Crônicas & Contos - Tu é rapaiz ou môça? - Mapa da Cachaça
Verallia

Tu é rapaiz ou môça?

19 de 10 de 2011

Sabrina Duran no Crônicas e Contos escreve sobre as confusões de gênero pelas quais passou em 6 meses viajando pelo Brasil.

Ilustração Sami Makino para crônicas de Sabrina Duran

“Na maioria dos episódios de confusão de gênero, a vida é bem mais difícil pra quem confunde” – Sabrina Duran para o Crônicas e Contos

Quantas vezes não ouvi essa pergunta enquanto viajava a trabalho por cidades nordestinas. Foram mais de 50 cidades visitadas, e em cada uma delas, uma estranheza: ôxx, maish com u cabelu curtu assim, tu é rapaiz, né não?

Pois é… não. Eu sô é moça.

Cabelo curto pra mulher no nordeste não é carne de vaca. Você passa dias andando por lugares diferentes e não vê uma única nuquinha feminina de fora, batidinha, muito menos raspada como a minha – raspada atrás e dos lados. E a minha semi-careca vem adornada com uma estranheza a mais: um topete no topo da moranga. Comecei a notar que cabelo curto não era mesmo algo considerado feminino no nordeste quando comecei a ser confundida, sistematicamente, com um menino. E isso não era premissa de pessoas mais velhas, que poderiam ser consideradas conservadoras ou com suspeita de problema de visão. Jovens também se confundiam comigo, e quando estavam em grupo, os comentários vinham em forma de risinhos.

Meu rosto não é masculino. Mas admito que minhas roupas contribuíam um pouco para a confusão de gênero. Como fazia sempre muito calor pelos lugares por onde passava, meu traje de todos os dias era sempre um short velho, uma camiseta velha, larga e com a gola e mangas cortadas, chinelo e nenhuma vaidade.

Lembro de estar lavando as mãos no banheiro do aeroporto de Aracaju (SE) quando uma senhora entrou distraída, buscando alguma coisa dentro da bolsa. Ao erguer a cabeça e me ver de perfil lavando as mãos na pia (eu estava sozinha ali), ela exclamou em voz alta: “Nossa! Entrei no banheiro de homem!”. A senhora, então, deu meia-volta e foi ao outro banheiro. No de homem. Num ônibus lotado de Salvador, eu tentava descer enquanto uma multidão tentava entrar. Alguém com muita pressa pra sair atrás de mim me empurrava e dizia: vai, môço, anda, anda! Eu andava, e procurava não olhar para trás pra não ter que dar nenhuma resposta enviesada – depois de um tempo de confusões repetidas e explicações decoradas (“é que em São Paulo as mulheres também usam cabelo curto e blá blá blá), o limite de paciência da gente acaba ficando um pouco menor.

O engano primeiro, eu me recordo, partiu de forma doce de uma menininha de quatro anos, a Vitória, que era minha vizinha de rede num barco que ia de Manaus (AM) a Belém (PA). Vitória estava no colo da mãe e me olhava com muita circunspeção. Quando se sentiu à vontade, me perguntou: “tu é muié?”. Sou, respondi. “I tu tem filho?”. Não, respondi de novo. Alguma convenção sobre aparências deve ter começado a se quebrar dentro dela naquele momento, de forma ainda confusa: cabelo curto + mulher + sem filhos? Algo aí não bate. Mas a pequena Vitória ainda teria tempo até começar a fritar com essas reflexões mais conceituais sobre os estereótipos humanos.

A capital paulista, onde nasci, é o Brasil pasteurizado. As comidas, hábitos, costumes, as músicas, as tradições, tudo – ou quase tudo – foi naturalmente padronizado e amenizado. Talvez até para tornar a cidade mais palatável a todos os migrantes e imigrantes que aqui chegassem e se estabelecessem. Em São Paulo, tudo é permitido porque não temos “rabo preso” com nenhuma cultura – embora abriguemos quase todas elas. Minha semi-careca + meu topete no alto da moranga não chamam a atenção por aqui – a não ser quando eu decido sair de casa com um topete do Elvis.

Entre todas as confusões de gênero pelas quais passei em seis meses de viagem, nenhuma delas foi tão emblemática quanto a de um segurança da prefeitura de Olinda, em Pernambuco. Eu me dirigi a ele, um senhor de uns 60 anos, para pedir uma informação. O senhor era tão simpático que ficamos conversando por uns 10 minutos. Ele me mostrou a prefeitura toda, me contou histórias e deu conselhos. Só quando nos despedimos é que e ele perguntou meu nome.

– Sabrina.
– Então tu é moça?
– Sô.
– Pensei que tu fossi rapaiz.
– Não, sô moça.
– Quantuzanu qui tu tem?
– Trinta.
– Vixi! Pensei quitutivéssi catôzi.
– Não, tenho trinta.

