Cachaça e Alcoolismo

Tenho R$10,00, estou desempregado, com problemas em casa. Passei no supermercado. O que, de melhor, eu posso comprar com esse dinheiro?

Veja esta nota fiscal acima. Compare os valores da água mineral, leite longa vida, leite em pó e fresco, e, claro, aguardente. A garrafinha pet de aguardente de 500ml custou apenas r$0,16 centavos a mais do que a mesma quantidade de água mineral, e r$0,26 centavos a MENOS do que 1 litro de leite longa vida. Não é difícil imaginar que os preços praticados por muitas aguardentes são, hoje, perigosamente acessíveis. Algumas pesquisas e esforços mostram que, no combate ao vício, seja ele o tabaco ou o álcool, a elevação dos preços parece ser uma grande aliada. Tais preços extremamente baixos facilitam muito o consumo em excesso destes produtos. No entanto, é claro que a questão não é tão simplória, e também não acaba aí.

Para começar, o simples aumento de preços pode gerar um mercado paralelo que vem junto também com uma rede organizada de práticas ilegais – seja visto o caso dos cigarros contrabandeados. Depois, segundo a legislação brasileira, tanto o produto comercializado por grandes conglomerados industriais quanto por minúsculos alambiqueiros artesanais de qualidade pode receber a mesma tributação – já que a lei não diferencia um de outro. Desconheço a existência de medidas de incentivo que possa haver para pequenos produtores de Cachaça (pode ser que elas existam), mas devemos ponderar que um aumento imediato na carga tributária sobre o setor tem grande possibilidade de prejudicá-los mais ainda – e, claro, mais do que aos fortalecidos produtores industriais. Por outro lado, também não é mentira que alguns produtores artesanais – geralmente de menor qualidade – vendem a bebida a granel a preços também bastante baixos. Portanto, a escalada de preços é necessária, mas a maneira como ela deve ser feita também é crucial. O primeiro passo, é claro, é tomar ciência do que vem acontecendo.

Depois, se observarmos, o problema do alcoolismo de um modo geral também tem razões comportamentais que carecem de mudança. Isso para não citar ainda os problemas sócio econômicos e psicológicos individuais, estes que são de mais complicada abordagem e eu deixo para os especialistas. Mas falo, por exemplo, de uma cultura ainda atual que espera ansiosamente seus 18 anos para poder “encher a cara”. É o jovem, que na formatura do colégio ganha uma garrafa de bebida alcoólica e, com isso, o aval dos pais para ter seu primeiro “porre” – o primeiro na frente deles, é claro. Parece ser mais permitido esse exagero dentro desse interlúdio chamado juventude (entre a “liberação” com os 18 anos, e o período de não-compromisso antes do primeiro emprego e das contas a pagar). E essa “permissão tácita”, ou esse “achar normal”, não vem só por parte da sociedade, mas, principalmente pelo próprio jovem de classe média que consome o álcool em excesso, e não vê aquilo como errado. A embriaguez, ao nos desprover de nossos próprios sentidos e consciência, traz a nós efeitos extremamente contrários ao papel do álcool consumido da maneira a que se serve: a de despertar nosso consciente para novas sensações.

E nesse cenário de excessos a Cachaça não é a única responsável, mas, por fatores como principalmente seu baixo preço, acaba infelizmente sendo grande protagonista. No entanto, nossa bebida tem tudo para ser um produto mais apreciado e apreciável, e cada vez mais distante desse universo do alcoolismo. Novas maneiras de consumo que valorizem suas qualidades sensoriais (e não meramente etílicas) devem ser discutidas e conhecidas e novas políticas de preço também podem ser elaboradas. Incentivar o conhecimento e a difusão de informação sobre a Cachaça Brasileira não é de maneira alguma incentivar seu aumento de consumo de forma indiscriminada, mas sim, mostrar às pessoas formas mais proveitosas e inteligentes de se saborear a bebida. Afinal, como diz sabiamente uma amiga minha, “Quem Aprecia, Não Exagera”.

P.S: As marcas dos produtos foram apagadas da NF original pois o intuito de sua presença aqui é apenas ilustrativo, e não queremos causar complicações para apenas algumas marcas em específico já que o exemplo é universal.

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  • Glener A. Barros
    maio 4, 2011 at 6:38 pm

    Boa noite Renato!

    Excelente questão!
    Muita Cachaça barata que só serve para denegrir o produto!
    Caninha a R$3,59? O selo de IPI das minhas duas cachaças valem mais que o preço final da caninha! O que mostra outra face problemática do segmento, os altos impostos.
    Não se faz produto de qualidade barato! Com raríssimas excessões, isto é incompatível!

    Um grande abraço!

    Diretor Geral da Règis Armmont.

