Sou um entusiasta da cachaça, professor de história e sommelier de cervejas e fui convidado pela equipe do Mapa da Cachaça para contribuir na discussão sobre a valorização da cachaça e sua cultura. Assim, me envolvi na tarefa de tentar traçar um comparativo entre a cultura cervejeira e uma possível cultura cachaceira. O texto a seguir é o resultado desta tentativa e uma breve contribuição ao debate:

Nos últimos anos o Brasil tem vivenciado um crescimento significativo no mercado das chamadas cervejas especiais. São cervejas que fogem àquela ideia cristalizada em nossa memória da cervejinha gelada e refrescante, sem muito sabor, aroma ou potencialidades gastronômicas. As chamadas cervejas especiais se apresentam em uma enorme variedade de cores, sabores, aromas e estilos, proporcionando, inclusive, possibilidades de harmonização gastronômica. Um dos aspectos mais curiosos deste crescimento do mercado de cervejas especiais é a divulgação da chamada cultura cervejeira.

Mas, afinal, o que é a cultura cervejeira?

Existem várias respostas possíveis. Cada cervejeiro ou apreciador pode ter a sua. Mas, pode-se dizer, em linhas gerais, que a cultura cervejeira é um conjunto de hábitos, práticas, costumes construídos historicamente, que envolvem o consumo da cerveja. Se estamos habituados a consumir a cerveja quase sempre como uma forma de se refrescar, alguns povos, ligados historicamente à produção de cervejas, como os alemães, os belgas ou os ingleses, por exemplo, possuem verdadeiros rituais para o consumo da cerveja. Por exemplo: na Baviera, no sul da Alemanha, é tradicional o consumo de cervejas de trigo numa espécie de segundo café da manhã, acompanhando uma boa salsicha e brezel (um tipo de pão alemão). Também entre esses povos é costume a produção de cervejas encorpadas e fortes para o consumo durante o inverno ou em determinadas épocas do calendário religioso.

Cerveja e Brezel
No sul da Alemanha brezel e cerveja é uma combinação típica

Partindo daí, pode-se refletir a respeito da existência, ou não, de uma cultura cachaceira no Brasil. A cachaça está intimamente ligada à nossa história, sendo os primeiros registros históricos datados do início do século XVII, figura entre nossa gastronomia e marca presença em grande parte dos municípios brasileiros. Mesmo assim, pouco se ouve falar de uma cultura cachaceira.

Talvez pelo fato de a própria expressão “cachaceira” tomar um significado pejorativo na maioria das vezes. Acontece que pode estar, justamente, na divulgação e na defesa de uma cultura cachaceira uma possibilidade de se superar esse preconceito.

A cerveja também carrega certo estigma social. Mas a cultura cervejeira trás consigo a defesa do seguinte lema: “beba menos, beba melhor”. Dentro desse preceito, privilegia-se o consumo de cerveja produzida na própria região. Isso significa consumir um produto mais “fresco”, que viajou menos e, portanto, com melhores atributos sensoriais. Também se privilegiam as cervejas produzidas com matérias-primas de boa qualidade, com zelo e cuidado, muitas vezes em escala reduzida, nas chamadas micro-cervejarias. Ainda que isso represente um custo um pouco maior, também significa um produto de melhor qualidade. Algo que se bebe para se apreciar, degustar, saborear e não, simplesmente, para “encher a cara”, como se diz em bom português.

Existem regiões no Brasil que contam com inúmeros alambiques, por exemplo. São cachaças de ótima qualidade, ligadas à economia local e que são, muitas vezes colocadas em segundo plano, como uma bebida de segunda classe. E isso é um comportamento tanto de consumidores finais como de estabelecimentos e pontos de venda que, muitas vezes, privilegiam aquilo que não é do local e não é típico.

Além disso, há um campo riquíssimo que se pode explorar, com relação às harmonizações gastronômicas. Alguns pratos tipicamente brasileiros combinam perfeitamente com uma dose de cachaça. Talvez não qualquer cachaça, mas uma que tenha sido escolhida cuidadosamente, pensada e experimentada. Quando se prova de uma combinação perfeita assim, a experiência gastronômica é intensificada, o prazer de se comer é muito maior.

Pastel de Bobo com Cachaça Cambraia
Pastel de Bobó harmonizado com cachaça envelhecida em carvalho

Acredito, portanto, que já está mais do que na hora de defendermos a existência de uma cultura cachaceira, com seus rituais, suas tradições, suas novidades, estimulando sim o consumo de cachaça. Não como uma bebida barata, sem muitas qualidades e que deixa “de fogo”, mas como um dos nossos alimentos típicos, tradicionais, que pode ser consumido com mais qualidade, de forma consciente e muito prazerosa.

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  • Bruno Ilário
    fevereiro 15, 2013 at 2:27 pm

    Ah Gabriel! Muito boa comparação! Esclareceu bastante e deu ótimas sugestões. Parabéns pelo texto.

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