Familia Cellia

Mãe de três filhos, Maria Isabel comemora a chegada da primeira neta enquanto acompanha a expansão da produção de destilados no alambique da família, em Linhares, no Espírito Santo.

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Do alto do vale, sentada na varanda da casa da fazenda, Maria Isabel de Moraes – ou apenas Isabel para os amigos – observava o ritmo das águas do Rio Doce, ao lado da mãe. Todo fim de tarde o sol mergulha atrás das montanha da Serra do Mar, para um dos espetáculos mais bonitos da região: o pôr-do-sol.

PRINCESA ISABEL PRATA
vista da Princesa Isabel
Rio Doce Princesa Isabel

Naquela data seria ainda mais especial. O dia tinha amanhecido em festa pelo aniversário dela. A mulher que dá nome a premiada cachaça capixaba, Princesa Isabel, comemorava ao lado do marido, dos três filhos (Gabriela, Pedro e Clara) e da primeira neta, com apenas três meses.

“Só de casamento são 36 anos e eu ainda sou chamada de princesa”, brincou ao telefone. O nome da cachaça é uma homenagem do marido para Isabel e os rótulos desenvolvidos com apoio de uma das filhas reverenciam a terra onde a bebida é produzida, retratando a riqueza natural da região.

Família Cellia em expansão

De onde estava sentada, ela também podia ver o marido, Adão Cellia, enquanto ele supervisionava a ampliação do alambique. “O Adão é muito empreendedor”, reconhece. Quatro anos após o lançamento da primeira cachaça, a família vai crescer de novo e ganhar novos membros.

“Estamos montando uma fábrica de gin, agora”, revelou Isabel. A ideia é aproveitar a estrutura do alambique para diversificar ainda mais o portfólio, que conta com sete cachaças – quatro envelhecidas em madeiras brasileiras.

Na fazenda tem um paiol de envelhecimento dedicado exclusivamente para os barris de madeiras exóticas: Amburana, Bálsamo, Jequitibá-rosa e Jaqueira. Esta última veio de uma árvore que não é nacional, mas é bastante na região, que caiu na propriedade, após um temporal.  

Isabel conta que as ideias partem do marido, enquanto ela fica na retaguarda. Peça importante da engrenagem familiar que faz a produção funcionar, de uma outra perspectiva. Ela diz que um de seus pontos fortes é ser “mão na massa”. Uma mulher que não gosta de escritório, mas está sempre pronta para cuidar de qualquer detalhe, com muito carinho.

A habilidade, admite ter desenvolvido na maternidade. Isabel é do tipo de mãe parceira, sempre presente na vida dos filhos. Amante das artes e pouco afeita das tecnologias, é ela quem vai para o fogão de lenha e nos tachos de cobre prepara o alimento para  receber as visitas, recuperar as energias e manter a família unida.

Trabalho sempre acompanhado de um cálice de cachaça. A bebida solta a prosa, a risada e deixa as pessoas mais felizes, garante. Em janeiro, ela coordenou a recepção de 150 pessoas durante o 6º Encontro de Mestres Cachaciers, realizado na fazenda. Mas, na hora de indicar qual a versão preferida da Cachaça Princesa Isabel, fica em dúvida. “Sou suspeita a falar, gosto de todas”.

Fazenda Tupã: respeito às origens

Quem visita o alambique da Cachaça Princesa Isabel conhece a bebida, a família e a história dessa terra produtora. Na entrada uma genuína canoa Pataxó é exposta. A embarcação de nove metros, feita em peça única de um Pequi Vinagreiro – árvore da Mata Atlântica que pode viver mais de mil anos – foi descoberta depois de emergir na beira do Rio doce, entre os cacaueiros.

Se os moradores originais há muito não vivem mais ali, o respeito pela natureza é mantido na tradição dos novos proprietários. Uma filosofia que exalta a arte da vida como fruto da terra.

