Paulo Magoulas foi figura central na criação da Academia Brasileira da Cachaça

Paulo Magoulas

Com 27 anos de existência, a entidade foi pioneira na valorização do destilado nacional, reunindo nomes como Aldir Blanc, Beth Carvalho, Hugo Carvana, Paulinho da Viola, Jaguar e Ziraldo. Com a morte de mais um imortal, três cadeiras estão vazias.

Boêmio influente na sociedade carioca e publicitário de sucesso, Paulo Antônio Magoulas não cabia em rótulos. Foi ator, roteirista e diretor. Trabalhou com o marketing do Fluminense, time do coração. Ajudou a criar a Banda de Ipanema e dirigiu a escola de samba Império Serrano. Inquieto, sempre atuou em vários projetos ao mesmo tempo.

Era um verdadeiro apaixonado por tudo o que envolvia a cultura nacional, incluindo a cachaça. Magoulas costumava dizer que beber uísque e cerveja soava pouco patriota. Defendia que a história de nosso destilado devia ser ensinada na escola, tanto que se especializou na área e começou a dar aulas. Ele também foi um dos primeiros a idealizar cartas de cachaça para restaurantes e, enquanto Secretário de Cultura de Paraty, contribuiu para a realização do Festival da Cachaça.

Mas, sem dúvidas, um dos grandes legados desse cachacista foi a criação da Academia Brasileira da Cachaça (ABC), da qual foi presidente por 27 anos. O economista e imortal, Raul Hazan, dono da cadeira de número 37, resume a atuação de Paulo Magoulas em poucas palavras.

“A Academia Brasileira da Cachaça só existe, até hoje, por causa dele”. 

Raul Hazan, dono da cadeira de número 37 da ABC

A entidade foi pioneira na defesa e valorização da bebida, sendo a precursora de importantes confrarias como a do Copo Furado, da qual Magoulas também foi membro ativo. “Um homem extremamente generoso e bem humorado, difundiu seu enorme conhecimento técnico, por puro amor à cachaça.  Podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que devemos muito ao Paulo Magoulas o sucesso e o glamour de que a cachaça goza hoje”, comentou a presidente da Confraria de Cachaça Copo Furado do Rio de Janeiro, Roseane Corrêa Ferreira

Ao conceber a Academia, Magoulas definiu os nomes dos trinta primeiros imortais da cachaça, junto com o produtor cultural Albino Pinheiro, presidente da extinta Carioca – a Confraria dos Amigos do Rio de Janeiro -, e com o sócio do bar e restaurante Academia da Cachaça, Helcio Santos. Na lista, estavam nomes como o da atriz Bete Mendes, do cartunista Ziraldo, do cantor João Nogueira, do ator e diretor Hugo Carvana, do cineasta Zózimo Bulbul, da botânica Cida Zurlo e da então presidente de escola de samba Vila Isabel, Lícia Maria Maciel Caniné, a Ruça.

O cachacista acreditava que se conseguisse associar a imagem da bebida a importantes personalidades, diminuiria a rejeição dos brasileiros ao destilado nacional. “Quando meu pai idealizou a Academia Brasileira da Cachaça, a intenção era usar a influência e o poder de mídia dessas pessoas para acabar com o preconceito contra a cachaça”, disse a filha, Luciana Magoulas, em entrevista ao Mapa da Cachaça. A teoria fundamentada na experiência do publicitário, se confirmou, anos mais tarde, com a efervescência da cachaça no país. 

O músico e compositor, Moacyr Luz, lembra que Magoulas era um carioca tradicional. “Ele gostava de beber, gostava de amizades”. Quando Moa assumiu a cadeira de número 23, o presidente da Academia Brasileira da Cachaça disse que o sambista João Nogueira tinha indicado o nome dele. “Eu achei bacana. Se foi verdade, maravilhoso e se foi mentira, também. Vou sentir falta daquele cara que sempre tinha um sonho e acreditava nas coisas”, comentou.

