Mulheres, paróis e um mercador: os 100 anos da cachaça Colombina

Cachaça Colombina com caipirinha

Tradição e inovação marcam história dessa cachaça artesanal mineira envelhecida em raro sistema de armazenamento em Jatobá. Para brindar marco centenário, produtor resgata raízes e anuncia seis novos blends, em parceria inédita

Cerca de 160 quilômetros ao sul de Belo Horizonte, na pequena cidade de Alvinópolis, fica a Fazenda do Canjica. O nome é referência ao ribeirão, silencioso e ladeado por um mar de morros, que corta a propriedade.

Ali, em terras úmidas e férteis que abasteceram tropeiros e alimentaram mineradores, se levanta o engenho centenário de uma cachaça que tem muito pra contar. “É como estar num ambiente impregnado de história”, diz Luciano Barbosa Souto, produtor da cachaça Colombina.

A fazenda é um dos remanescentes do período de colonização de Minas Gerais, sendo reconhecida pelo Instituto Estrada Real por sua tradição na produção do destilado brasileiro.

O alambique guarda preciosidades de uma época em que a moenda de cana era movida à água e grandes tanques de madeira chamados de paróis eram usados na fermentação do caldo de cana e no armazenamento da cachaça.

Diferente de um museu, no alambique do Canjica a história vive, tem cheiro, cor e sabor, podendo inclusive ser degustada. A produção de cachaça tem 130 anos e a fazenda usa o mesmo sistema artesanal com fermento caipira e destilação lenta a fogo direto como nos primórdios, em 1890.

A data encontrada numa telha da propriedade é o registro mais antigo das origens do engenho que mantém, até hoje, o envelhecimento da bebida em dois raríssimos e preservados paróis de Jatobá. Qualidade que se espalha Brasil afora com a marca Colombina há cem anos, desde o início do século XX.

Um olho no passado e outro no futuro

Dessa forma, a cachaça Colombina pretende continuar escrevendo a história pelos próximos cem anos. A marca consagrada por sua Colombina 3 anos tem investido em novas madeiras, sem perder de vista a tradição do Jatobá e acaba de lançar um kit comemorativo composto por três garrafas de 375ml.

Kit comemoração 100 anos
Kit de comemoração dos 100 anos da

A caixa assinada e numerada traz a Colombina Chita num blend exclusivo com Amburana, especialmente criado para o aniversário do centenário, além da premiada Colombina Cristal reconhecida como a 4ª melhor branca pela Cúpula da Cachaça 2020 e a edição especial Colombina 10 anos envelhecida em parol.

Para além da inovação, Luciano acredita que a cachaça só vai ganhar reconhecimento e valor internacional na hora que os produtores conseguirem se juntar. Com isso, tem apostado num retorno às raízes históricas da Colombina firmando uma parceria inédita para o lançamento de seis novos blends, em 2021.

“Comemorar cem anos não é uma coisa só da Colombina, então nós resolvemos convidar outras marcas que admiramos e elas aceitaram”, conta.

Na lista estão: a Cachaça Pardin, de São Paulo; Cachaça Bem Me Quer, de Minas Gerais; Cachaça Magnífica, do Rio de Janeiro; Cachaça Princesa Isabel, do Espírito Santo; e Cachaça Matriarca, da Bahia. Os blends são assinados por Marcelo Pardin e Leandro Marelli. O lançamento ainda não tem data marcada.

A origem da cachaça Colombina

A marca que retrata a dama do carnaval com uma taça de cachaça na mão surgiu em 1920 com um comerciante chamado José Acácio de Figueiredo, antes mesmo que as desventuras amorosas do triângulo amoroso com Pierrot e Arlequim fossem cantadas por Mário Reis, Lamartine Babo, Ary Barroso, Noel Rosa e Zé Ketti em marchinhas carnavalescas .

Natural de Santa Bárbara, cidade vizinha de Alvinópolis, e com contatos em Belo Horizonte, José Acácio começou a envasar e vender a cachaça Colombina num momento de efervescência cultural, marcado pelo que viria a ser a Semana de Arte Moderna. Só tinha um detalhe, ele não produzia a bebida nem tinha a intenção de fazê-lo.

