Oswaldo Santiago

Consagrada a melhor cachaça armazenada do Brasil, a Havana tem 79 anos de vida, é uma das mais emblemáticas marcas, mantida fiel à tradição de seu criador Anísio Santiago, com o mesmo padrão de produção e maturação que consolidaram e destacaram mundialmente a região de Salinas, em Minas Gerais.

A Havana é uma aguardente de caráter. Quase uma octogenária, garante aos consumidores manter o mesmo padrão consolidado desde sua criação, na década de 40.  A cachaça com o icônico rótulo azul e vermelho, envasada em garrafas âmbar igualmente icônicas, está intimamente ligada à filosofia de vida de Anísio Santiago, o fundador da marca e precursor de uma escola que inspirou (e ainda inspira) muitos produtores de cachaça no norte de Minas Gerais e do Brasil. 

Um homem abstêmio quando o assunto era cachaça, mas que ainda assim dedicou sessenta anos de sua vida ao ideal de fazer uma aguardente de alto padrão, graças ao rígido método produtivo e o envelhecimento estendido em grandes dornas de bálsamo, transcendendo fronteiras. A “fina flor dentro do seu estilo”, definiu Manoel Beato. A Cachaça Havana é simplesmente a nº1 do Brasil, na categoria Armazenadas/Envelhecidas do V Ranking da Cúpula da Cachaça (e se destacou em praticamente todas as outras competições em que esteve). 

Antes de produzir uma cachaça que virou mito, Anísio Santiago foi carpinteiro, tropeiro, comerciante e motorista. Aos 12 anos, bebeu escondido uma única dose da bebida que o pai mais gostava. De uma golada, engasgou e quase perdeu o litro inteiro do pai. Nunca mais bebeu. Na década de 1940, adquiriu a Fazenda Havana e iniciou a produção no pequeno alambique de cobre já existente ali. As reduzidas proporções do destilador não foram problema para quem buscava qualidade acima da quantidade. Aprendizado que veio com o tempo.

O nascimento da primeira marca de cachaça de Salinas

Anísio tinha alguns poucos concorrentes em Salinas, no semiárido mineiro. Ele queria que sua cachaça representasse algo especial. Então, em 1946, registrou a primeira marca de cachaça da região e usou o caminhão Chevrolet Loadmaster 1947, importado dos Estados Unidos e conservado até hoje como relíquia na fazenda, para entregar seu produto, se diferenciando do mercado até então a granel e feito na porteira dos alambiques. Hoje, Salinas é considerada uma das capitais da cachaça. Segundo o livro “Cachaça um amor brasileiro”, de Alessandra Garcia Trindade, a história da cachaça em Salinas começou quase um século antes, com registros de produção de aguardente datados de 1876.

“Meu pai é meu ídolo, por sua retidão de caráter. Ele estudou só até o segundo ano do primário e ainda assim foi um inventor. Falava pouco, mas com sabedoria. Uma vez, foi questionado porque não trocava a garrafa, se a Havana não merecia algo melhor. Respondeu que não vendia garrafa e, sim, cachaça. E a [qualidade da] cachaça Havana ele garantia. Mantemos a garrafa âmbar até hoje, pois simboliza a cachaça de alambique produzida desde a época do meu pai”, conta Geraldo Santiago, filho de Anísio Santiago, sócio e administrador do negócio. 

Geraldo Santiago, filho de Anísio Santiago
Anísio Santiago/Havana

A difícil escolha de Anísio Santiago: escalar ou não a produção

Até a década de 1960, as vendas da cachaça Havana cresciam basicamente pelo boca a boca. Somente uma parte da produção era comercializada e a outra ia para o envelhecimento nas dornas de bálsamo ganhando valor e complexidade. Com a queda do prestígio de Januária na produção de cachaças, Salinas ganhou impulso fomentando a criação de novos alambiques. Em pouco tempo, a oferta reduzida e a procura crescente pela marca Havana fez Anísio Santiago ficar diante de uma escolha que influenciaria definitivamente a história e o sucesso da marca: aumentar ou não a produção da cachaça? 

