Magnífica: a história de uma das maiores cachaças fluminenses

João Luiz de Faria da cachaça Magnífica

A máquina a vapor de uma antiga Maria Fumaça centenária traz charme à propriedade rural em Vassouras, no Vale do Café fluminense, região serrana do Estado do Rio de Janeiro. Não existem muitas como essa aquecendo alambiques. Na propriedade onde o canavial é a perder de vista, um robusto sistema para envelhecimento forra as paredes de um grande galpão. Mas, certamente, o que mais chama a atenção é o alambique de três corpos. Raríssimo e único, em pleno funcionamento, num raio de 600 quilômetros da Fazenda do Anil, a casa da Cachaça Magnífica.

São esses três elementos que produzem uma cachaça descrita com perfeição no próprio nome. O sistema singular de alambicagem, curiosamente chamado de alambique alegria – talvez, pela felicidade de extrair do vinho da cana o melhor potencial para a cachaça- se interliga à máquina de vapor, que, por sua vez, está ligada à moenda. O bagaço da cana alimenta a fornalha que gera a energia e o calor necessários para tudo funcionar em harmonia.

De opções jovens, direto da bica, a preciosos single casks decenários. O portfólio da Cachaça Magnífica tem se expandido para agradar a diferentes públicos. A queridinha dos fluminenses acaba de alcançar mais um cálice de vitória ao conquistar espaço na sofisticada Galeries Lafayette, da Champs Elysee, prestigiada avenida de Paris. 

E pensar que o brasileiro responsável por tal feito sequer gostava de cachaça quando começou o negócio em meados dos anos 80. 

Familia Cachaça Magnífica
Raul, Ana, João Luiz e Dona Clau – a família produtora da cachaça Magnífica

Não é novidade que João Luiz Coutinho de Faria apreciava uísque. A história da fundação da Cachaça Magnífica de Faria mudou os gostos do engenheiro, mas foi conhecendo as destilarias da Escócia que a visão dele, realmente, se transformou. De fomentador da inovação, como ex-presidente da FINEP, à embaixador da tradicional cachaça de alambique. 

Hoje, a Magnífica tem sete tipos diferentes de produtos (a Reserva do Patrão deve entrar no portfólio em breve, aumentando a família), além de um amplo sistema envelhecimento com dornas de 50 mil litros de Ipê e uma soleira de oito andares. O destilado mudou no copo de João, mas não o bom gosto por bebidas de qualidade. 

“Antes, meu pai produzia e eu bebia cachaça, agora eu produzo e ele faz o controle de qualidade”, conta Raul de Faria, filho do fundador da Cachaça Magnífica de Faria que vem assumindo os negócios da família com a irmã Ana Luiza.

O alambique de três corpos na produção da Magnífica

A cachaça produzida em alambique três corpos é uma das mais raras, por razões óbvias. Não é de se admirar que a maioria dos produtores opte por destiladores mais simples. É caro construir uma panela de cobre para a destilação. Imagine três, interligadas. Por esse motivo, o processo de destilação em alambique alegria quase desapareceu no país. 

Cachaça Magnífica
Formato de alambique conhecido como Alegria.

Mas o projeto que deu vida à Cachaça Magnífica foi ambicioso desde o princípio. A inspiração veio da centenária Fazenda da Cachoeira, detentora de parte da história do Vale do Café fluminense e produtora da única cachaça que João Luiz bebia até então. 

O alambique de três corpos permite que o corte na destilação seja feito de forma precoce. O que sobra é reinjetado no sistema. Isso é possível a partir de uma manobra com o uso da panela extra. O método está na essência da Cachaça Magnífica e estampa os rótulos como um dos grandes diferenciais da marca.

“É como se a parte final do nosso coração sofresse uma bidestilação, e com isso eliminamos qualquer elemento de cauda”,

explica Raul sobre os benefícios do alambique alegria.

Há alguns anos, a marca lançou sua primeira garrafa de Cachaça Magnífica Bica do Alambique com graduação de 48% de álcool, a máxima permitida pela legislação. Uma cachaça sem descanso e sem diluição que sai direto do exclusivo alambique para a garrafa. Forte sem ser agressiva, assegura a Magnífica.

Um sistema de soleira baseado na produção de rum

O sistema de envelhecimento em soleira é outro capítulo empolgante dessa história. João conheceu o método na Venezuela, durante um concurso internacional de rum. Por sugestão do brasileiro, os jurados decidiram fazer um tira-teima entre as cinco bebidas mais bem avaliadas. 

Na segunda rodada de degustação, o rum que João havia gostado subiu de terceiro para o primeiro lugar. Os responsáveis pela marca souberam do ocorrido e como forma de agradecimento convidaram o brasileiro para uma visita à fábrica. João se encantou pelo processo de envelhecimento, e de volta ao Brasil replicou com cachaça. 

A soleira garante que cada garrafa de Cachaça Magnífica Reserva Soleira tenha um pouco do primeiro barril de 2002, data em que o sistema foi montado na Fazenda do Anil.

Isso porque o barril original nunca foi esvaziado completamente. 

São duas estantes com sete prateleiras de um lado e oito de outro. Em cada prateleira, 30 barris de carvalho bourbon. A cada ano, cerca de 3 mil litros são sacados da base, enquanto os barris do topo recebem cachaça mais nova.

