Gabriela cravo

Na Coqueiro, a mais antiga destilaria de cachaça da histórica Paraty (RJ), com registros desde 1803, o matriarcado desenvolveu vários produtos para consumo próprio que depois ganharam as vitrines do Brasil e do mundo. A avó e a mãe de Eduardo Mello produziam licores de cachaça aproveitando as frutas e especiarias da época. Devotas de São João, as festas de família ainda contavam com o quentão feito de caramelo de açúcar, gengibre, cravo e canela. Indispensável nas festividades juninas, a bebida pode ter inspirado a aguardente mais apreciada da região: Gabriela Cravo e Canela.

Antes do licor fino de cravo e canela ganhar fama, na década de 80, com as filmagens do longa-metragem homônimo do romance de Jorge Amado, a aguardente composta teve uma versão anterior: a Saracura. A bebida leva praticamente os mesmos ingredientes do quentão, mas não é servida quente. O nome original é pouco conhecido e para provar o tira-gosto puro ou em coquetel elaborado num dos muitos bares, cafés, restaurantes e alambiques da cidade é melhor pedir pelo apelido: Caramelada.

“Muita gente acha que esse nome vem do caramelo, mas a verdade é que à medida que as pessoas iam bebendo a Saracura que meu avô produzia, ficavam alegres e o melado que é viscoso escorria pelo rosto, deixando a cara brilhosa, melada de açúcar. Assim, a Saracura começou a ser chamada de Caramelada”.

conta Eduardo Mello, produtor da Cachaça Coqueiro

Gabriela Cravo e Canela: Doce como açúcar

Da Caramelada, foi tirada a picância do gengibre e surgiu Gabriela. A bebida feita da infusão de especiarias era consumida pelos paratienses muito antes de Sônia Braga interpretar a bela retirante que trazia na pele a cor de canela e o cheiro de cravo. Também recebia outros nomes e era produzida na versão sem açúcar.

Em 1983, durante as gravações do filme dirigido por Bruno Barreto em Paraty, a amizade de Sônia e do irmão dela, Hélio Braga, com os produtores da Cachaça Coqueiro, levou a família Mello a desenvolver um produto em homenagem à atriz e sua marcante personagem, como forma de agradecimento ao carinho de toda a equipe.

Para destacar a doçura de Sônia, o açúcar do Quentão e da Saracura foi incluído no processo. A cachaça Gabriela ganhou certidão de nascimento e, com o sucesso da obra cinematográfica, virou um clássico de Paraty. Alguns diriam até do Brasil, sendo uma das bebidas mais consumidas na cidade há quase quatro décadas.

“Nós fomos o primeiro alambique a registrar e lançar o licor Gabriela Cravo e Canela em Paraty. Hoje, quem visita a cidade e não prova ou leva uma garrafa da cachaça como souvenir, não esteve em Paraty”

comenta Eduardo Mello, produtor da Cachaça Coqueiro.

Vale lembrar que o enredo do romance Gabriela se passa em Ilhéus, na Bahia, mas o centro histórico de Paraty, com seus casarões antigos e ruas de pedras irregulares (também chamada de pé-de-moleque), foi escolhido como um dos sets de filmagem. E foi num desses endereços que teria nascido, a partir da aguardente Gabriela, o drink mais amado da cidade, como contamos a seguir.

Um drink para Jorge Amado

Diferente da Aguardente Gabriela, o drink Jorge Amado não foi criado durante as gravações do filme, embora alguns relatos sigam nessa direção. O coquetel que leva limão, maracujá, gelo e cachaça Gabriela tem seu primeiro registro oficial 23 anos após as filmagens. Um tributo póstumo ao escritor popular, que morreu em 2001, aos 88 anos.

Em 2007, seis anos após o falecimento de Jorge Amado, a 4ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) – que já havia homenageado Vinicius de Moraes, Guimarães Rosa e Clarice Lispector – trazia como tema o legado do escritor baiano. Naquele mesmo ano, um certificado de premiação do XXV Festival de Pinga e Cultura Caiçara de Paraty, datado de onze de agosto, conferiu o primeiro lugar no Concurso de Drinks da cidade a um coquetel denominado “caipirinha Jorge Amado”, de Camila Paiva.

