Adão Cellia: pai, médico e produtor de cachaça - Mapa da Cachaça
Verallia

Adão Cellia: pai, médico e produtor de cachaça

08 de 08 de 2019

A história do médico Adão Cellia é daquelas que inspiram: de uma família de pequenos produtores, trabalhou duro, se formou médico e hoje está à frente da marca Princesa Isabel, que uniu toda a família no processo de uma das cachaças que mais se destacam no mercado; conheça essa trajetória.

Adão Cellia é capixaba, médico, marido apaixonado, pai de três filhos e há três anos fundou uma das marcas que mais tem inovado no mercado de cachaça, a premiada Princesa Isabel.

Adão Cellia junto com o filho, Pedro, que também herdou a paixão do pai por medicina e produção de cachaça

A fala mansa, aquele traquejo gostoso do Espírito Santo, não denuncia talvez o espírito laborioso de Adão, que está sempre pensando à frente. Após uma conversa rápida já dá pra entender a vontade que ele tem de estar envolvido em projetos audaciosos.

Da produção da cachaça em Linhares, na beira do Rio Doce, ao protagonismo em realizar o primeiro Salão e Congresso Brasileiro da Cachaça, Adão e suas realizações têm como objetivos ajudar o mercado da cachaça a vencer seus desafios.

Cachaça Princesa Isabel - Linhares - Espirito Santo

Fazenda Tupã, local de produção da cachaça Princesa Isabel

Do interior para ser médico em Vitória

Nascido na pequena cidade de Nova Venécia, no interior do Espírito Santo, Adão cresceu vendo os tios trabalharem em pequenas produções agrícolas, inclusive no cultivo de cana e produção de cachaça.

Com gosto pelos estudos, Adão lia muito e sempre se manteve fascinado pelas novidades. Ainda no colégio, se mudou para Vitória, junto com o irmão mais velho, para estudar e trabalhar em uma farmácia.

O jovem de família de descendentes de italianos encontrou nesse período sua vocação: a rotina da farmácia trouxe o interesse pela medicina. Queria ser médico.

Sem muita condição financeira, trabalhava de dia e estudava à noite para passar na Universidade Federal do Espírito Santo. Depois de formado, passou 4 anos no Rio de Janeiro para fazer a especialização em anestesia. Quando retornou para Vitória, continuou contribuindo para o crescimento do setor médico da capital capixaba.

O Rio Doce faz parte da beleza da fazenda Tupã, de Adão Cellia

A beleza estonteante do Rio Doce, que corta a fazenda Tupã, onde é produzida a cachaça Princesa Isabel

O médico cachaceiro

Você deve estar imaginando mais uma história de um profissional que se aposenta e busca no empreendedorismo alguma realização profissional, certo? Pois com Adão a história não seguiu esse curso.

Cellia ainda exerce a primeira profissão que escolheu com tanta dedicação, mas aquele menino que cresceu vendo os tios na produção de cachaça ainda tinha o sonho de ter o próprio alambique.

Com o dinheiro da venda de um hospital que era sócio, Adão comprou a Fazenda Tupã, às margens do Rio Doce, no interior do Espírito Santo.  Lá encontrou a inspiração para fazer uma cachaça que valorizasse a natureza local.

A cachaça Princesa Isabel nasceu com o sonho de Adão e com o comprometimento e incentivo da sua esposa, Isabel. Antes de destilarem os primeiros litros de cachaça, o casal mapeou os principais alambiques do Brasil e foram aprender sobre a diversidade e diferentes receitas de produção do destilado.

Adão e Isabel Cellia

Casal Adão e Isabel. Além de inspirar o nome da cachaça, Isabel é mais uma personalidade importante no mercado da cachaça de alambique.

Nas pesquisas, entraram em contato com pessoas importantes do segmento e assim foi que chamaram Leandro Marelli, um especialista na área da pesquisa e tecnologia no setor de bebidas, para ser o consultor da marca.

Inovação e tecnologia aliadas à natureza

A fazenda Tupã é um local inspirador e de uma natureza vibrante, que tange toda a identidade e inspiração que são entregues nas cachaças da Princesa Isabel.

Além de contar com Leandro Marelli na produção, Adão dá valor na qualidade daquilo que é essencial para qualquer coisa seja próspera: a natureza.

Adão Cellia, cachaceiro

“A cana é tão importante para a cachaça como a uva é para o vinho”

Do ponto de vista de investimento, Cellia garante que onde ele mais teve foco foi na qualidade da cana, para que ela fosse a mais saudável, natural e sustentável possível. Uma das práticas sustentáveis que trouxe para o plantio foi a pulverização da cana com essência de laranja como repelente. Adão bate firme que, assim como um bom vinho precisa de uma boa uva, uma boa cachaça também precisa de uma boa cana.

A produção da Princesa Isabel tem apego à valorização da terra. O bagaço da cana vira compostagem e volta para adubar o canavial, assim como o esterco do gado da fazenda. E, mais recentemente, implementaram um sistema de placas solares para dar autonomia energética ao alambique.

placas solares

 A força da natureza como aliada – as placas solares dão autonomia energética para produzir cachaça

Madeira exótica, o jatobá

Dentre as cachaças que mais chamam atenção pelo sabor ímpar, está a Princesa Isabel Sete Cores, que é armazenada em dornas de jaqueira. Mais uma vez, a inovação veio do olhar para a natureza e na busca por sustentabilidade.

Adão observou que a comunidade em torno do Rio Doce fazia de forma bem artesanal as cachacinhas armazenadas na jaqueira, madeira de origem asiática e muito presente no Brasil. Um dia, após uma enchente feia que abalou a região, uma jaqueira enorme caiu no rio. Junto com os funcionários da fazenda, a jaqueira foi recolhida e passou por um processo habilidoso até ficar pronta para ser cortada e transformada em dorna.

Linha das Cachaças Princesa Isabel

Os rótulos das cachaças da Princesa Isabel foram todos inspirados nas cores e nos pássaros que colorem o Rio Doce

Um empreendimento em família

Dizem que filho de peixe, peixinho é. Com perdão do clichê, mas o interessante é que talvez essa máxima realmente valha na família Cellia. O que nos garante uma nova geração de produtores comprometidos com marca familiar.

Os filhos de Adão são todos médicos. Pedro, que já contamos a história aqui, é cardiologista e pesquisa os benefícios da cachaça para o coração, Gabriela é médica anestesista igual ao pai e a Maria Clara está prestes a terminar o curso de medicina.

E não foi só para as biológicas que os filhos de Cellia seguiram carreira, todos também amam estar envolvidos na Princesa Isabel e contribuem com os pais para o crescimento da empresa.

Mercado e o futuro da cachaça no Brasil

O comprometimento com o mercado da cachaça vai muito além da produção. Em setembro de 2019, com protagonismo de Adão será realizado o primeiro Salão e Congresso da Cachaça. A proposta é criar uma rede de apoio aos produtores e criar um palco de debates sobre o mercado, onde pontos polêmicos serão abordados.

Salão de Negócios e Congresso Brasileiro da Cachaça

Nos dias 5 e 6 de setembro de 2019 acontece o 1º Salão de Negócios e Congresso Brasileiro da Cachaça

Segundo Cellia, será a oportunidade de expor ideias com outros produtores para ajudar o mercado e criar um manifesto nacional para colocar a cachaça em pauta.

Dentre os temas a serem debatidos, está o mercado de exportação de cachaça, que ainda precisa de uma atenção maior e mirar como inspiração o que o México fez com o mercado de tequila e mezcal, que hoje exporta bilhões de litros para o mundo inteiro.

De acordo com Adão, o mercado necessita de ajustes tanto da parte mercadológica, cultural e turística, pois a cachaça ainda é marginalizada no setor, onde a maioria das pessoas tem no imaginário, ou no primeiro contato com a bebida, o estigma de um destilado de qualidade ruim.

Mas mesmo com o tempo um pouco nebuloso, Cellia acredita que com um controle de qualidade e um trabalho bem feito pelas pessoas da área de educação o quadro do setor irá melhorar daqui algumas décadas.

Segundo o empreendedor, há uma crescente de um público consciente que já está pedindo uma cachaça e também bares e restaurantes que entendem o valor econômico, cultural e sensorial de servir uma boa pinguinha.

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