Os limites da frescura no mundo gourmet - Mapa da Cachaça
Verallia

Os limites da frescura no mundo gourmet

13 de 05 de 2013

A primeira coisa que fazem com alguem com um gosto mais apurado para cervejas, Cachaças, cafés ou qualquer outra coisa que mereça tal apreciação é chamá-lo de “fresco”. Ser “fresco” talvez não seja de todo ruim; é apenas a denominação que algumas pessoas dão àqueles que procuram um equilíbrio muito sutil, muito frágil mesmo em algumas coisas que resolve consumir. Mas “frescura” tem seus limites: quando ela vira afetação e ultrapassa os seus objetivos gastronômicos, ou quando ela acaba estragando todo entorno que também faz parte da experiência, aí, meu amigo, talvez seja hora de rever seus conceitos. Já nas horas em que a tal “frescura” age em prol da busca pelo equilíbrio tênues de momentos e situações especiais, ela pode estar a seu favor.

Imagem do usuário sufw do Flickr, sob licensa Creative Commons.

Imagem do usuário sufw do Flickr, sob licensa Creative Commons.

Não são todos que já conheceram os prazeres trazidos pela busca do “se comer bem”, mas aqueles que com prazer já o fazem sabem o quanto de loucura um ser é capaz de cometer para garanti-las. O apaixonado pela gastronomia Michael Steinberger, por exemplo, autor do livro “Adeus aos Escargots” (Ed. Zahar), começa seu estudo sobre a culinária francesa falando sobre o prazer escondido que só aqueles que se deixaram levar pela “arte” de comer bem conhecem. O autor relata através de uma cômica e curiosa prosa o dia em que trocou sua mulher por um fígado de pato. Enquanto ele deleitava o tal prato, o chef do restaurante claramente jogava uma boa cantada em sua mulher. O exemplo, talvez tragicômico, só fazia por ressaltar tamanha era a paixão daquele comensal pelos sutis prazeres proporcionados pela boa comida.

 Muitos de nós, no entanto, estamos longe de poder frequentar restaurantes da “alta” gastronomia, mas já há itens de nosso consumo mais “familiar” que mereceriam e possibilitam nossa apreciação gourmet sem precisar desembolsar muito para isso. É o caso do vinho, do café e, claro, da Cachaça. Um café com uma boa crema (também conhecida como espuma), tigrada, é uma destas coisas que só se consegue com muito cuidado e dedicação (se quiser saber mais sobre café, leia meu post no meu blog pessoal).

Uma Cachaça bem feita, saborosa o suficiente para você distinguir da madeira a doçura da cana de sua origem, também. Um vinho que desce tingindo o momento e evapora em forma de desejo então nem se fala. Os efeitos deles são quase como os de uma música que ecoa no seu esqueleto, um abraço coreografado com o tempo e a emoção, um carinho de mão que te acolhe para longe, uma criança que vem até você sequestrando sua idade por alguns momentos: enfim aquelas boas, preciosas e sutis astúcias dos segundos que nos fazem vivos pelo resto das horas. Portanto, sim, há que ser fresco para se achar um bom café, uma boa Cachaça ou um bom vinho.

Uma boa Cachaça, por exemplo, para além da experiência alcoólica pode ser uma surpreendente experiência de casamento de sabores e sensações táteis na boca que pouquíssimas bebidas são capazes de provocar – e sem precisar de muito dinheiro ou blábláblá. Mas nem todas Cachaças se prestam a isso. Saber identificar quais delas provocam esta tal experiência sublime é que exige a tal frescura – e aqueles que já o aprenderam sabem da recompensa que vem junto (a começar pela ausência de dor de cabeça no dia seguinte, por exemplo).

Desfrutar destes momentos exige sutileza também. Para vivê-los, é claro, é preciso estar neles por inteiro, há que se sentir a experiência. Por isto não há tempo para ficar exaltando a terminologia hermenêutica, fechada dos experts, a falsa-poética dos pseudo degustadores, ou o narcisismo exacerbado daqueles que querem se sentir tão únicos quanto a flor de sal da face oeste do Himalaia colhida às 5 horas da tarde do crepúsculo de inverno. Tampouco há tempo para falar da maravilhosa experiência que se está tendo; apenas para tê-la. Em outras palavras, não há tempo para se gastar com “frescurite”, status ou “blábláblá” sobre “como é bom tomar um bom vinho”, ou “como esta Cachaça é isto, isto ou aquilo” se o que você gosta realmente é de apreciar o momento. Se o momento é bom, viva-o, compartilhe-o: não é necessário narrá-lo. Enquanto “procurar por coisas boas” seja uma frescura saudável, exaltar toda esta baboseira acima pode não o ser. Ser fresco sem frescura: este é o ditado para aproveitar o que a vida gastronômica te traz de bom e do melhor. Aí você vai poder dizer com orgulho que chato são os outros – e fresco é você.

Recado do autor: estamos muito felizes de poder viver na prática toda essa proposta que eu contei acima. É que o Mapa da Cachaça, junto comigo e com a Bia Goll do Otto Bistrot, tem promovido alguns eventos que apelidamos de “Experiências com Cachaça – De Marvada a Bendita”. São degustações sem frescurite e com muito sabor e prazer. A cada edição oferecemos uma seleção de Cachaças que são harmonizadas com os pratos especialmente criados para a experiência. Se você se interessou, saiba mais aqui nesse link (a próxima é dia 23 de maio de 2013, 19h30 em São Paulo).

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