“A caipirinha tradicional ninguém sabe ao certo quem fez, mas o coquetel Jorge Amado tem mãe!”.

defende Andresa Paiva, irmã da bartender Camila Paiva

Camila e Andresa eram sócias no extinto restaurante “O Café” de Paraty, que fechou as portas em 2011, após a morte da empresária. Uma outra versão da história que circula na cidade credita a invenção do drink mais amado de Paraty a outro proprietário de restaurante e chef de cozinha que comercializava o coquetel com um nome diferente.

Andresa defende a autoria da irmã dizendo que estava com Camila no dia em que a receita foi criada. “Eu experimentei todas as versões antes de chegar na receita final. Quando o filho é famoso, pai é o que mais aparece”, diz a empreendedora.

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Coquetel Jorge Amado, clássico de Paraty

A confusão, de acordo com Andresa, surge em função da existência de outros dois coquetéis parecidos na cidade. A Caiçarinha, feita de limão, maracujá e cachaça branca e a Caipirela, uma espécie de caipirinha de limão feita com a aguardente composta Gabriela.

“Essas duas coisas sempre existiram em Paraty, sempre foram da região. A junção delas, pegar o limão e o maracujá da Caiçarinha e misturar com a Gabriela da Caipirela, foi minha irmã quem fez. Ninguém tinha pensado nisso antes”.

A receita original da Gabriela Cravo e Canela

Em Paraty, algumas das aguardentes de cravo e canela são feitas sem açúcar. Ao que Andresa alerta: “Isso não é Gabriela, não a Gabriela para o drink Jorge Amado”. A receita original de Camila Paiva e ganhadora do concurso traz a aguardente Gabriela Coqueiro na versão doce, limão em cubos, meio maracujá e gelo. O coquetel não leva açúcar no preparo.

Andresa lembra que quando a irmã foi convidada a participar do Festival de Cachaça, organizado pela Associação dos Produtores e Amigos da Cachaça Artesanal de Paraty (APACAP), não tinha a menor ideia do sucesso que a bebida faria. “Hoje em dia você encontra de tudo com a receita do drink Jorge Amado. Tem almofada, tem camiseta, virou identidade de Paraty”.

Na época, o restaurante da família funcionava num dos casarões imortalizados no filme. Sônia Braga aparece pulando o muro do imóvel na cena em que a personagem Gabriela vai se encontrar com o comerciante Nacib. Camila teria aproveitado ainda a fama do lugar para dar o nome ao coquetel.

Gabriela Cravo e Canela Nacib
Gabriela e Nacib

Os amigos contam que ela gostava de fazer drinks literários para harmonizar com os pratos gastronômicos que desenvolvia. A criatividade da empreendedora e cozinheira, que não apreciava ser chamada de chef de cozinha, rendeu outras três premiações na competição municipal. Após a morte inesperada de Camila, a família decidiu fechar o restaurante na cidade, mas o legado dela segue conquistando paladares e novos apreciadores de cachaça.

“Com certeza, Jorge Amado já é um clássico paratiense. Hoje, em todo lugar, você pode tomar um Jorge Amado em Paraty”,

comenta Eduardo Mello

Com tanta fama, é natural que o drink mais procurado da cidade ganhe releituras nas mãos de bartenders e mixologistas. Uma dessas criações leva angostura e espuma de gengibre. O coquetel na versão coada foi desenvolvido por Roger Bastos em parceria com a Cachaça Coqueiro. De acordo com Eduardo, uma homenagem à Camila Paiva. Lançado no Rio de Janeiro, o coquetel também é encontrado em Paraty. “Brincamos que temos o drink Jorge Amado e, agora, o drink Jorge Mais Amado”, finaliza Eduardo.

Ana Paula Palazi

Ana Paula Palazi

Jornalista, repórter, especialista em jornalismo científico e cachaceira. Atualmente, misturando comunicação, cachaça e percepção pública da C&T num mestrado pela Unicamp

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