O gim e a cachaça: o que aprendi na Holanda
Verallia

O gim e a cachaça: o que aprendi na Holanda

20 de 07 de 2015

O primeiro gole de gim é difícil de esquecer: foi péssimo. Meu paladar ainda infantil buscava algo mais simples, sem tanto sabor e sem a fama de “bebida de tiozão” que o gim carregou injustamente por alguns anos. Acontece que lá, 15 anos atrás, eu não sabia que encontraria no gim uma das melhores, mais refrescantes e deliciosas bebidas alcoólicas que esta humanidade poderia produzir. Naquela época eu sabia ainda menos sobre o como o gim me ensinaria sobre a cachaça – ou me mostraria o quanto podemos aprender com essa bebida nada démodé.

Além da minha missão de encontrar cachaça na Holanda e na Espanha, na minha viagem à Europa meu marido e eu tínhamos um objetivo claro: provar o maior número de sabores possíveis, no corpo e na alma. E como, para a minha sorte, quando se trata de bebidas o que fica não é a primeira impressão, a cada novo bar experimentava um novo rótulo de gim. O gim tônica, velho companheiro de estrada, tornou-se também companheiro de mochilão, mas foi em Maastricht, no sul da Holanda, divisa com a Alemanha e a Bélgica, que o gim me atingiu bem no meio do peito. O motivo? Ele me lembrou e muito a nossa bendita cachaça.

O copinho que fez meu coração bater mais forte de novo: do shot de cachaça ao de gim.

O copinho que fez meu coração bater mais forte de novo: do shot de cachaça ao de gim.

Em um restaurante de culinária belga, que harmoniza cada prato, entrada e até as saladas com cervejas artesanais, o Genever, ou Dutch Gim, é servido no copinho, com a garrafa à mesa. Enquanto a nossa cachaça vem antes da refeição, o Genever fechou o banquete, acompanhado de um espresso quentinho. Nos rótulos, a indicação de produção artesanal encheu minha boca ainda mais de água – todas as opções, que não eram poucas, foram destiladas na destilaria do próprio restaurante. Cidade, província, tipo, perfume e graduação alcoólica, tudo isso estava devidamente registrado em cada uma das garrafas. Escolhemos dois frutados, um com aroma de caramelo e outro cítrico, e degustamos enquanto ouvíamos algumas histórias do lugar. A cachaça acompanha um bom português-caipirês; já as prosas do Genever vem em um inglês-dutch meio duro, meio enrolado. Incrível, incrível.

Já imaginou toda a cachaça de alambique vir com identificação geográfica e de degustação?

Já imaginou toda a cachaça de alambique vir com identificação geográfica e de degustação?

Essa era a pequena carta de tipos de gim diferentes e artesanais que a casa serve.

Essa era a “pequena carta” de tipos de gim diferentes e artesanais que a casa serve. 

A velha história do gim e a nova da cachaça

Segundo Junior WM, mixôlogo e parceiro Mapa da Cachaça, “a principal característica do gim é o uso do óleo essencial de zimbro (genièvre do francês e jenever do holandês) adicionado a um álcool de cereais neutro. Como sempre friso, a maioria dos álcoois é obtida da mesma forma e o processo pós-destilação é que lhes confere as características peculiares de sabor, cor, aroma e textura”. Ou seja, a diferença entre o gim e a vodca, por exemplo, está na riqueza sentida no paladar. O zimbro é muito parecido na aparência com o blueberry, ou mirtilo, mas possui um sabor de pinho bem acentuado. Misture a ele ervas, frutas cítricas, sementes aromáticas e até ingredientes inusitados, como o pepino, e obtenha uma bebida versátil e ao mesmo tempo rica em sabor.

Assim como a cachaça, o gim já arrastou algumas famas que não lhe cabiam, e precisou de tempo e investimento para retomar seu lugar no mercado. Criado na Holanda com o objetivo de ser um medicamento, em uma versão mais rústica e amarga que a atual, se popularizou na Europa e acabou sendo rebaixado ao posto de bebida barata e forte demais no século 17, na Inglaterra, ao ser produzido em destilarias de fundo de quintal, sem regulamentação ou inspeção sanitária.  Apenas nos meados do século 19 as classes mais altas passaram a consumi-lo, após produtores como Beefeater e Boodles criarem o sabor mais suave do London Dry Gin.

Já nos anos 70 a bebida sofreu outro duro golpe, quando passou a ser considerada “bebida de velho” e a ver a vodca se tornar principal ingrediente para coquetéis que, antes, eram seu território exclusivo. Em entrevista ao Destemperados, Edgard da Costa, um dos proprietários da Companhia Tradicional de Comércio, de São Paulo, conta que a bebida voltou a fazer sucesso novamente há pouco mais de 5 anos. “O gim-tônica praticamente se tornou a bebida típica da Espanha, onde passou a ser cultuado e difundido, principalmente em Madri. Os chefs espanhóis começaram a bebê-lo e associá-lo à gastronomia, servindo em copos de conhaque e adicionando ingredientes que iam muito além da simples rodela de limão”, comenta.

Outro ponto de contato entre a história da cachaça e a do gim é o amor dos bebedores por estas bebidas. Tanto quanto a cachaça, mesmo com o avanço da produção industrial (de vodca, no caso), pequenas destilarias e até mesmo grandes empresas, mas em pequenas porções de produção, continuaram, durante todo este tempo, agraciando os apreciadores da bebida com versões artesanais e de personalidade. Em 2012, o The New York Times publicou um artigo chamado “Ensaios para o retorno do gim“, no qual citava as pequenas destilarias que tentavam ressuscitar a aura de glamour do gim e investiam em receitas artesanais, nem sempre com sucesso. Poucos anos e muito investimento – de tempo e dinheiro – depois, vemos o gim voltar ao cardápios dos mais variados estabelecimentos, até mesmo no Brasil, que nunca deu muita bola para o destilado. Esse é o cenário que acredito estarmos alcançando com a cachaça: muita produção artesanal de altíssima qualidade e holofotes e investimentos de voltando não apenas para ganhar espaço no mercado, mas para a valorização da nossa bebida. Em entrevista ao portal Administradores, Felipe Jannuzzi, criador do projeto Mapa da Cachaça, afirmou que “esse cenário pode e vai mudar mudar, desde que se rompa com o preconceito e se enxergue na bebida um mercado de futuro com um passado rico”.

Uma bebida cheia de personalidade e de muita qualidade, que sofreu com a má fama e, mesmo assim, continuou sendo valorizada e produzida por quem mais lhe adorava – e que hoje anda por um novo caminho, diferente, moderno e com muito valor de mercado. De quem estamos falando, do gim ou da cachaça? Se depender de mim, cachaceira de natureza, é só a velha história do gim se repetindo como a nova história da cachaça. O caminho se mostra certo, mas se for acompanhado por uma boa dose de cachaça, aí ele fica é perfeito.

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Comentários

  1. Isadora Bello Fornari

    julho 21, 2015

    Adorei o texto, Carol!!! Basta esclarecimento e apresentar uma nova face da nossa caninha! Estou adorando sua viagem e analogias!

  2. Alberto Nascimento

    abril 5, 2018

    Adoro provar cachaças de vários lugares. Mas o que eu mais adoro é uma cachacinha curtida com alguma fruta.
    E sem esquecer que a cachaça vai muito bem com mel.

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