Crônicas & Contos - A coragem medonha da simplicidade - Mapa da Cachaça
Verallia

A coragem medonha da simplicidade

24 de 02 de 2012

Crônicas e Contos - Sertanejos por Alexandre Severo

Sertanejos por Alexandre Severo

Sinto falta da simplicidade, do raciocínio claro e objetivo, das explicações retas, lisas. Sinto essa falta mais em mim do que nos outros. Porque quando é nos outros, a gente ainda consegue burlar a escassez. O cidadão está lá, falando bicas, chegando em lugar nenhum pelo bem da verborragia, e a gente pede desculpas, interrompe e diz: “Fulano, por favor, ative o foco, sim?”. Ou é fulana que está lá, tecendo mil teorias sobre a necessidade de resolver uma pendenga com alguém, e se justificando, e se esquivando, e debatendo consigo mesma num eterno monólogo sonso e a gente encurta o caminho sugerindo: “mas, Fulana, por que você não marca um encontro com Beltrano pra dizer tudo isso a ele?”

Quando a falta de simplicidade é com a gente fica um pouco mais difícil sanar a coisa. Visto de dentro, o emaranhado é muito mais cabuloso. Não tem jeito de achar o fio que conduz ao centro mais puro do raciocínio. A gente tá dentro dele, do emaranhado, todo confuso, deitado e enredado, a cara voltada pro chão. Assim, não há jeito de levantar e acender a luz.

Mas a gente não toma jeito. Continua fazendo tudo igualzinho todos os dias, se complicando, rocambolizando a existência, crescendo os capítulos de uma novela que só acaba mal porque acaba tarde – se a trama terminasse antes, evitaria o cansaço e o desgaste da vida.

O sucesso dessa mazela que é o “ser complicado” só tem uma explicação: complicar as coisas é necessário. Vai falar que não é? É! É necessário porque livra a gente de dizer ou ouvir a palavra final, da decisão, daquele sim ou não rotundos (quando este é o caso – e na maioria das vezes é) que fazem a gente suar frio e ter queimação nas tripas dias antes de dizer ou ouvir. Complicar é necessário porque aperfeiçoa a criatividade. A gente passa o dia trabalhando na cozinha do nosso pensamento, preparando uma paella mental deliciosa, cheia de teorias exóticas e raras, de cores e cheiros finos que excitam nosso paladar pras coisas complexas. Mas complicar é inútil. No fim do dia, a paella não fica pronta, os ingredientes esturricam, a panela queima, a cozinha fede e a gente vai dormir com uma puta fome e com a certeza doída de que um pão na chapa honesto resolveria o problema.

E esse preâmbulo todo pra dizer que eu sentia falta da simplicidade em mim, né? Eita preâmbulo metalinguístico! E olha que eu nem estou na minha fase mais rococó do pensamento. Já tive ideias mais sinuosas – bendito psiquiatra que um dia me disse: “Sabrina, deixa de tanta metafísica, menina. A vida é X-Salada, X-Salada!”. Verdade é que estou mais comedida nas paellas de cérebro que apronto. Resolvi, há alguns meses, que minha cozinha seria minúscula pra eu não ter tanto espaço pra sujeira – ter uma vida portátil, de quitinete, resolve inúmeras questões materiais e metafísicas. Mas ainda há muito o que redimensionar aqui. Dá pra ser mais simples, sabe? Sempre dá.

No ano passado, passei seis meses viajando pelo norte e nordeste do país, a trabalho. Foi lá, no meio do total desconhecido e de uma escassez proposital, que descobri isso de ser simples na vida. Ouvi e vivi histórias e diálogos que me marcaram pela crueza do pensamento, da objetividade das palavras, da filosofia cabocla que se baseia na ciência das coisas vividas – ou você acha que é apenas sol aquele monte de vinco na cara dos caboclos mais velhos? Basicamente, a simplicidade – que não é simploriedade – só é possível quando a gente tem a manha, a coragem de resolver aquele problema primeiro, aquele, que está embaixo da pilha toda e que é justamente o que a desequilibra e a faz despencar todos os dias, espalhando confusões no chão da gente. Pra meter a mão lá, na base da pilha, é preciso muito topete. Topete que um senhor pernambucano, da cara agreste e morena, palavreou assim, num diálogo rápido comigo logo que cheguei em Olinda:

Ele: tu veio sozinha, foi?

Eu: vim.

Ele: tu tem corági, né?

Eu: hum… achu qui sim.

Ele: é, tudo é mais fáci pá quem tem corági.

Eu: u senhor tem coragem?

Ele: rapáiz, eu tenhu’a corági médonha!

 

foto: Alexandre Severo

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PUBLICADO POR:

Comentários

  1. Monstrinha

    março 21, 2012

    hahaha! coragem medonha foi ótimo!

    De vez em quando eu também decido simplificar minha vida, daí faço uma faxina geral (começando pelas tralhas e guarda-roupa e indo até objetivos de vida rsrsrs).
    Mas devo ter um gene bagunceiro e complicado no sangue, porque quando vou ver já está tudo embolado, emaranhado e confuso outra vez.
    A simplicidade tem que ser um esforço continuo, no meu caso. Infelizmente!!

  2. carlos pinto

    março 28, 2012

    ¡ delícia de texto, beleza de conteúdo – gracias & saúde !

  3. Shirlei

    julho 16, 2012

    Escrita fantástica, Sabrina!

  4. sabrina

    fevereiro 7, 2013

    oi, gente,

    obrigada!!
    simplicidade pra gente.

    grande abraço,
    sabrina

  5. FDomingues

    julho 29, 2014

    Adorável.

  6. marcia regina

    julho 30, 2014

    e nesse remexido da vida
    as mudanças necessárias
    a gente esquece
    a gente bagunça
    a gente complica
    e o que importa mesmo
    e o que importa mesmo
    é as desimportâncias
    é as inutilezas
    e o que falta nesse remexido
    pra ficar uma mistura boa
    é amor coragem, coragem amor
    pra levar a vida X- SALADA
    corági fiee!

    sabrina, obrigada por tudo isso.

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