Foto pessoas à mesa fazendo um brinde com copos de tamanhos diferentes e com bebidas diversas e coloridas

O consumo de bebidas alcoólicas faz parte das sociedades há milênios. A humanidade e até os animais foram expostos ao álcool e seus efeitos durante a alimentação em frutas, grãos e leguminosas em processo de fermentação. Mas qual a dose ideal?

O historiador e folclorista, Câmara Cascudo, em seu livro “A História da Alimentação no Brasil” defende que comer é um ato orgânico que a inteligência tornou social. Beber (álcool), por sua vez, é antes de tudo um ato social e cultural, uma vez que as bebidas alcoólicas não são essenciais à nossa sobrevivência. 

As bebidas alcoólicas evidenciam relações humanas, são guiadas por protocolos e regras de consumo e, normalmente, consumidas coletivamente. Bebemos de acordo com a sociedade em que vivemos e isso nos ajuda a compreender transformações do mundo à nossa volta. 

Apesar dessa longa relação com o álcool, ainda não sabemos definitivamente o que essa molécula simples é capaz de fazer em nossos corpos.  Embora as razões pelas quais nos convencemos de que beber uma taça de vinho, um copo de cerveja ou um cálice de cachaça, após um dia estressante de trabalho, pareçam muito válidas e irrefutáveis, a Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu uma redução de 10% no uso per capita de álcool até 2030.

A noção de que beber moderadamente traz benefícios para a saúde começou com os estudos populacionais da década de 60. No livro “Meu doutor, o vinho: os grandes benefícios para sua saúde”, recentemente publicado, o médico nutrólogo Wilson Rondó Júnior faz um percurso histórico para mostrar as evidências científicas acumuladas ao longo dos anos que estariam associadas à composição das bebidas. A obra propõe o vinho como alimento, desde que em “posologia médica”, adverte o autor. 

Entre os mecanismos que beneficiariam a saúde estão propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias dos polifenóis conhecidos como resveratrol, quercetina e antocianina, que contribuiriam para atenuar fatores de risco cardiovasculares e de outras doenças. 

Vários estudos publicados durante meio século (1960 e 2010) associam o consumo moderado de bebidas alcoólicas com benefícios à saúde. Mas foi a partir da década de 80 que o chamado “paradoxo francês” chamou a atenção dos cientistas. 

Os pesquisadores buscavam explicação para a baixa taxa de mortalidade por doenças cardiovasculares na população francesa que era altamente tabagista e reconhecida por abusar das gorduras saturadas. Nessa relação, apareceu o vinho, mas as evidências coletadas sugerem propriedades cardioprotetoras também do álcool contido em outras bebidas, como a cerveja e a cachaça.

Os polifenóis da cerveja, por exemplo, demonstraram ações antioxidantes, anticarcinogênicas, anti-inflamatórias e antivirais em estudos in vitro (modelos celulares). Outras pesquisas encontraram associações entre o consumo moderado de destilados e menor risco de diabetes. É preciso ter em mente que alguns desses resultados podem também estar associados a hábitos mais saudáveis e alimentação balanceada encontrados na Europa, onde grande parte dos estudos foi feita.

Avaliar os efeitos do álcool na saúde tem sido um grande desafio devido à carência de pesquisas de longa duração e muitas vezes os resultados divulgados na imprensa parecem bem contraditórios. É preciso lembrar que o álcool é uma substância psicoativa com propriedades que causam dependência e em altas doses é, sim, tóxico para o organismo.

Desde 2010, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer classifica o etanol como carcinogênico para os humanos. A Organização Mundial da Saúde afirma que os pequenos benefícios adquiridos com o consumo baixo e moderado são superados pelo risco aumentado de outros danos relacionados à saúde.

Um estudo global, publicado na revista científica The Lancet, em 2018, afirmou não existir um nível seguro para o consumo de álcool. E no final de janeiro de 2021, a Federação Mundial do Coração ratificou a informação ao publicar um guia, no qual diz que nenhuma quantidade de álcool é boa para o coração. Isso sem contar as inúmeras mortes que são associadas ao consumo e ao abuso do álcool.

O médico cardiologista, Pedro Cellia, em estudo recente apresentado na American Heart Association, acompanhou 40 indivíduos saudáveis para comparar o consumo de vinho e cachaça em dose moderada. O resultado do estudo clínico foi um tanto desanimador para quem busca evidências de algum benefício à saúde. Além de não mudar significativamente nenhum dos parâmetros analisados –  ligados à aterosclerose ou o envelhecimento dos vasos sanguíneos -, as pessoas que consumiram vinho ainda engordaram. 

“Se a pessoa não faz consumo de bebida alcoólica não vale a pena iniciar o consumo buscando algum benefício para a saúde. Mas se ela já faz o consumo, está nos seus hábitos e cotidiano, a sugestão é que a pessoa beba em uma faixa discreta a moderada, ou seja, uma dose ao dia para mulheres ou até duas doses ao dia para homens”.

Orienta Dr. Pedro Cellia

Esse, de fato, é um assunto extenso (e polêmico), com muitas variáveis e paixões envolvidas. A melhor maneira de saber se existe uma quantidade segura à saúde para o consumo de álcool é seguir lendo e pesquisando. Afinal, as teorias científicas sempre estão em processo de seleção e aprimoramento. São como os ajustes que precisamos fazer para acertar as lentes de um novo óculos em busca da nitidez. 

Até lá, para quem o alerta de abstinência não é uma opção, o consumo consciente já deverá trazer resultados observáveis no curto, médio e longo prazo. Por isso, se for beber, que seja com moderação.

Referências:

  • A História da Alimentação no Brasil. Global. São Paulo, 2004.
  • Drink – A cultural history of alcohol. Gotham Books, 2008.
  • O lado saudável do consumo de bebida alcoólica. Revista USP, n. 96, 2013.
  • No level of alcohol consumption improves health. The Lancet, v. 392, n. 10152, 2018.
  • The impact of alcohol consumption on cardiovascular health: myths and measures. World Heart Federation (WHF), 2022.

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Ana Paula Palazi

Ana Paula Palazi

Jornalista, repórter, especialista em jornalismo científico e cachaceira. Atualmente, misturando comunicação, cachaça e percepção pública da C&T num mestrado pela Unicamp

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