whiskey

Como o bourbon, bebida feita de milho, se tornou sinônimo do whiskey americano no mundo e está passando por sua melhor fase graças à coquetelaria

Há uma série de whiskeys produzidos hoje nos Estados Unidos — de single malts a rye whiskeys (que, aliás, passou a ganhar uma aura cult entre os apreciadores da bebida) — mas nenhum se tornou tão emblemático para o país quanto o Bourbon. O destilado que tem o milho como base se tornou sinônimo do whiskey americano, sua principal bandeira, seu estilo mais dissipado — e também mais consumido, dentro e fora do país. 

O Bourbon é o único espirituoso nativo da América, pelo menos conforme declarado pelo Congresso americano em 1964, que estabeleceu algumas regras para a produção da bebida: ele deve ser fabricado com um mínimo de 51% de milho, ser colocado em barris numa graduação alcoólica que não ultrapasse 62,5% e envelhecido em barris novos de carvalho tostado, para citar apenas três das mais representativas. Isso porque todo processo de produção do Bourbon whiskey é bem sui generis, como explica Maurício Porto, pesquisador de whisky (e whiskey) e criador da plataforma multimídia O Cão Engarrafado

Desde a escolha de grãos até a maturação, passando pela composição do mosto e destilação, tudo leva processos detalhados. “País nenhum do mundo faz esse processo como os americanos”, ele diz. Mas, se fosse para escolher apenas uma diferença, ele escolheria a maturação. “Por regra — de acordo com um documento chamado Code of Federal Regulations — o Bourbon deve ser maturado em barris virgens de carvalho americano torrados. Isso traz características sensoriais muito específicas. A madeira é muito intensa, e é perfeita para equilibrar um destilado bem adocicado também”, explica Porto. 

barris para envelhecer
Por regra, o Bourbon deve ser maturado em barris virgens de carvalho americano torrados.

O fato da receita do mosto (mashbill) usar majoritariamente milho também é algo único, que agrada o paladar de muitos bebedores, por ser bem adocicado. O Bourbon, um uísque que foi produzido pela primeira vez em Kentucky, EUA, usa pelo menos 51% de mosto de milho em sua produção — embora esse percentual quase sempre ultrapasse os 70%. 

Os regulamentos dos EUA especificam que, para que um uísque seja chamado de bourbon, ele deve ser fabricado no país: 95% do Bourbon mundial é produzido no Kentucky, onde as águas ricas em calcário do aquífero ao redor de Louisville (conhecido como Bluegrass) servem para fazer a melhor bebida, além de possibilitarem um clima propício para a bebida. O Kentucky possuía 68 destilarias em 2018 — um aumento de 250% na última década. São 32 municípios no estado com pelo menos uma destilaria, ante apenas 8 deles em 2009.

Esses dados indicam que o Bourbon talvez nunca tenha tido uma fase tão próspera. E a receita para esse atual sucesso é uma mistura do aumento da cultura de coquetelaria e as mídias sociais, segundo os maiores especialistas — e personagens — desse mercado. “Há uma crescente valorização do [bourbon] entre os millennials, em oposição à cerveja e outras coisas”, disse à CNBC o presidente da Michter’s Distillery Joseph Magliocco, principalmente com o boom dos coquetéis. 

“Os jovens de 20 e 30 anos gostam muito de coquetéis e mixologia”, disse Magliocco. “Os mixologistas de todo o país fizeram um ótimo trabalho. E agora, com as mídias sociais, está realmente se espalhando pelo mundo”. O fato de a bebida ter caído nas graças dos jovens consumidores permitiu uma nova fase para o Bourbon no mundo — catapultada por fotos em redes sociais como o Instagram, onde a hashtag #bourbon já soma mais de 3.2 milhões de compartilhamentos.

Porto concorda com a atual boa fase do Bourbon. “A expansão da alta coquetelaria fez com que as pessoas se interessassem mais pelo Bourbon whiskey. Porque, por razões históricas, a maioria dos coquetéis clássicos de whisky são feitas ou com Bourbon ou com Rye Whiskey. A proporção de drinks feitos com whisky escocês ou irlandês é bem menor – e geralmente, são mais desconhecidos. Basta você pensar quais são os três coquetéis com whiskey que todo mundo conhece? Manhattan, Whiskey Sour e Old Fashioned. Todos feitos com whiskey americano”, ele explica.

Também pesa — em favor do whiskey americano — a ideia de que o whisky escocês é sisudo, segundo ele. “No imaginário popular, whisky escocês é sofá chesterfield, parede de madeira, toalha xadrez. Já o americano é mais jovem e descontraído. É cowboy, low-rider, jaqueta de couro. É mais jovem, mais rebelde”, ele defende. Além, é claro, do fator preço: Bourbons tendem a ser mais baratos dentro de um mesmo benchmark de qualidade sensorial. 

Bartender em bar de whisky
Enquanto o whiskey americano se aproximou do público jovem, da jaqueta de couro e que bebe coquetéis sofisticados, o whisky escocês tem uma imagem mais sisuda.

Mas conta muito a favor da bebida do Kentucky a imagem que a indústria americana tratou de passar nos últimos anos — jovem, moderna — se aliando a bartenders que começaram a despontar numa das mais importantes cenas de coquetelaria do mundo, valorizando um produto nacional, dos bares de Nova York a Nova Orleans, de Chicago a San Francisco. Não raro, as campanhas publicitárias das maiores destilarias tratam de mostrar jovens em situações de puro hedonismo e celebração, o foco é mais o lifestyle do que a bebida em si. 

Se tem algo que os americanos sabem bem é explorar a imagem e aproveitar disso para garantir ótimos negócios. Vender o peixe, como dizemos por aqui. Algo que devemos nos inspirar se quisermos que a cachaça também tenha tamanha representatividade no mercado mundial — principalmente de coquetelaria, aproveitando o seu crescimento para nos alçarmos a mais balcões. 

Não por acaso, até 2013, nos Estados Unidos, a nossa cachaça era às vezes rotulada como “rum brasileiro”, causando confusão ao consumidor em relação ao rum produzido em outros lugares, como países do Caribe. Mas, desde aquele ano, um acordo entre os governos dos EUA e do Brasil estabeleceu que todo o espírito brasileiro de cana-de-açúcar que chega aos EUA deve ser chamado de “cachaça”. 

Em contrapartida, claro, foi preciso dar mais crédito às garrafas deles também: apenas o termo Whisky americano já não servia. Era preciso chamar os rótulos americanos pelo nome: Rye whiskey, Tennessee whiskey e, claro, Bourbon whiskey. O marketing, sabem bem os americanos, começa pelo nome. Por lá, eles costumam chamar isso pelo pomposo nome de branding. Parece que dá resultado… 

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Rafael Tonon

Rafael Tonon

Rafael Tonon é jornalista especializado nas áreas de gastronomia e bebidas

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