O Peixe Assado Da Nega - Mapa da Cachaça
Verallia

O Peixe Assado Da Nega

29 de 05 de 2018

Adão sobrava entusiasmo, era desses homens que sempre tem um plano em mente, que sempre está construindo algo – mesmo que sem pé nem cabeça.

Pescaria - rede
– Nega, vai preparando o forno que eu mais Zé, hoje, vamos encher o balaio!

O entusiasmo do marido sempre encantou a Nega; que, aliás, perdoem-me os maus modos. Deixem-me apresentá-la: ela era Maria. Havia quinze anos que dançara com ele no baile da chapinha e desde então não pensava em outro homem. Ele era Adão, nome bíblico concedido por sua mãe como o fizera a todos os outros filhos; os que não receberam nome cristão eram homônimos de algum avô ou bisavô.

Adão sobrava entusiasmo, era desses homens que sempre tem um plano em mente, que sempre está construindo algo – mesmo que sem pé nem cabeça. Maria via uma graça nisso, mas sempre pagava o pato de ter que colocar a mão na massa para consertar os cambalachos do marido. Essa semana ele encasquetara que faria uma pescada e com os tucunarés a Nega faria um assado para os amigos.

Troço complicado esse negocio de pescaria! Quem já é pescador tem tudo em ordem, as varas estão sempre alinhadas, o pesqueiro já é conhecido, as iscas são separadas de véspera. Mas para quem é aventureiro de lagoa – como eu e este meu amigo – tirar peixe dá água dá trabalho de não desejar nem pra inimigo. Adão passou as horas livres de sua semana de rodeio com os preparativos. Fuça paiol velho para achar o material de pescaria, ajeita vara, quebra vara, corta vara nova, põe para secar, ajeita linha, poca linha, corta linha, troca linha, desembaraça linha, principalmente desembaraça linha, troca anzol, coloca chumbada, tira chumbada pra colocar a bóia, coloca chumbada novamente, procura peneira, acha peneira, remenda peneira, decide que a peneira velha não dá, compra peneira nova… eu estou cansado só de lembrar, mas meu amigo com todo esse reboliço mais se empolgava e mais crescia seu plano de pescaria… encasquetara de chamar mais amigos. A Nega ficava louca, já imaginava a trabalheira que teria, como sempre ela que organizaria o reboliço.

“Não inventa moda, Adão! Tem nem cadeira para esse povo todo!” advertia ela o marido.

Tanto pontuara que convenceu-o a limitar a farra a Zé, Alemão, Preto e o dono do pesqueiro. “A Nega faz de um jeito que é uma delícia” explicava ele salivando. “Ela pega o tucunaré, enrola na folha de bananeira e assa no cupinzeiro… ai nós acompanha com farofa e banana cozinhada… o Alemão vai levar uma garrafa de branquinha que um doutor vizinho do primo dele faz toda nos conforme, igual não tem e nunca vi”.

No dia da pescaria levantou mais cedo do que de costume, passou café preto mais amargo do que geralmente passava, jogou milho para a criação, quebrou mandioca para as leitoas, deu uma última ajeitada nas varas, separou um puçá, lembrou que não tinha fieira decente para colocar os peixes, então fez uma com fio que retirou do varal… já estava ficando quente quando foi esperar o Zé na estrada, já perto de onde pegava as iscas, mas antes gritou pra Nega já ir preparando o forno. Desceram pela picada feita pelas vacas até a beira do córrego, onde a água batia no joelho. Adão parou a peneira de banda, contra o sentido dá água, e o Zé veio de cima tocando as piabinhas – igual a um vaqueiro. Quando levantou a peneira ela veio cheia de peixinhos desesperados. Eles se debatiam freneticamente parecendo dobrar o número.

“Eeeita, fartura, compadre!” Gritou o amigo aturdido.

Pressentiram que a pescaria renderia. Piabas grandes e pequenas, camarõezinhos, carás, caramujos, barrigudinhos…. até um filhote de traíra veio na primeira leva. Na segunda duas carás grandes, do tamanho da palma de uma mão se debatiam junto das iscas. Colocaram tudo no samburá e partiram para o pesqueiro. Lá arrumaram um canto em baixo de uma mangueira para arriar os apetrechos e foram para a lagoa escolher onde armariam as varas. Havia muito escutado dali, das histórias de pesca da li, das estórias talvez. Dizem que na semana anterior o Gago havia pegado mais de trinta sentado na pedra, por traz da galhada seca de um jenipapeiro. Mais adiante, onde o capim Angola faz uma moita na beira d’água, Beto encheu uma fieira só de tucunaré graúdo, os pequenos ele devolvia. Ali então ficaram, jogaram umas iscas soltas na água para atrair os bichos, colocaram camarão no anzol – só até a metade porquê tucunaré gosta de isca viva – e lançaram sua sorte na lagoa.

Passou algum tempo e nada. Nem uma biliscadinha! Checaram as iscas, mas não tinha nada de errado… esperaram mais um tempo e nada aconteceu. Trocaram a espera, foram para a pedra… nada. trocaram os camarões por piabas… nada. As horas foram passando, foi dando tédio. O sol foi ficando a pino, ardia. Viram algo se mexendo do outro lado, foram para lá…. nada. Tentaram usar cará de isca… nada. Adão lembrou de um ensinamento do tio: agitar a pontinha da vara na água para atrair os perdedores… nada. Descobriram um pé de limão galego carregado, lembraram da cachaça que o Alemão levaria, deixaram as varas armadas e foram catar limão. Quando voltaram uma vara balançava, correram esperançosos, taquicárdicos, quando Adão içou a vara não teve muito trabalho para retirar o peixe dá água. Era um tucunaré pequeno. Pequeno não, era médio – sejamos bondosos. De alguma forma aquele peixe os renovou um pouco de esperanças, tentaram por mais uma hora … nada. Voltaram para casa com o samburá cheio de carás e outros peixinhos e um saco de limão galego.

Acontece que Maria conhece o marido que tem e não acertaria seu relógio com os ponteiros do dele… lembrou que no fundo do congelador, em baixo de uma pá de cabrito que mataram recentemente, havia um saco cheio de tucunarés que seu irmão havia pescado de rede umas semanas antes. Assim que o marido saiu para pescaria lhe dando ordens para preparar o forno ela colocou os peixes para descongelar ao sol. Quando os homens voltaram com seu tucunaré solitário a mesa já estava arrumada. A cozinha tinha cheiro de comida. A Nega fritou os camarõezinhos e serviu com farinha. A garrafa foi secando de vagarzinho. Eles riam. Contavam várias histórias da pescaria… lembraram das carás gigantes que pegaram na peneira, da violência da bocada do tucunaré, dos peixes que perderam….

“O assado da Nega é uma beleza, não é” Adão ostentava orgulhoso.

De longe, com o rosto um pouco corado pelo calor do fogão, com uma gotinha de suor escorrendo pelo dorso, Maria via uma graça genuína em tudo isso… Olhava com ternura a empolgarão do marido. Sentia-se viva. Sabia-se feliz!

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