  • Renato Figueiredo
    maio 6, 2011 at 6:41 pm

    É verdade Glener. Essa questão do custo para o pequeno produtor, desde a embalagem, impostos, registros, ainda é um grande problema pelo que muitos falam mesmo. E ver aguardentes sendo vendidos a preços tão ínfimos agrava ainda mais o cenário!
    Abraços!
    Renato.

  • […] de forma “moderada”. Essa relação, no entanto, é um pouco perigosa, como eu já escrevi aqui. Acho que tem hoje já algumas marcas bacanas,que, embora ainda não sejam um produto tão premium […]

  • Elitizar a Cachaça? | Mapa da Cachaça
    julho 27, 2011 at 3:46 pm

    […] dos próprios varejistas, disponibilizar tais produtos a tais preços. Veja um post sobre isso aqui. Mas ainda é possível ter Cachaças custando menos que a vodka ou o whisky, e, claro, ter também […]

  • […] diz que o vinho é muito mais inofensivo do que a Cachaça para aqueles que têm predisposição ao alcoolismo. Justamente por ser muito mais fraco do que a Cachaça, – e hoje ainda mais “glamouroso” –, […]

  • Alexandre
    dezembro 8, 2011 at 9:02 pm

    Falar de alcoolismo e cachaça, certamente é um tema polêmico. Como produtor, minha opinião pode até ser considerada “parcial” , mas vou colocá-la :

    1 – Não vejo alcoolatras com garrafas de Cachaça de Qualidade nas mãos.

    2 – O IPI “praticado” pelas marcas industriais é muito inferior ao IPI imposto aos produtores de cachaças de qualidade. Isso ainda sem entrarmos ainda no mérito da economia de escala que o volume propicia.

    3 – Eu mesmo, como proprietário de uma empresa produtora de bebidas alcoólicas, não terei dúvida em ajustar o meu preço para fora dessa faixa que favorece o consumo irresponsável.

    Temos que ter mais empresas produtoras rentáveis do que uma ou duas grandes empresas para atender todo um mercado. Isso é regra macro economica e devia ser observada pelo governo na hora de taxar com IPI elevado as cachaças de qualidade.

    Penso que o ideal seria reorganizar e equilibrar essas contas, para prover os produtores que desejam e praticam a produção da cachaça de qualidade de condições para continuar seu trabalho de valorizar a bebida nacional.

    Tem muito bom produtor precisando crescer e com isso diversificarmos o mercado, oferecendo um produto cada vez mais ligado as nossas tradições e com a qualidade necessária. Tenho certeza que os empregos multiplicarão e a cachaça será mais valorizada e entendida.

    Abram espaço para que as empresas produtoras de cachaça de qualidade cresçam. Será melhor para todos.

    Abraço!

  • […] de uma garrafa de aguardente industrializada barata custar mais cara que água mineral ou leite (veja o post). Se, a priori, para o consumidor desinformado, o ataque no bolso parece negativo, para a […]

  • […] E é isso que eu aposto, como disse antes (veja post anterior) que a aquisição de Ypióca pelo grupo Diageo pode trazer para o mundo da pinguinha industrial. Puxar a categoria para cima forçando assim um “aumento na qualidade do lanche”, e não apenas no lançamento de mais bistrôs. E este não deve ser só um movimento de Ypióca mas também de 51, Velho Barreiro, Pitu – toda a turma. É hora da Aguardente se conectar a novos “territórios”, trabalhar sua saída do universo do balcão, da negatividade; trabalhar de vez, por exemplo, para ser associada ao futebol; a comemoração; ao churrasco; à feijoada; à “comida”, enfim: à euforia. Em outras palavras: quando ouvirem a palavra “cachaça”, as pessoas têm que parar de pensar em bebedeira, no cara que vai para o bar beber até se embriagar; e começar a associá-la a momentos de comemoração sadia (e responsável), alegre, com um consumo mais positivo. Assim como a cerveja está associada à praia, aos amigos; ou a tequila às baladas, para os jovens. Para isto, é necessário investir em campanhas estratégicas para tirar a aguardente deste universo negativo presente no imaginário brasileiro, aproximando-a de idéias mais bacanas, e que tenham a ver com o consumo do produto. E claro, sempre com muita responsabilidade. (se quiser ler mais sobre a questão do alcoolismo, sugiro este outro post). […]

  • zambroza
    abril 23, 2013 at 1:44 pm

    Excelente artigo!!
    O problema do brasileiro é o imposto absurdo que se paga para comprar da água ao avião!
    E tudo isso para sustentar os “gordos salários” dos políticos brasileiros…

    Fala-se que a monarquia acabou no Brasil. É mentira! Ela ccontinua com nome de República somente, mas com os esccravos (com carteira profissional) que perdem 5 meses de trabalho somente para pagar impostos e com os nobres (políticos) brasileiros que tem uma vida de rei!

    Sou o responsável pela pinga pingo de minas.
    http://www.pingapingodeminas.blogspot.com.br

    abraços

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