Ele fez silêncio. Tinha cara de confuso.

– Ôxi! Primêro tu diz qui é rapaiz… agóra diz qui tem trinta anos.
– Eu disse que sô moça.
– I foi?
– Foi.
– Vixi! Agóra laishcô!
Na maioria dos episódios de confusão de gênero, a vida é bem mais difícil pra quem confunde.

* A ilustração desse texto da Sabrina Duran foi especialmente feita pela talentosa Sami Makino.

 

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PUBLICADO POR:

Comentários

  1. Jéssica

    outubro 19, 2011

    Quando se está bem consigo mesmo, “a vida é bem mais difícil pra quem confunde.”
    Ótimo texto e intepretações do sotaque brasileiro!

  2. Jean Pessoa

    outubro 19, 2011

    Massa! Cheguei a ouvir essas histórias sendo contadas aqui no Piauí pela própria. Sabrina, gostaria muito de ouvir mais histórias sobre o nordeste. Ficarei de utuca aqui no blog. Bjs mil!

  3. sabrina

    outubro 19, 2011

    Jean, lindo, obrigada! meu, que saudades. eu trago muitas histórias aí do Piauí comigo, um dos lugares mais incriveis que visitei, com as pessoas mais doces. queria tanto ver voces de novo… vou tentar no próximo ano. beijo grande!! e volte sempre aqui, tem muita coisa boa sendo publicada no mapa da cachaça 🙂 (precisava falar da Mangueira aqui! 😀

  4. sabrina

    outubro 19, 2011

    Oi Jéssica,
    valeu! eu adoro sotaques. ouvi muitos durante a viagem e até hoje ainda consigo diferenciar alguns quando ouço, de tanto que eu prestava atenção. uma delícia.. 🙂

    beijo!

  5. Tiago Tadeu

    outubro 31, 2011

    Adorei o seu texto! E o seu relato..só acho difícil confundir uma moça tão bunita como ocê..com um homem..rs
    Parabéns pela crônica.

  6. maray

    novembro 11, 2011

    Gostei muito da crônica! Cheguei a pensar que “cachaça e mapa da cachaça” fossem apenas imagens. Deve ser porque não sou consumidora de cachaça mas de vinhos. ( o que afinal não quer dizer nada, porque só consumo, não sou conhecedora…)
    Mas vc parece ter conhecimento da “cachaça” de verdade!
    Por enquanto, o que temos em comum é que ambas gostamos desta cachaça que é escrever. ( e de cabelo curto)

    um beijão

  7. sabrina

    novembro 16, 2011

    Oi Tiago,

    tudo bem?
    fico feliz que tenha curtido o texto!
    sobre o elogio, obrigada 🙂 e, olha, confundem, viu? e muito!

    beijo
    sabrina

  8. sabrina

    novembro 16, 2011

    ei, Maray

    tá boa?
    adoro vinho (e cachaça). mas confesso que não manjo muito de nenhum dos dois. a Gabi e o Felipe, idealizadores desse site, é que entendem do riscado etílico 🙂 eu só aprecio, e escrevo, e corto o cabelo cada vez mais curto 🙂

    beijo pra vc
    e vida longa às nucas expostas

  9. Alexander Jones 9

    janeiro 9, 2012

    Escreve poemas, contos e crônicas pelo simples prazer de versejar a vida e socializar o saber do sentido.

  10. sabrina

    fevereiro 27, 2012

    é essa a ideia, Alexander.

    obrigada pela visita!!

    grande abraço
    sabrina

  11. Victor Emanuel

    fevereiro 4, 2014

    O texto em si ajuda a construir preconceitos. Cria a ideia que o nordeste é preconceituoso como São Paulo não é. Talvez porque a autora saiu do seu gueto em São Paulo e foi viver em uma realidade que não há pessoas como ela.

    Algumas das descrições são construídas para construir-se a ideia de preconceito, como a senhora que entrou no banheiro e “no susto” achou que era masculino! Acredito que não seja uma confusão de gênero, e muito menos preconceito nesse caso, apenas o susto de se encontrar alguém com perfil do outro banheiro.

    Mas o maior preconceito é a pessoa estar no Norte em uma descrição de uma viagem pelo Nordeste. Belém e Manaus não fazem parte do nordeste!

    Sugiro a autora a sair do seu gueto em São Paulo e verá que as mesmas situações acontecem. Ou quem sabe, ficar um tempo no banheiro do aeroporto de Guarulhos, quem sabe uma educada senhora não-preconceituosa paulistana também tomará um susto achando que entrou no banheiro errado!

    A melhor maneira de combater o preconceito, é não reproduzir nenhuma forma de preconceito!!!!!

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