Qual a origem da Caipirinha? - Versão Paratiense - Mapa da Cachaça
Verallia

Qual a origem da Caipirinha? – Versão Paratiense

13 de 11 de 2019

Qual a origem da Caipirinha? Um documento do século XIX sugere que talvez ela seja de Paraty. Será?

copo de caipirinha com cachaça

Teria a caipirinha sido inventada em Paraty?

Na nossa última viagem visitando os alambiques do sul fluminense nos deparamos com uma pergunta: qual a origem da caipirinha? Já ouvimos algumas versões sobre a história do mais brasileiro dos coquetéis, mas não esperávamos que nessa viagem a gente fosse encontrar documentos oficiais que sugerem que o drinque tenha surgido em Paraty.

Afinal, a cidade no litoral fluminense foi um dos berços da cachaça no Brasil, com uma volumosa produção que data do começo do século XVII. Inclusive, o destilado de cana produzido em Paraty já era bastante prestigiado no período colonial. A fama da cidade como produtora de cachaça era era tanta que paraty virou sinônimo de cachaça de qualidade.

“…a passagem que nela se faz para as Minas e a quantidade de aguardente de cana que ali se fabrica, lhe dão a opulência conhecida.” (D. Antônio Rollim de Moura, Conde de Azambuja, Governador de Goiás e Mato Grosso, 1750)

Já no final do Ciclo do Ouro, em 1790, Paraty tinha 87 engenhocas de fabricar aguardente. Atualmente, a produção se concentra em 7 alambiques que produzem cachaça de forma artesanal.

Nas nossas pesquisas históricas e técnicas, buscando identificar características próprias de produção da cachaça paratiense, fomos atrás também de entender como a aguardente era usada na gastronomia local.

Nessas pesquisas, descobrimos muita coisa interessante sobre os drinques de Paraty.

A Caipirinha é paratiense?

A caipirinha é o drinque oficial do Brasil. Assim como sua matéria-prima principal, a cachaça, a bebida está protegida por lei como um patrimônio nacional. No entanto, pouco se sabe sobre a sua origem.

A princípio, podemos supor pelo nome caipirinha que a bebida teria surgido no interior de Minas Gerais ou São Paulo, terra dos caipiras. Mas foi em Paraty, no Rio de Janeiro, que encontramos o registro mais antigo de uma possível inspiração para o coquetel nacional.

Em uma conversa com o historiador paratiense Diuner Mello, descobrimos um documento de 1856 que relata as medidas tomadas por conta de uma epidemia de cólera na região. Entre os registros, está uma carta do engenheiro civil João Pinto Gomes Lamego que apresenta uma receita que daria origem ao que hoje chamamos de Caipirinha.

“…por isso, tenho provido que a necessidade obrigou a dar essa ração de aguardente temperada com água, açúcar e limão, a fim de proibir que bebessem água simples.” (Registro de Oficios da Câmera Municipal, pag. 139 , 1856).

De remédio popular, a caipirinha é hoje um dos coquetéis mais consumidos do mundo, tendo sido incluída pela Associação Internacional de Bartender entre os 7 clássicos da coquetelaria mundial, sendo bastante apreciada por estrangeiros que fazem questão de beber sua versão oficial com cachaça.

Nas nossas viagens, já ouvimos algumas histórias sobre as possíveis origens do drinque nacional. Alguns historiadores falam que possivelmente seria originária de Santos, região com tradição em produção de aguardente, outros dão os créditos à Carlota Joaquina – adepta da boa caninha e suas misturas com as frutas dos trópicos.

Com as incertezas surgem até as versões inusitadas: Jô Soares no seu “O Xangô de Baker Street”, apresenta o Dr. Watson, amigo de Sherlock Holmes, como o pai da caipirinha. Pelo jeito, a origem do drinque tipicamente brasileira não é tão elementar assim…


Para chegarmos numa conclusão sobre a sua origem, ainda precisamos pesquisar muito, no entanto, a versão paratiense é até agora a mais antiga que temos nos registros do Mapa da Cachaça.

