Por que a cachaça ainda não entrou para o "hall da fama" dos grandes spirits? - Mapa da Cachaça
Verallia

Por que a cachaça ainda não entrou para o “hall da fama” dos grandes spirits?

02 de 08 de 2019

Apesar da caipirinha ser um dos cocktails mais populares do mundo, a cachaça ainda não entrou para o “hall da fama” dos grandes spirits. Entenda o porquê.

Como outros países lidam com suas bebidas alcoólicas?

A Escócia por sua grande produção de cevada e trigo e o aprimoramento dos processos de maltagem de cereais, tornou-se o berço perfeito para o whisky. Assim como EUA e Canadá se tornaram referência para os whiskies de grãos como milho e centeio. A França por sua tradição no trato com as uvas produziu, além dos mais apreciados vinhos do mundo, brandies que viraram sinônimo de requinte, e ainda o calvados e as eaux-de-vie.

garrafa de whisky e taça

Whisky, sofisticação e produção ligada aos países do Hemisfério Norte.

No México os colonizadores se depararam com uma planta muito esquisita: o agave. Parece um tipo de cacto, ainda mais quando vista no cenário dos áridos campos mexicanos de solo vulcânico. Os nativos cozinhavam seu miolo rico em lipídios e obtiam um suco que, após fermentado, recebe o nome de pulque. Os espanhóis, que também produziam excelentes vinhos e brandies, destilaram o pulque e criaram o que o mundo conhece, por denominação de origem, como tequila. E agora o México está explorando o mezcal: o mesmo destilado de pulque, porém sem as obrigatoriedades que o fariam chamar-se tequila.

agave para mezcal

Processo de produção do mezcal, bebida típica mexicana

Os países do Caribe também produziram álcool a partir de sua matéria prima mais abundante: cana de açúcar. Foi aí que eles inventaram o rum. Países como Cuba, onde a população é formada basicamente por descendentes de escravos da época do domínio espanhol, o rum é parte fundamental da cultura de seu povo. Ele é tão intimamente ligado do sagrado ao profano, do mais rico ao mais miserável, que é quase impossível não citá-lo como uma característica do povo cubano. Excelentes rums são exportados e apreciados pelo mundo afora, sendo o ingrediente principal de diversos clássicos e até mesmo o elemento fundamental de toda uma categoria de cocktails, muito popular entre os anos 40 e 60: os tiki drinks.

Como o Brasil trata sua bebida nacional?

Aqui essa lógica é um pouco diferente por uma série de fatores que compõem os fios do tecido social do Brasil. Nosso desenvolvimento econômico historicamente deve-se à cana de açúcar. As primeiras “indústrias” do país foram os engenhos de cana e até hoje somos o maior produtor mundial. Somos um “país com pouco mais de 500 anos” de história altamente miscigenado, fato que nos confere uma bagagem cultural única porém pequena quando comparada ao velho mundo. Temos dimensões continentais, o que potencializou várias diversidades.

Como em outros lugares já citados, é de se deduzir que o destilado nacional seja o fio que costura essa variedade de raças, crenças e sotaques do povo brasileiro. Porém, a busca por aprovação internacional fez com que as camadas mais privilegiadas de nossa população negasse seus referenciais culturais adotando hábitos e costumes vindos de fora. Assim, a cachaça sempre foi julgada por sua ligação com os menos favorecidos – era dada aos escravos negros como forma de abrandarem a fome – foi condenada à marginalidade, algo do qual não devemos nos orgulhar.

Mendigos escoceses ou americanos são mais glamurosos que os nossos porque bebem whisky? Ou talvez os do leste europeu que bebem vodka? Ou ainda os mexicanos por beberem tequila? A resposta dessa pergunta é o triste quadro que a elite econômica brasileira historicamente vêm pintando há 500 anos com o objetivo de ser cosmopolita. Como ela é a formadora do mercado consumidor da mixologia no Brasil, não é difícil concluir que a cachaça ficaria de fora dessa onda.

Vivemos em um país com uma invejável diversidade de espécies vegetais, mas não conseguimos desenvolver uma coquetelaria tipicamente brasileira: todos os pedidos que chegam aos balcões contribuem para essa falsa sensação de internacionalização dos hábitos de consumo.

Ao invés de incentivarmos nossos mixologistas e bartenders a explorarem a versatilidade da cachaça, e criarem um conjunto de técnicas e receitas genuinamente brasileiros, conferimos mais valor aos que estão up to date das últimas tendências globais.

Caipiroska, limão e vodka

A Caipiroska ganha mais destaque no Brasil do que a Caipirinha. O brasileiro nega suas origens ao pedir sua tradicional receita feita com vodca e não cachaça.

Visão de negócios

Que diferença há entre um alambique de cachaça do interior e uma microdistillery dos Estados Unidos?

A falta de bagagem ou conhecimento para fazer um planejamento de negócios e desenvolver a cachaça como produto, visto que não somos um país fundamentalmente capitalista que tem o consumo como aspecto cultural. Nossos produtores são os verdadeiros artistas. Muitos o fazem movidos por uma ligação emocional de suas famílias com a cachaça. Em muitos casos essa arte passa de pai para filho, assim como os métodos e meios produtivos. Isso perpetua o caráter “artesanal”, porém único de seu legado.

praia brasileira

O imaginário sobre Brasil é positivo. A cachaça deve representar esse “espírito do brasileiro”.

“Cachaçageist”

Brazil sempre esteve na moda. Nos últimos anos foi sede de eventos esportivos mundiais importantes. A gastronomia nacional começa a ganhar mais destaque com chefs estrelados. A onda da coquetelaria chega nas principais capitais do Brasil com o público cada vez mais sedento por boas experiências etílicas. E apesar das recentes derrapadas políticas no cenário internacional, ainda somos referência de intercâmbio cultural.

Tudo isso cria um cenário perfeito para que a cachaça seja elevada à representação mais genuína do spirit brasileiro.

Para isso acontecer não depende somente de bartenders criarem novas receitas, isso posso garantir que acontece quase diariamente. Depende sim de nós, amantes da cachaça, mostrarmos seu valor, não ao gringo na balada, mas ao vizinho que ainda te designa pejorativamente como “cachaceiro”. Ao qual você deveria responder: “Com muito orgulho, afinal é o que o Brasil tem de melhor e mais genuíno para se beber!”

Que outros fatores vocês acham que contribuem para criarmos o ambiente propício onde a cachaça fale de igual para igual com todo outros destilados? Acham possível desenvolver a mixologia tipicamente brasileira e, com isso, mostrar ao mundo a versatilidade da cachaça? Como podemos melhorar a imagem da cachaça lá fora e para nós mesmos?

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