Outro produto singular é a Magnífica Single Cask, uma Cachaça Extra Premium de barricas únicas selecionadas, que sofrem o mínimo de intervenção. Sem blendagens, em edições limitadas, engarrafadas diretamente da barrica.

“Tiramos a Magnífica Single Cask do barril direto para a garrafa, com filtragem só de um algodão para o consumidor ter a essência de uma cachaça envelhecida em madeira por mais de 10 anos”

destaca Raul DE FARIA sobre o sistema de envase manual.

Quando olhamos para a ascensão da Magnífica é difícil imaginar, mas o sonho de produzir o melhor destilado do mundo quase foi interrompido pela dificuldade de emplacar um produto de alta qualidade e valor agregado trinta anos atrás.

Da falência ao sucesso com a cachaça

Em 1985, quando a marca nem existia, João de Faria visitou a cavalo a propriedade de 450 hectares que decidiu comprar com mais dois amigos. O engenheiro mecânico nada conhecia sobre produção de cachaça. A não ser por uma péssima experiência na juventude e as caipirinhas eventuais do verão, entretanto foi convencido de que o negócio era promissor. 

O difícil acesso à fazenda foi apenas o primeiro dos obstáculos. A energia elétrica não chegava ao alambique e os sócios adquiriram uma máquina a vapor centenária para mover a moenda. Pensaram que compensaria mais do que implantar uma roda d’água. O mesmo vapor que movimentava a máquina seria usado na destilação, tendo a fornalha mantida pelo próprio bagaço da cana.

Máquina a vapor de uma antiga Maria Fumaça

Hoje, acionar o apito da antiga locomotiva é uma das atrações para os visitantes, mas, na época, o alto investimento não se traduziu nos resultados esperados e a produção foi descontinuada logo no início. 

“Nenhum dos três tinha uma visão, digamos assim, comercial. A ideia era fazer uma cachaça de boa qualidade que os compradores apareceriam. Até apareceram, mas não pagando o preço que meu pai e os amigos precisavam para cobrir os custos do investimento”, lembra Raul sobre o período quando a cachaça era vendida a granel na porta da Fazenda do Anil.

Dornas de fermentação da cachaça Magnífica

A construção da marca Magnífica de Faria

A Magnífica de Faria só viria a nascer dez anos depois. Na década de 90, João fez um acordo com os sócios. Para salvar o investimento milionário na Fazenda do Anil, comprou as partes e assumiu inteiramente o negócio. 

Uma das ideias era chamar a cachaça de Sant’Ana em homenagem às três filhas. João desistiu depois de brincar com um amigo que, coincidentemente, tinha por sobrenome Santana. Se o produtor queria reverenciar alguém, disse o colega, que fosse a esposa. 

Na época, dona Clau era magnífica reitora da Universidade Santa Úrsula, do Rio de Janeiro. O nome improvável caiu na boca e no gosto dos cariocas. Raul lembra que no início o pai titubeou, com medo de parecer prepotente. Sem dúvidas, a família reconhece que foi a melhor decisão. É difícil encontrar melhor adjetivo para a cachaça de Vassouras (RJ).

Mas o sucesso da Magnífica de Faria não se resume ao nome ou sobrenome. Como os uísques escoceses que tanto admirava, João entendeu que precisava investir na valorização da marca e do produto, mudando também a imagem da cachaça. 

Garrafas da cachaça Magnífica
As cachaças produzidas na Fazenda do Anil

Por uma política para a Cachaça

A busca por conhecimento levou o engenheiro a fazer contato com outros produtores e participar ativamente do setor. De um lado, João corria de bar em bar apresentando a qualidade de seu produto e prospectando compradores. De outro, trabalhava nos bastidores apoiando projetos como o Programa Brasileiro de Desenvolvimento da Aguardente de Cana, Caninha ou Cachaça (PBDAC) em 1997, que deu origem ao Instituto Brasileiro da Cachaça (IBRAC). 

Em 1998, ajudou a montar a Associação dos Produtores e Amigos da Cachaça do Estado do Rio de Janeiro (APACERJ). Sua atuação para o reconhecimento e profissionalização do destilado nacional fez com que ele fosse escolhido como o primeiro presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Cachaça em 2006.

Alguns anos antes, a Magnífica lançava sua primeira garrafa exclusiva para uma cadeira de restaurantes inglesa. Uma caipirinha num daqueles bares do Rio de Janeiro, conquistados por João, foi o suficiente para convencer a comitiva estrangeira a procurar o produtor. A parceria abriu caminhos e, atualmente, a Magnífica mantém distribuição direta para sete países europeus.

No Brasil, felizmente, os produtos da Magnífica também estão ficando mais fáceis de encontrar. Embora o foco principal da empresa ainda seja a venda para o Rio de Janeiro, com a expansão do comércio online é possível comprar e receber uma Cachaça Magnífica em qualquer parte do país. De certo, esse avanço só é possível porque, lá atrás, João Luiz acreditou no potencial da cachaça.

Ana Paula Palazi

Ana Paula Palazi

Jornalista, repórter, especialista em jornalismo científico e cachaceira. Atualmente, misturando comunicação, cachaça e percepção pública da C&T num mestrado pela Unicamp

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