Outro coquetel de Paraty, o Jorge Amado

Além de possivelmente ser o berço da caipirinha, Paraty é também terra natal de outro coquetel brasileiro que vem se popularizando entre os bartenders de todo Brasil: o coquetel Jorge Amado.

Em 1988, foi gravado em Paraty uma versão cinematrográfica do livro Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado. Apesar da história se passar em Ilheús na Bahia, o centro histórico de Paraty foi cenário ideal para a trama de Gabriela, uma linda sertaneja interpretada na tela por Sonia Braga.

Durante os meses de gravação, a relação entre a equipe de filmagem e os paratienses foi tão intensa que os produtores de cachaça da cidade decidiram prestar uma homenagem à obra: a criação de uma aguardente com cravo e canela batizada de Gabriela.

Quase todos os produtores de cachaça de Paraty possuem sua versão da Gabriela, mas de acordo com os locais, a primeira garrafa teria sido uma criação da família Mello, produtores da famosa cachaça Coqueiro.

Jorge Amado, coquetel tipico de Paraty, Rio de Janeiro

Jorge Amado, receita preparada com Gabriela Cravo e Canela, uma aguardente composta que já é clássica de Paraty.

As homenagens não pararam por aí. A bebida inspirou inclusive a criação de um drinque delicioso chamado “Jorge Amado”, que leva maracujá, limão taiti e claro, Gabriela. Infelizmente, nunca encontramos o drinque em bares ou restaurantes fora de Paraty, uma pena porque além de ser delicioso é também uma forma de lembrarmos do grande escritor brasileiro.

Para finalizar, deixo uma provocação para os meus amigos e amigas bartenders e mixologistas: Por que num país de dimensões continentais, com uma enorme variedade de frutas tropicais, com um dos povos mais criativos do mundo e com uma aguardente de tamanha qualidade como a cachaça temos apenas a Caipirinha como nosso drinque oficial?

Fotos: Leo Bosnic e Felipe Jannuzzi

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PUBLICADO POR:

Comentários

  1. guiba

    janeiro 18, 2014

    Meu caro felipe.
    A questão da caipirinha é uma questão política, de comércio internacional, simplesmente. Não se atentou para o direito protetivo `as outras formas de preparo da cachaça com outras frutas que não o limão. Para que estrangeiros não patenteassem essa bebida, como tentaram fazer com o açaí e com outras tantas coisas que são daqui mas que despertam o rápido interesse dos estrangeiros, o lobbie em brasília privilegiou a caipirinha como nosso drink oficial (cachaça, limão e açúcar) e o colocou na lei rapidamente, sem consulta popular ou maior aprofundamento no assunto.
    A questão sobre o nome dos outros drinks feitos com cachaça é um tema polêmico, pois legislativamente, caipirinha é só com limão e não podemos desrespeitar a lei, porém, acho sim que temos um potencial enorme de frutas que harmonizam perfeitamente com os diversos tipos de cachaças, da pura até as mais envelhecidas.
    No meu ver, hoje estamos amarrados pela legislação e caipirinha é a bebida com limão, mas…qual o outro nome se poderia dar para a bebida com as outras frutas? Ainda não sei! Abraços

  2. Mapa da Cachaça

    janeiro 18, 2014

    Guiba, tem política, mas com esse texto e pesquisa, quis mostrar o viés histórico – que acho bem interessante. Nessa pesquisa, fui atrás da receita original com limão. Mas também não vejo problema se a pessoa pedir uma Caipirinha de Morango ou Maracujá. São coisas que a cultura incorpora – e as criações da língua serão sempre mais rápidas do que a burocracia. Não vejo polemica se essas “caipirinhas” respeitarem o uso da cachaça 🙂 O que eu acharia legal é ver mais coquetéis feitos pensando na aguardente brasileira – o nome fica por conta do pai da criança. abração

  3. Caio Bonneau

    janeiro 23, 2014

    O site de vcs é demais.acho importantíssimo o trabalho de vcs.Se não me engano as folhas ds laranjinha celeste é de tangerina,não???