O volume que varia entre 8 e 12 mil litros ao ano, dependendo da safra da cana, foi mantido com uma concepção de produção sem pressa, seguindo o perfil forte e detalhista de seu criador. Herança, tradição e costume que a família se preocupa em não alterar mantendo “o mesmo carinho, dedicação, amor e simplicidade com que o próprio Anísio Santiago fazia a sua cachaça”, conta o site da Cachaça Havana.  

“Não se pode ter usura. Ela acaba com o mundo. Quem tem pressa de ganhar dinheiro não pode trabalhar com cachaça”. 

dizia o velho Anísio em referência a ambição

Segredos do alambique da cachaça Havana

A cachaça batizada com o nome da propriedade em pouco tempo se tornaria uma das mais cobiçadas e valorizadas do mundo, servindo celebridades e presidentes. Como resultado, houve valorização do produto que chegou a ser usado como moeda de troca na cidade. Símbolo de uma excelência despretensiosa, maturada com o tempo e carregada de uma doçura acima da esperada em cachaças envelhecidas em bálsamo. Fórmula e know how que intriga produtores, especialistas e consumidores até hoje. 

Muita coisa mudou na fazenda Havana ao longo dos anos, como explica Cléber Santiago, neto de Anísio e responsável atual pela produção da Cachaça Havana. Porém, o manejo do canavial predominantemente de cana java, sem uso de pesticidas e herbicidas, e o transporte por carro de boi, além de um ritual sagrado (e saudosista) seguido pelos funcionários, garante o certificado de produção orgânica. As dornas novas de bálsamo são emprestadas a outros produtores por 4 ou 5 meses, técnica para reduzir a potência da madeira. Já o destilador foi trocado recentemente por um novo de igual modelo: o “chapéu de padre”, também conhecido como “tromba de elefante”.

alambique da cachaça Anísio Santiago

“Esse alambique é muito criticado pelo baixo volume de produção. Durante a safra, produzimos em média 200 litros de cachaça por dia.  Meu avô sempre falava: é um alambique que não entrega quantidade, mas tem qualidade. Aqui em Salinas apenas quatro marcas mantêm essa tradição e somos uma delas”, relata Cléber Santiago, neto de Anísio Santiago e atual responsável pela produção da cachaça Havana.

Cachaça Havana: Da polêmica à fama

Pouco afeito a entrevistas, Anísio Santiago passou o cadeado na propriedade em 1970 para tentar conter a curiosidade de jornalistas. Entre as décadas de 1990 e 2000, uma polêmica judicial envolvendo o nome da marca brasileira e de um rum comercializado por uma multinacional no país levou Anísio Santiago a trocar o rótulo, tirando Havana e colocando o próprio nome no lugar. Deu o que falar. Mídia espontânea que tornou a cachaça Anísio Santiago/Havana ainda mais conhecida e reconhecida. 

Anísio Santiago morreu em 2002 sem ver a vitória nos tribunais, mas segue lembrado nos rótulos da cachaça Havana e da cachaça Anísio Santiago. Guimarães Rosa já dizia que “as pessoas não morrem, ficam encantadas” nas coisas. Mais do que encantado, Anísio é um belo gole da história do destilado nacional, citado em vida e morte como um produtor à frente de seu tempo, com ideais que diferenciaram seu produto, valorizaram toda uma região produtora de cachaça e eternizaram seu legado.

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Ana Paula Palazi

Ana Paula Palazi

Jornalista, repórter, especialista em jornalismo científico e cachaceira. Atualmente, misturando comunicação, cachaça e percepção pública da C&T num mestrado pela Unicamp

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  • Gerardo Rocha Fortes
    abril 1, 2022 at 7:31 am

    Simplesmente magnífica a reportagem da Cachaça Havana.

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