Família, tradição e paixão: Engenho Santo Mario, a Meca ítalo-brasileira da Cachaça

Pai e Filho da cachaça santo mario

“È la gaia pioggerella a far crescere l’erba bella.” Este é um ditado comum no norte da Itália que exalta as coisas simples da vida.  Em bom português quer dizer que “É a garoa fina que faz crescer os mais belos gramados.” 

As palavras carregam consigo a cultura de um povo e inseridas nesta frase, de autoria desconhecida, estão as histórias de inúmeros trabalhadores imigrantes que desembarcaram no século passado nos nossos portos e ajudaram a construir o Brasil.

Dentre tais trabalhadores, um em especial, o senhor Baptista, fez da paixão pela cachaça o seu projeto de vida, transformando o sobrenome Seghese em sinônimo de originalidade e excelência em produtos destilados. Tradição que perdura até os dias atuais, cem anos após o desembarque em terras paulistas.   

Em Catanduva, cidade localizada no noroeste do estado de São Paulo e conhecida pela hospitalidade de seus moradores, está o principal fruto dessa história, o Engenho Santo Mario, lugar batizado com o nome do filho brasileiro do senhor Baptista, um recanto obrigatório para os amantes de  destilados e origem de algumas das melhores cachaças artesanais produzidas a partir de madeiras brasileiras.

De imigrante boia-fria a mestre cachaceiro

Este enredo, que poderia ser roteirizado pelo cinema nacional ou mesmo romantizado pelo novelista Benedito Ruy Barbosa, se inicia em 1918, quando a família Seghese se muda para o Brasil fugindo das consequências  da Primeira Guerra Mundial que afetaram profundamente a região de Bérgamo no norte da Itália, conhecida mundialmente por seus vinhos e azeites. Em busca de novas oportunidades, o jovem Baptista deixou a pacata comuna de Cividate al Piano, um patrimônio da humanidade, reconhecido por abrigar estradas  milenares  construídas pelo Império Romano e por suas extensas plantações de uva.

homem de calça preta, blusa branca e chapéu de palha faz plantio de cana para produção da cachaça santo mario
Da cana tombada na beira da estrada pelos caminhões surgiu o primeiro canavial da família Seghese

Ao chegar ao Brasil, após atravessar o Atlântico em mais de um mês de viagem e sem maiores conhecimentos sobre a nova terra, Baptista Seghese foi trabalhar em plantações de cana-de-açúcar no interior paulista. Na labuta como boia-fria conheceu a bebida que mudou a sua vida: a cachaça. Um produto tipicamente brasileiro que remetia a lembrança da grappa, uma espécie de conhaque aromatizado com ervas, produzido através da destilação da uva e muito popular entre os agricultores do interior da Itália. 

Sem ter muito capital, porém munido de perseverança e perspicácia, Baptista inicia suas primeiras experiências como mestre cachaceiro. Autodidata, seus primeiros produtos eram elaborados através de um maquinário construído com peças descartadas por destilarias e engenhos. A cana-de-açúcar, utilizada como matéria-prima, era coletada de manhã cedo, nas estradas de terra, onde caminhões se dirigiam para os principais canaviais de Piracicaba. 

A pé e a sol a pino, cabia a Mario e a Alberto, filhos brasileiros de Baptista, a essencial tarefa de recolhimento da cana derrubada dos caminhões para a produção. Nas primeiras décadas em nossas terras, a família Seghese se tornou sinônimo de produção de aguardentes no interior paulista e durante toda extensão de sua vida adulta, Mario fez jus à paixão do pai criando novos sabores e amores pela cachaça. 

Engenho Santo Mario e o Museu da Cachaça

Na década de 1970, Mario fixou-se com sua família em Catanduva, no Engenho Santa Clara, uma das mecas nacionais dos amantes de cachaça e lugar que hoje recebe o nome de Engenho Santo Mario, uma homenagem realizada por sua família e amigos pelo incansável trabalho com a produção de aguardentes.  

Seu Mario é um senhor branco, careca e de óculos, usa camisa branca e se apoia num balcão. Ao fundo prateleiras de bebidas no museu
O Museu iniciado por Mario Seghese virou ponto turístico e guarda relíquias como a Caninha Pelé da década de 50

Este lugar rústico e aconchegante, localizado no quilômetro 205 da Rodovia Comendador Pedro Monteleone, importante estrada da rota da laranja, expressa as memórias deste mestre cachaceiro italo-brasileiro, mesmo depois de duas décadas de seu falecimento. Ao chegar no local, temos acesso a um dos tesouros da família Seghese. O Museu da Cachaça iniciado por seo Mario e que atualmente é um dos pontos turísticos da região sucroalcooleira do noroeste paulista. 

“Meu avô era uma espécie de visionário. Estratégias de marketing, empreendedorismo e cuidado com o cliente, que atualmente discutimos em relação à venda da cachaça, ele já organizava muito antes. Seo Mario construiu o museu através de trocas com amigos, clientes e produtores de todo o Brasil reservando algumas de suas melhores produções artesanais para as permutas. O resultado foi a construção deste acervo, fruto também de muita prosa com diferentes pessoas que acabaram tornando-se amigos.”

Fabio Seghese, sócio do Engenho Santo Mario

Aberto ao público, o Museu da Cachaça hoje abriga uma das mais interessantes coleções de destilados da América Latina. Entre os tesouros de seu acervo, o engenho Santo Mario guarda uma das poucas garrafas conhecidas da Caninha Pelé, uma espécie de santo graal dos colecionadores de cachaça,  uma aguardente produzida em comemoração ao primeiro mundial de futebol conquistado pelo Brasil em 1958. A bebida  teve toda sua produção recolhida por pedido judicial do rei do futebol que não gostou de ter seu nome associado a uma bebida alcoólica. 

Cachaça Santo Mario: Qualidade e sofisticação premiada

Além de boas histórias e causos memoráveis sobre a cronologia da cachaça em nossas terras, o Engenho Santo Mario guarda outras relíquias preciosas em seu interior. Fábio, junto ao seu pai Mario Sergio (que aparece na foto de capa), irmã e primos, respectivamente terceira e quarta geração dos Seghese, produz algumas das mais premiadas cachaças artesanais premium fabricadas no Brasil. Entre as bebidas está a 5 Madeiras Nobres, um blend de cachaças envelhecidas por dois anos em barris especiais de Amburana, Bálsamo, Carvalho Francês, Castanheira e Jequitibá-rosa. Por sua qualidade e sofisticação, a bebida foi agraciada com a tradicional medalha de Ouro Spirits do 20º Concurso Nacional de Vinhos e Destilados, realizado em 2021. 

A cachaça, produzida a partir de uma fermentação caipira com leveduras do tipo house yeast, fruto de uma parceria com a startup Smart Yeast, foi escolhida como um dos melhores destilados do país por um júri formado por 20 especialistas nacionais e internacionais. “Esta premiação, e mais recentemente nossa aprovação no seleto comitê de destilados da BR-ME, nos enchem genuinamente de alegria, pois honram os legados de meu avô, além de trazer orgulho para nossa terra, Catanduva, que desde a fundação do Engenho”, declara Fábio.

Foto de Capa: @studio_1826

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