  4. Mapa da Cachaça

    janeiro 23, 2014

    Valeu, Caio! Legal ter vc nos acompanhando por aqui. abração

  5. Adailton Marques da Silva

    janeiro 29, 2014

    Adorei os artigos e os vídeos. Gostaria de receber mais informações no meu email, já que sou um fã da caipirinha e da cachaça.

  6. Rui C. Teixeira

    novembro 4, 2014

    Ola caros amigos e apreciadores de uma boa cachaça.

    Eu moro a dez anos na Inglaterra e gostei muito da materia sobre a caipirinha e obvio sobre cachaça!
    Eu sou o Embaixador da cachaça Leblon no Reino Unido e acho que o único que realmente organiza palestras e treinos para bares sobe a cachaça e sobre cocktails com cachaça.
    Nosso problema e que nao temos um apoio do governo Brasileiro para divulgar melhor a categoria e com isso perdemos muito para as outras categorias de destilados, um ótimo exemplo e o da tequila, sempre que tem um evento ou festival voltado a produtos destilados a tequila sempre se destaca por que eles tem um ótimo local mostrando todas as tequilas que o pais produz ou pelo menos as que ja estão no mercado europeu. Por isso eu acho que deveríamos ter um incentivo melhor do governo para divulgar melhor a cachaça.
    Sobre os cocktails nos temos uma variedade gigante de cocktails com a base de cachaça os europeus sempre fazem algo especial com cachaça e se eu estou divulgado e explicando sobre cachaça de alambique e claro sobre a marca Leblon que e fenomenal. Para que todos saibam o que esta sendo feito com cachaça estou colocando o link de ideias para cocktail com cachaça.
    http://lebloncachaca.com/category/bar-chef/
    Espero que aproveitem e se tiverem vontade de saber sobre cocktails com a base de cachaça posso divulgar isso toda a semana.
    Muito Obrigado

  7. Mapa da Cachaça

    novembro 4, 2014

    Oi Rui, obrigado pelo seu mensagem. Realmente, há pouco incentivo do governo. No entanto, recentemente, fizemos um trabalho em parceria com o Ministério da Cultura. Veja só: http://www.mapadacachaca.com.br/artigos/cachaca-e-gastronomia-2014/

    Estivemos em Patos de Minas no mês passado, quando fizemos um video sobre a produção em alambique: http://www.mapadacachaca.com.br/artigos/cachaca-leblon-de-patos-de-minas-para-o-mundo/

    Seria legal conhecer as suas receitas com cachaça. Adoraríamos conhecer as suas criações.

    grande abraço

  8. Selito Bordin

    dezembro 13, 2016

    Difícil saber qual das versões é verdadeira. Fato é que cachaça, limão e mel sempre estiveram presentes como medicamento para gripes, resfriados, dor de garganta tá. Daí para virar drink, só falta saber quem apelidou de caipirinha. Mas, com certeza, a ideia foi identificá-lo como “bebida do interior – caipira”. Por isso a versão santista me parece muito provável.

  9. Silvio Orlando

    julho 18, 2017

    Concordo plenamente com Guiba. Não tomo outra bebida alcoolica,Somente a caipirinha. Isto é, limão, açucar e cachaça, mas da branca. As famosas amarelinhas alteram o sabor. Uma caipirinha feito em casa, sem gelo, lendo um bom livro é bom demais.
    Silvio Orlando

  10. […] O que contam é que originalmente ela era feita com limão, alho e mel e um pouquinho de cachaça para acelerar o efeito terapêutico. Porém como já foi colocado pelo cachacier Maurício Maia, a versão da caipirinha que conhecemos já era conhecida desde o início da colonização com a cultura das garrafadas. Também existem documentos de algo muito semelhante já em 1856 na cidade de Paraty, no litoral flum… […]

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