A plantação própria de cana-de-açúcar tem certificação orgânica, conquistada depois de cinco anos de aprimoramentos na cadeia produtiva. A colheita é manual, sustentável e sem queimadas.

No engenho, o bagaço gera o calor da caldeira e o que sobra vai para o cocho complementar a alimentação do gado criado na fazenda. O vinhoto é mantido em tanques e usado de forma controlada para a fertilização do pasto e do canavial.

O alambique também aproveita o declive do terreno para levar a cachaça recém destilada direto para o armazenamento, por gravidade. A estrutura ainda conta com painéis solares para geração de energia elétrica e toda madeira usada nas construções é da plantação própria de eucaliptos.

Cachaça Princesa Isabel: realização em família

Quando o marido médico começou a sonhar, dez anos antes, onde gostaria de estar hoje, havia um lugar que lhe remetia à infância: o alambique. Adão compartilhou o plano com a esposa; queria produzir cachaça como os tios dele faziam.

Na época, Isabel achou que fosse loucura. Nenhum dos dois tinha qualquer experiência no mercado de bebidas – ele é anestesista; ela formada em artes plásticas. Ainda assim, Isabel apoiou o marido e deu todo o suporte para que o sonho virasse a realização da família.

No início dos anos 2000, o casal capixaba comprou a fazenda produtora de gado e cacau, no município de Linhares, no Espírito Santo. E ela, também se realizou.

“Me sinto plena aqui, quando estou no sítio sou muito feliz”, comenta.

Isabel, produtora da cachaça Princesa Isabel

O casal viajou o Brasil à procura de conhecimento. Cada dia de folga, cada período de férias era motivo para visitar um alambique diferente. Adão e Isabel passaram a conhecer produtores artesanais de cachaça e fizeram curso de mestre alambiqueiro, juntos.

A construção da fábrica começou em 2005. Isabel que também é técnica de edificações acompanhou tudo e fez a primeira alambicagem. As obras só terminaram em 2011. Depois, foram mais cinco anos para a regularização da marca.

A comercialização começou no ano de 2016. E em 2018 a Cachaça Princesa Isabel foi considerada a melhor do Brasil, pelo Ranking da Cúpula da Cachaça. No ano passado, recebeu medalha dupla de prata nas categorias cachaça e cachaça envelhecida do German Rum Festival.

“Agora, a cachaça faz parte da nossa vida, da nossa paisagem, das nossas conversas, da nossa mesa”.

Mercado e futuro da cachaça Princesa Isabel

No início do projeto, Isabel revela que enfrentou preconceito até de parte da própria família que não aceitava a produção de bebidas alcoólicas. “Se por um lado tem as pessoas que gostam e amam cachaça, por outro tem quem peça para a gente não fabricar; o preconceito não é só do consumo, mas da atividade”, explica.

Com apoio de outros produtores a Cachaça Princesa Isabel vem mudando opiniões, investindo em qualidade e propagando a ideia de consumo equilibrado.

Recentemente a marca começou a exportar para países como Alemanha e Estados Unidos. A estrutura montada na Fazenda Tupã tem capacidade para produção de 100 mil litros de cachaça ao ano. Hoje, são fabricados 30 mil.  Com o projeto do gin a expectativa é elevar o volume e crescer conforme a demanda.

Isabel percebe a evolução no mercado, mas acredita serem necessários mais 5 ou 8 anos de trabalho para as pessoas valorizem mais a cachaça. Ela avalia que o público feminino tem crescido e está mais integrado. Pela experiência no alambique, arrisca dizer que o número de mulheres consumidoras já se equipara ao de homens e comemora.

Adão e Maria Izabel Cellia
Ana Paula Palazi

Ana Paula Palazi

Jornalista, repórter, especialista em jornalismo científico e cachaceira. Atualmente, misturando comunicação, cachaça e percepção pública da C&T num mestrado pela Unicamp

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