barril de cachaça

A queima do barril tem como objetivo degradar compostos indesejáveis e gerar moléculas aromáticas que agregam qualidade à cachaça. Conheça um pouco mais sobre essa prática comum ao processo de envelhecimento de destilados

O poder da madeira durante o processo de envelhecimento é traduzido pela transformação do líquido recém destilado em uma bebida fina e de qualidade diferenciada. Dúvidas frequentes sobre o tema englobam uma série de transformações químicas e sensoriais que podem ser explicadas mediante pesquisas científicas e experiências de longa data.

Qual o objetivo do envelhecimento? O que compreendem as interações químicas que ocorrem durante o processo? Qual o estado ideal de maturação da bebida? Quais madeiras podem ser utilizadas para a fabricação de barril? Quais as características específicas fornecidas por tais madeiras? Até quando podemos reutilizar o barril? Como saber o tempo ideal de envelhecimento? Qual a influência dos diferentes níveis de queima interna?

Essas e muitas outras questões são formuladas por interessados em entender mais sobre o processo de envelhecimento da cachaça. Para respondê-las, devemos considerar aspectos interligados ao processo de produção da cachaça, que conferem composição diferenciada e comportamento particular. Podemos também empregar algumas analogias com demais destilados, tais como whisky, rum e cognac.

A queima interna do barril é um procedimento comumente utilizado nas maiores tanoarias do mundo, onde são fabricados barris com madeira de carvalho. Para dar o formato e auxiliar na envergadura das aduelas do barril, utiliza-se fogo na parte interna e água fria por fora. Após este processo, o barril passa por um novo tratamento térmico, denominado Bousinage ou queima final. O objetivo é proporcionar a degradação térmica dos componentes da madeira, a fim de degradar compostos indesejáveis e gerar moléculas aromáticas que agregam qualidade à cachaça. O nível de degradação térmica pode também influenciar as características físicas da madeira, pois aumenta a superfície de contato com o líquido e acelera o processo de extração dos compostos.

Algumas moléculas geradas são conhecidas como “marcadores de envelhecimento” e participam ativamente da formação do perfil sensorial da cachaça envelhecida. Os principais marcadores de envelhecimento são:

  • ácido gálico,
  • furfural,
  • 5-hidroximetilfurfural,
  • vanilina,
  • ácido vanílico,
  • siringaldeído,
  • ácido siríngico,
  • coniferaldeído
  • sinapaldeído

O ácido gálico é um dos compostos responsáveis pela formação das lágrimas da cachaça. Ao girar o copo, a forma e velocidade em que o líquido escorre pelo vidro podem determinar a qualidade da bebida. O furfural e 5-hidroximetilfurfural são compostos formados pela caramelização de açúcares presentes na madeira e oferecem aromas de caramelo e amêndoas quando presentes em baixas quantidades, e de torrado quando em alta concentração. Vanilina e ácido vanílico são responsáveis pelas notas aromáticas adocicadas e de baunilha. Siringaldeído, sinapaldeído e conideraldeído fornecem sensações de apimentado e aromas de especiarias.

As tanoarias geralmente designam as queimas por intensidades leve, média e forte, podendo ter variações entre elas. Em tanoarias estrangeiras são denominadas como “light toast” e “light long toast”, “médium toast” e “medium long toast”, “high toast” e “high long toast”, onde é especificado a temperatura e tempo de duração da queima. No entanto, não há padronização do processo, pois as queimas são realizadas de maneira artesanal ou semi-artesanal. Exemplos de níveis de queimas são:

  • leve: 5 a 10 minutos em 180/200ºC;
  • média: 10 a 15 minutos em 200/230ºC e
  • forte: 15 a 20 minutos em 230/250ºC.

Algumas tanoarias brasileiras já promovem os níveis de queima em barris de madeiras nacionais. Esta inovação pode ser uma fonte de novos sabores e aromas para a cachaça. Contudo, a qualidade da cachaça envelhecida em barris queimados deve ser minunciosamente acompanhada pelo mestre de adega.

Gráfico 1 – Concentrações dos marcadores de envelhecimento (em mg/L) em cachaças envelhecidas durante 2 anos em barris de carvalho francês de queima leve e forte.

