passar um feriado lá com a parentada . Deitei debaixo de uma árvore, cochilei e quando acordei estava coberta de uns pontinhos minúsculos. Me disseram que eram carrapatos mas nem acreditei porque eram apenas pontinhos, as patas não eram visíveis. A carrapata mãe bota os carrapatinhos numa espécie de ovão, que é chamado de bola e é levado pelo vento.Uma dessas bolas bateu em mim e os bichinhos se espalharam pelos meus braços, costas, cabeça, até na perereca tinha. Começaram a me picar, fiquei cheia de calombos e coceiras. Desesperei. Cada parente dava um palpite. Ainda bem que não conheciam a técnica da sua mãe, de lamber o bichinho com fogo. Já pensou? Eu é que teria jogado as mãos para cima, virado uma tocha humana. As tias mais velhas decidiram que a solução seria usar fumo com álcool. Como não tínhamos álcool, misturaram o fumo com cachaça e me esfregaram aquilo. É bom que você saiba para suas caboclices futuras: não resolve! As criaturinhas me picaram durante todo o feriado. Os calombos viravam bolinhas de pus. As bolinhas se rompiam e viravam feridinhas. Tudo isso coçava, coçava, coçava. A família me vigiava dizendo: “Coça só em volta da picada. Em cima não, para não piorar.” Eu obedecia mas, quando às vezes eu acertava em cheio o meio da ferida era uma gostosura. Passava a unha com força, dava aquela coçada legítima e merecida. Levei semanas para ficar curada das coceiras, as cicatrizes permaneceram alguns meses e o trauma dura até hoje. Carrapatões não me assustam mas carrapatiquinhos…..socooooorro!

  6. sabrina

    fevereiro 27, 2012

    Diane, menina, que história incrível!!
    e eu achando que meu carrapatão era rei. nada! carrapato assustador é o pequeno e que vem em bando!

    gente, me deu gastura de imaginar esses carrapatinhos todos no meu corpo. mas que bom que eles te deixaram. fico imaginando esse povo que tá acostumado com isso, que ve isso acontecer direto, no corpo próprio ou alheio. é outra relação com a natureza, uma relação natural, de bicho mesmo, bicho homem com bicho carrapato. eu queria ter metade dessa força e desprendimento que os caboclos tem, mas eu até tento, saio da cidade, mas a cidade nao sai de mim.

    mas olha, dou o braço a torcer: seu bando de carrapatos ganhou do meu carrapato solitário em termos de bravura.

    obrigada pela visita!!

    beijo
    sabrina

  7. bolla

    novembro 24, 2013

    Oi, Sabina tudo bem?
    Li alguns textos seus por aqui e gostei do seu estilo. Muito gostoso de ler. Acho que vc gosta de coisa do nordeste. mas mora em São Paulo, né?
    Também já morei seis anos em SP. e trabalhei na Folha. mas não esqueço meu nordeste, apesar de ter vivido quase toda a minha vida aqui no Rio de Janeiro.
    E já que vc gosta de temas nordestinos, estou participando do concurso do BAnco Santander, com uma história verídica, a única batalha sangrenta ocorrida na Independência, no nordeste, mas foi abafada nos livros e na própria História, tanto que os professores desta disciplina no sudeste a desconhecem
    É um pastiche onde intertextualizei meu personagem. A cada comentário o texto vai se classificando.
    A história deste ano é O VELHINHO IN: A BATALHA DO RIO JENIPAPO [direto no Google] e tem mais duas bem nordestinas.
    END: https://www.talentosdamaturidade.com.br/trabalho/40383/o-velhinho-in-a-batalha-do-rio-jenipapo-a-sangre
    O VELHINHO IN: O EXAME DE PRÓSTATA DE IVANILDO DOS SEUS TECLADOS
    O VELHINHO IN: QUE HORAS SÃO?
    Obrigado e parabéns!
    MEU FACE: OCEANN BOLLA

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