Paulo Magoulas morreu aos 78 anos, após sofrer uma parada cardiorrespiratória em casa. Ele sofria de Alzheimer e Parkinson. “O mundo do destilado brasileiro perdeu seu maior defensor e divulgador. Paulo Antônio Magoulas era conhecido em todo o Brasil como profundo estudioso da cachaça, orientando produtores e apreciadores. A perda é irreparável, também, para os amigos!”, disse o advogado José Alberto Kede que assumiu a presidência da ABC.

Conheça a Academia Brasileira da Cachaça

Era 25 de outubro de 1993, o Rio de Janeiro festejava a vitória do Flamengo contra o Cruzeiro, por 2 a 1, na primeira fase do Campeonato Brasileiro. Em âmbito nacional, a notícia era – acredite! – a corrupção, com o escândalo dos “Anões do Orçamento”. Mas nas mesas de um restaurante temático na Barra da Tijuca, a festa era outra. Comemoração de gala, com 180 convidados. Nem futebol, nem política. Os maiores nomes da época estavam ali para homenagear a cachaça.

A ocasião era oportuna. O dia em que a Academia da Cachaça (bar carioca famoso por sua coleção do destilado nacional) comemorava oito anos de existência. Sabendo disso, a turma de amigos ligada à Confraria Carioca decidiu que a data precisava de um marco. Algo que pudesse ser capaz de mudar a imagem da bebida, que andava de mal a pior.

Nascia ali, entre garrafas, petiscos, copos e garçons, a Academia Brasileira da Cachaça (ABC). No convite, nada menos que a arte Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o Jaguar. Caprichosamente impressa em papel sustentável, feito com o bagaço da cana de açúcar reciclado.

Convite de Posse da Academia Brasileira da Cachaça, feito por Jaguar

A cadeira número um foi concedida ao carnavalesco Fernando Pamplona, sendo assumida após sua morte pelo produtor de teatro e sócio-fundador de diversos bares, Abilio Fernandes. A cadeira número dois ficou com Albino Pinheiro, passando em 2019 para o irmão, Cláudio Pinheiro. Jaguar assumiu a de número três. Paulo Magoulas escolheu a dez, acumulando também a presidência. Enquanto Elcio, sócio do bar, adotou a poltrona número trinta e um.

A lista foi ampliada no ano seguinte, atingindo a marca de 40 acadêmicos (30 homens e 10 mulheres), seguindo os moldes da Academia Francesa e sua correspondente no país, a Academia  Brasileira de Letras. A diferença, segundo seu presidente de honra, estava na qualificação dos participantes.

“Na Academia Brasileira da Cachaça, todos sabem beber. Na Academia Brasileira de Letras, nem todos sabem escrever”, falava Paulo Magoulas.

Ao assumir, cada imortal define um patrono. A cadeira é vitalícia, sendo substituída apenas em caso de morte. A última posse foi realizada em 2019, quando quatro novos acadêmicos foram integrados: Cláudio Pinheiro, José Alberto Kede, a cantora Teresa Cristina e Sérgio Rabello (dono do restaurante Galeto Sat’s onde o evento ocorreu).  O patrono-geral da ABC é Carlos Cachaça, compositor e fundador da Estação Primeira de Mangueira. Quem se vai, não é esquecido. Magoulas deixa a cadeira dez para se juntar à galeria da saudade, ao lado de outros grandes nomes do mundo artístico e cultural, como o compositor Aldir Blanc e o jornalista Jesus Chediak, que morreram em 2020, vítimas da Covid-19. Em vida, ele formou e inspirou toda uma nova geração de entusiastas da cachaça que, agora, seguem seus passos em prol da valorização da bebida. Seus ensinamentos, sua contribuição e seu amor pelo destilado vão continuar, eternidade afora. Imortais, como ele.

Ana Paula Palazi

Ana Paula Palazi

Jornalista, repórter, especialista em jornalismo científico e cachaceira. Atualmente, misturando comunicação, cachaça e percepção pública da C&T num mestrado pela Unicamp

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