O gráfico 1 mostra que as cachaças envelhecidas em barris de carvalho francês com queima leve e forte possuem perfis diferentes, como o aumento de alguns marcadores desejáveis para a queima mais forte.

Gráfico 2 – Concentrações de furfural (em mg/L) em cachaças envelhecidas por 1 e 2 anos em barris de carvalho francês de queima leve e forte.

O gráfico 2 mostra os níveis de furfural em cachaças envelhecidas por 1 e 2 anos em barris de carvalho, onde a intensidade forte forneceu concentrações de furfural acima do permitido pela legislação, assumindo um risco para o consumidor e uma perda de qualidade.

Participe do nosso grupo no WhatsApp e receba em primeira mão nossas novidades, eventos e promoções

Mapa da Cachaça

Mapa da Cachaça

O Mapa da Cachaça é uma premiada plataforma multimídia com o objetivo de compartilhar informações sobre a cultura, história, aromas e sabores do destilado brasileiro.

Quer receber no seu e-mail 5 aulas gratuitas sobre cachaça? Assine nossa newsletter exclusiva e durante 5 dias te enviaremos o melhor conteúdo sobre o destilado brasileiro!

Compartilhe esse artigo

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on pinterest
Pinterest
  • José Carlos da Costa
    abril 4, 2015 at 10:07 am

    Brilhante a matéria da cientista Aline Bortoletto sobre os “segredos da queima do barril no envelhecimento da cachaça,merece aplausos de pé.Deixo como sugestão que vocês publiquem um artigo sobre “preparo do fermento caipira com leveduras selvagens e com leveduras selecionadas”.Creio que neste ponto existem grandes segredos.macetes e mandingas,raramente ou talvez nunca publicados de maneira específica e clara.Parabéns,muito obrigado,sou José Carlos da Costa,moro em Taubaté e faço estudos sobre cachaças há 12 anos.

  • Wilton
    junho 13, 2016 at 4:12 pm

    É possível fazer a tosta de chips em casa?

    • Mapa da Cachaça
      junho 13, 2016 at 4:52 pm

      É possível sim! Se tiver forno com controle preciso de temperatura você consegue tostar seus chips.

  • roberto de carvalho
    janeiro 29, 2017 at 2:11 pm

    Onde adquirir toneis com queima correta para uso imediato.

  • Pedro
    abril 25, 2017 at 5:28 pm

    Ótimo blog, e muito profissional.
    Me esclareça, por favor: posso usar barril de cerejeira novo (200 litros) para envelhecer cachaça, sem tosta nenhuma? O barril é fabricado com a madeira já seca e mais nada.
    Grato.

  • Luis
    outubro 2, 2017 at 5:14 pm

    Olá
    Gostaria de saber se você tem algum estudo de envelhecimento de bebidas em barris de diferentes “níveis de queim” feitos com madeiras brasileiras tipo balsamo, amburana, etc.
    E outra pergunta, estou procurando uma madeira que mais se assemelhe ao carvalho americano em termos de sabor mas por enquanto não encontrei nada parecido.
    Obrigado

  • Charles
    outubro 24, 2018 at 11:00 am

    Gostaria de saber se é possível realizar a tosta de um barril através do furo superior, abrindo o buraco da torneira e soprando ar quente através de um orifício. Sei que parece loucura, mas comprei um barril de 50 litros mas devido à facilidade de construção, ele não é tostado na fábrica, e descobri isso após a compra. Minha idéia é um soprador térmico controlando a temperatura mediante um termômetro, até que a temperatura interna fique em 200 graus por 7 minutos.

  • […] Outra ponto fundamental antes da compra é definir o grau de tosta. A técnica muito comum em tanoarias do mundo todo que trabalham com carvalho, vem ganhando mais adeptos para as madeiras nacionais. A queima interna dos barris agrega novos aromas e sabores e dependendo da madeira pode, inclusive, reduzir características indesejadas. Ela também é usada para rejuvenescer barris exauridos. Temos um artigo especial sobre isso aqui. […]

Adicionar um comentário
%d blogueiros gostam disto: