A venda da Ypióca e o futuro da Cachaça - Mapa da Cachaça
Verallia

A venda da Ypióca e o futuro da Cachaça

08 de 06 de 2012

Na semana passada foi anunciada a compra da Ypióca e toda sua estrutura operacional pela Diageo, multinacional detentora das marcas Smirnoff, Johnnie Walker, José Cuervo e Nêga Fulô. O valor, de quase R$1 bi, espantou muita gente. Mas não é para pouco: a aguardente da cana é o terceiro destilado mais consumido no mundo, e as 5 grandes destilarias do país – a [cachaca id=”3741″]Ypióca[/cachaca] dentre elas – são donas de quase todo este mercado.

Ypióca é comprada pela gigante Diageo, dona do whisky Johnnie Walker e vodca Smirnoff

O movimento ocorre em boa hora. O mercado de bebidas está de olho no Brasil: o whisky tem aqui seu melhor mercado mundial e maior crescimento nos últimos anos, a Tequila também vai muito bem, obrigado; e a Champagne e até o Vinho Verde estão de olho no bolso do brasileiro.

Se por um lado a aquisição traz excelentes novidades e benefícios para o mercado, por outro também me preocupa um pouco. A Diageo tem inegável competência de mercado, detendo a liderança mundial no segmentos de destilados. Não é difícil duvidar que ela não trará boas mudanças para o setor, principalmente – acredito eu – na linha das aguardentes industriais. É esperada uma valorização e desenvolvimento da qualidade – e da imagem – deste produto no país.

No entanto, justamente por ser dona da maior fatia do mercado de destilados é que eu me preocupo com suas ações. Não é de se esperar que seja de interesse da companhia valorizar a “caipirinha de verdade, feita com Cachaça”, como fez há algum tempo a [cachaca id=”3767″]51[/cachaca], a Sagatiba e a própria [cachaca id=”3741″]Ypióca[/cachaca] (veja mais neste post aqui). A vodka líder do mercado, muito usada neste e em outros drinks, é de propriedade da companhia de origem britânica. Tampouco acredito que seja de seu interesse divulgar o consumo da Cachaça com gelo – o que poderia conflitar com o consumo de whisky. Shots? A Tequila já está neste território.

Como valorizar então a Cachaça sem brigar com os territórios conquistados pelas outras bebidas? Há continentes inexplorados ou é necessário travar uma guerra? Se nos restar a última alternativa, ainda não temos exército suficiente para enfrentá-la. A saída é abrir novos horizontes e navegar além mar. Mas que terra de Colombo é esta que ainda temos a descobrir?

Será que a Ypióca vai conquistar o mercado da cachaça?

Ao meu ver, trata-se de mais um continente que está “debaixo de nosso narizes, mas a gente não viu”. É o saboroso mundo da gastronomia. A gastronomia, principalmente a brasileira, ainda não tem seu destilado favorito. Ou tem, mas as pessoas não o conhecem: a Cachaça. Se hoje a bebida que mais se aproxima do território da culinária é o vinho; pouco se associa ainda a boa Cachaça à boa mesa. No entanto, é ela uma das que melhores se articula com a gastronomia: antes da refeição, durante, depois ou NA própria refeição como ingrediente. São inúmeras suas possibilidades de sabor, e de casamento com pratos (veja algumas receitas com cachaça aqui no MdC)

Não precisa ser coisa elitista ou sofisticada: a Cachaça guarda a prerrogativa de ser mais despojada, mais natural, mais sem frescura e mais “da gente”. Ainda tem o grande e inexplorado potencial de casar muitíssimo bem com pratos e ingredientes locais, exclusivos do Brasil – e super saborosos. Como eu disse em meu livro, a Cachaça pode ser o grande canal para levar “mais Brasil à mesa dos brasileiros”.

E dessa conquista podemos participar todos: chefs, donas de casa, homens na cozinha, jornalistas, publicitários e, claro, quem sabe também as grandes companhias do setor. Não se trata de um esforço solitário. Acredito, portanto, que o casamento da Cachaça Premium com a GASTRONOMIA seja um interessante caminho, diante dos desafios apontados, para podermos valorizar nossa bebida nacional.

E a aguardente industrial?

Mas peraí, a história ainda não acabou. Tudo bem, valorizar a Cachaça artesanal através da gastronomia pode ser uma boa ideia, mas a aguardente industrial, que é o assunto da semana, como fica?

Embora sejam produtos parecidos, eles têm suas diferenças de público e de sabor (veja mais nesta série de posts). A aguardente industrial deve seguir na esteira da Cachaça Premium, mas com atenção especial a outra “concorrente”: a cerveja. Outra bebida que está constantemente associada à comida é a cerveja. Cerveja no churrasco, cerveja no almoço de domingo, cerveja até na feijoada. É claro que a cerveja é mais leve que a Cachaça, e favorita daqueles que preferem ingerir o álcool aos pouquinhos (mas não em menor quantidade). Mas para outros, ela “empapuça”, engorda, não cai bem com a comida e desce mal quando esquenta. A Aguardente de Qualidade, além de mais barata se comparada ao volume equivalente de álcool na cerveja, também pode ser mais fácil na “logística” destes eventos (menos garrafas para carregar ou colocar para gelar, p. ex.).

Não estou falando aqui de sugerir o aumento do consumo de álcool em volume, mas sim de sugerir a associação da Cachaça a estes momentos de comemoração; à festividade. Creio que aproximar a Cachaça deste território seja uma estratégia a ser levada em consideração. É hora de mudar a imagem da cachaça como a bebida do cara que “encosta a barriga no balcão para beber” para uma bebida de celebração. Assim, quem sabe, teremos cada vez mais motivos para comemerar.

Um abraço e até o próximo post!

 

Fotos: divulgação e Tiago Faustino, usuário Flickr, aplicada sob licença creative commons.

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PUBLICADO POR:

Comentários

  1. Alexandre

    junho 8, 2012

    Oi Renato. Belo post.
    Vejo com bons olhos a aquisição da Diageo. Estão mirando Brasil, que tem um mercado consumidor grande. E vão bater pesado na Pirassununga (que vai ter mais problema além dos familiares já existentes), Pitú e Velho Barreiro.
    Esses têm que se cuidar.
    Espaço pra Cachaça artesanal? Não só vai sempre existir, como será ampliado com o rebuliço que a Diageo vai fazer.
    E vão promover a Cachaça no mercado externo também como fizeram com a Tequila.
    O público, não só o brasileiro, quer novidade e vai sair do Brasil falando de Cachaça depois de Copa do Mundo e Olímpiadas.
    E o seu Everardo Telles ainda está com uma boa grana no bolso para começar tudo de novo. Criar uma outra Cachaça…
    Abraços,
    Alexandre.

  2. Maurício Maia

    junho 8, 2012

    Renato,
    excelente analise, mas o movimento do mercado não me preocupa, pelo simples motivo de que ele está em movimento. Pior seria se estivesse estagnado.
    Coloco alguns pontos que devemos considerar: a Diageo não é novata no mercado da cachaça, ela já detém a anos a marca Nêga Fulô. E faz um bom trabalho com ela.
    A Diageo está de olho na penetração que a Ypioca tem no Nordeste. Exceto algas capitais, é um mercado difícil para eles e a maquina de distribuição da Ypioca na região vai ser adianto para eles.
    Outro ponto é a forma de pensar a venda da cachaça. O mercado esta acostumado a vender a cachaça por dose, como você disse, para o camarada que encosta a barriga no balcão, e o grande know-how da Diageo é a venda de destilados a litro, ou seja, por garrafa, ou seja, um upgrade para a nossa branquinha.
    Imagina só entrar em um desse bares chics dos jardins e ver a parede forrada de garrafas de cachaça.
    Abraço.

  3. Fernando Carvalho

    junho 11, 2012

    Penso que o movimento seria outro: Sim em estar a Diageo na camada social que mais crescera , a Classe C.. até 2020, cerca de 54% da população Brasileira será desta faixa sócio-econômica,
    Pelo que sei ,o portfólio da Diageo não contempla um produto com apelo popular e de origem tão intimista na cultura brasileira do que a cachaça, que fala e “flui” com certeza neste pulico…
    Lembrando que a a cervejaria Heineken deseja estar presente neste mesmo publico -alvo: Classe C…

  4. Jean

    junho 17, 2012

    Renato, a divulgação é importante, sobretudo por se tratar de uma multinacional, nesse sentido a divulgação da cachaça deve aumentar e com certeza vai melhorar cada vez mais a procura e qualidade fazendo surgir até novos produtores como em qualquer negócio.

    Abraços.

  5. […] questões que comentei já no último post, quando da aquisição da Ypióca pelo grupo Diageo (veja aqui).Para começar, quem disse que Cachaça envelhecida, antes de ter sido colocada em um tonel de […]

  6. […] Uísque Johnnie Walker. A cachaça Ypióca se prepara para conquistar o Mundo.A matéria fala sobre a aquisição da Ypióca pela Diageo em junho passado.  RevistaVIP_capa Stephannie Oliveira, filha do jogador de futebol Bebeto […]

  7. jose

    março 18, 2016

    É verdade que a Diageo está negociando a Ypióca com a Cervejaria Corono do México?

  8. Mapa da Cachaça

    março 22, 2016

    José, não sabíamos dessa notícia. Se soubermos de algo, vamos publicar algo por aqui. grande abraço

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