Assim, comprava a cachaça de produtores locais e transportava do interior pela estrada de ferro Central do Brasil até a capital mineira, onde era estandardizada e engarrafada sob o mesmo rótulo. Entre os diversos fornecedores estava o engenho Canjica.

“O nome da marca é muito importante para o período histórico,  estávamos prestes a completar os 100 anos da Independência do Brasil e a Colombina já tinha, naquela época, um grande simbolismo ligado ao carnaval”, conta Luciano.

Contemporânea da cachaça, a história de Colombina surgiu na Itália do século XVI, mas foi no Brasil que o enredo popular da Commedia Dell’Arte saiu do teatro e caiu na folia.

Enquanto marca de cachaça, o nome ganhou contornos de afirmação cultural, tendo conquistado o prêmio da Exposição do Centenário, evento que aconteceu entre 1922 e 1923, na então capital do país, o Rio de Janeiro. Honraria impressa com orgulho nos rótulos da época.

As mulheres e o engenho

Para além do logotipo, a presença feminina é um tempero, nada secreto, da Colombina desde sua origem. Antes da fazenda do Canjica ser comprada pelo industrial do ramo dos tecidos, Frederico Álvares da Silva Mascarenhas – o Doutor Fritz, da Fabril Mascarenhas, famosa empresa têxtil mineira – a propriedade e a destilação de cachaça funcionavam sob os cuidados de duas mulheres.

A Sadonana do Canjica supervisionava a produção onde, ainda hoje, é destilada a Colombina, enquanto a Samarica do Canjica era responsável por um segundo engenho que operava simultaneamente nas proximidades, mas que ao longo do tempo foi extinto.

Luciano acredita ser importante as pessoas saberem que o nascimento da Colombina foi em parte possível graças à contribuição de mulheres. “Podemos dizer que isso era relativamente comum na época, como o alambique precisava ficar próximo da casa pela facilidade de água e outros insumos, a mulher tinha um papel preponderante na produção”, comenta.

Nova geração da cachaça Colombina

Na década de 50, a Colombina foi descontinuada e por quatro décadas desapareceu do copo dos brasileiros. Nesse período a produção de cachaças no engenho Canjica também foi reduzida, servindo apenas para o consumo dos novos donos da fazenda.

O engarrafamento com a marca emblemática foi retomado apenas nos anos 90, depois que o sogro de Luciano, Raul Mègre, e a esposa dele, Maria Elisa, filha de Dr. Fritz, descobriram a história da Colombina e decidiram investir de maneira ousada, apostando na criação de uma garrafa própria, transparente e quadrada, usada até hoje.

Com autorização da família de José Acácio, o casal registrou a marca e chegou a exportar para a Argentina. A Colombina passou a ter destilação exclusiva do engenho Canjica, dando início a uma nova geração da genuína cachaça mineira, envelhecida em paróis de Jatobá.

Em 2004, com a morte repentina do sogro, Luciano assumiu a produção ao lado da esposa, Lívia Mègre Souto como forma de manter vivo o legado histórico da cachaça para os dois filhos. “Tive muito apoio da família inteira, da minha mulher, das irmãs dela, mas sem minha sogra não teria conseguido tocar o negócio”, revela.

Maria Elisa ensinou a Luciano a arte de destilar cachaça. Muito embora não partilhasse de uma grande paixão com a bebida, sabia da importância de se preservar um saber tradicional. Agora, são os netos que ajudam a tocar a empresa. “É um orgulho fazer parte de um pequeno trecho dessa grande história. Preservar o passado é mais do que produzir cachaça por amor, é levar um produto de qualidade para perto das pessoas, e, isso, fazemos todos os dias”, finaliza Luciano.

Ana Paula Palazi

Ana Paula Palazi

Jornalista, repórter, especialista em jornalismo científico e cachaceira. Atualmente, misturando comunicação, cachaça e percepção pública da C&T num mestrado pela Unicamp

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