A Indicação Geográfica na Cachaça - Mapa da Cachaça
Verallia

A Indicação Geográfica na Cachaça

15 de 02 de 2012

A Indicação Geográfica da Cachaça

foto: usuário flickr thejourney1972 publicada sob licença creative commons.

Tudo começou com uma grande ameaça: a produção do novo mundo do vinho, em maior escala, que começava a competir com a produção artesanal francesa. A fim de proteger seu legado e o valor de sua produção, a França estabeleceu as primeiras “Denominações de Origem Controladas” (A.O.C, em Francês). Estas “DOC” delimitavam que o vinho de determinadas regiões (Bordeaux, Pessác-Leognan, Champagne, etc) precisava seguir algumas regras e, claro, ser produzido apenas ali para levar o título (vinho de Bordeaux, vinho espumante de Champagne, etc). Foi isto também que fez a Tequila: ou seja, para ser chamado de “Tequila”, a aguardente mexicana precisa ser produzida na região com mesmo nome e seguir algumas normas de qualidade. E na Cachaça, como isso funciona?

No Brasil, temos várias regiões muito famosas. Mas apenas Paraty (RJ) já tem o selo de Indicação Geográfica garantido e já implantado.

Selo de Indicação Geográfica de Paraty

Minas Gerais (todo o estado), Salinas (M.G) e Sul do país já teriam exemplares suficientes para se constituírem como região, mas ainda não o fizeram. Salinas já entrou com o pedido, mas ainda está em trâmite. A novidade é a região de Abaíra, na Bahia, que acabou de realizar o pedido de registro. Afora a estratégia de fazer frente à produção de outras regiões, o selo de indicação geográfica funciona como uma espécie de “patente” (ele é, inclusive, controlado pelo INPI, órgão responsável pelo registro e controle da Propriedade Intelectual no Brasil). Desta forma, o selo é merecido apenas por garrafas que seguem um determinado padrão de qualidade, o que impede os famosos “espertinhos” de produzirem Cachaças de inferior qualidade e aproveitarem-se da fama das regiões famosas para vender. Há, infelizmente, milhares de exemplos desta prática, por isso é tão importante o estabelecimento do selo e das regras.

Mas o que cada uma destas regiões têm de especial? Será o solo, o clima e as famosas peculiaridades do chamado “terroir”, como inteligentemente defendeu-se na França? Acho que a Cachaça é diferente. Falar que todos estes fatores geográficos e climáticos de um lugar é melhor que o de outro não é tão expressivo para a Cachaça quanto foi para o vinho. Sim, faz parte e pode fazer alguma diferença. Mas se lembramos que o Brasil colônia teve cana boa para todo lado, perde-se um pouco esse argumento. Tem cana boa no Nordeste, tem cana ótima no interior de São Paulo. Tem Cachaça boa em Minas, tem tão boa quanto no Sul. Em resumo: tem cana pra Cachaça de qualidade em tudo quanto é lugar. O que não tem, é claro, é cuidado, sabedoria, cultura e técnica para produzir Cachaça. Isso, amigo, não se copia mesmo!

Talvez vai ter gente que vai ficar um pouco brava comigo, principalmente quem clama pelo solo especial de Salinas e outras regiões para produção da cana (sugiro que você leia também meu post sobre o “Terroir na Cachaça“). Eu não discordo que ele exista, e que faça sim, alguma diferença na maturação, brix, e demais características da cana. Mas acho que, no caso de Salinas e de outras regiões, essas características são muito menos importantes do que a história, a cultura, a técnica, e os costumes envolvidos na criação diária da preciosa. Há que se falar, ao meu ver, das peculiaridades de cada lugar: seja o primoroso envelhecimento em Bálsamo de Salinas, a tradição saborosa mineira, a herança histórica de Paraty, a influência européia nas Cachaças do Sul… Enfim, estes são apenas alguns exemplos; cada região tem seu diferencial, e é neles que devemos trabalhar primeiro – não tanto nessas características de solo, clima, etc: todas elas tão intangíveis para o consumidor final, que não é técnico na bebida.

É claro que uma série de regras para produção de qualidade, a exemplo do vinho, devem ser respeitadas, tais como: utilização da cana em períodos não superiores a 24h depois de cortada, fermentação natural sem agentes “catalizadores químicos” (apenas nutrientes reguladores), normas de envelhecimento e padronização da Cachaça plenamente acordadas e cumpridas e enfim: uma série de outros detalhes. Para garanti-los no entanto, é necessário apoio governamental, em termos de organização, financiamento e incentivo – pois não é, de forma alguma, tarefa fácil cumprir tudo isto sozinho. Outra alternativa paralela é a organização em associações, sejam elas formais ou apenas como apoio mútuo entre produtores de uma região – assunto que urge discutirmos mais por aqui, aliás.

Nesse aspecto, há que se parabenizar os produtores do Sul do Brasil, que, como região e como “associação”, tem apresentado profissionalismo em Cachaças de excelente qualidade. Presentes em feiras, interessados em debates técnicos, e cada vez mais despontando em concursos, essa região tem tudo para ser a próxima a receber a atenção dos amantes da caninha. Fica um aviso para as outras não perderem esse bonde! Há muito espaço para todo mundo crescer junto na Cachaça, ah, como há! Não quero ser injusto também com ninguém, é claro que há Cachaças muito boas sendo feitas aí, por todo o Brasil; com exemplares na Bahia, no Espírito Santo, em Pernambuco, no Rio Grande do Norte, em Goiás… Enfim! Tem caninha para todo lado! Mas sabendo valorizar as peculiaridades de cada uma, todas vão ter seu espaço garantido na grande estante da Cachaça.

 

P.S: Para você que se interessou pelo assunto de Indicação Geográfica, eu conto muito mais sobre isto no meu livro “De Marvada a Bendita”, publicado pela editora Matrix. Dê uma olhada!

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PUBLICADO POR:

Comentários

  1. Felipe

    fevereiro 16, 2012

    Oi Renato. Muito bom o texto. É legal sabermos que temos, assim como o vinho e o tequila, um selo de identificação geográfica pra cachaça. Eu acho interessante também valorizarmos a questão do terroir e usarmos isso como elemento de distinção entre as cachaças. Afinal, o que irá distinguir uma cachaça de Paraty e uma cachaça de Salinas? Para o uso do selo não seria necessária uma distinção, uma característica específica de cada região produtora, elementos que definem uma cachaça de região X ou Y. Acho isso riquíssimo e poderá criar padrões de qualidade para diferentes regiões de produção. O que acha?

  2. Matheus

    fevereiro 16, 2012

    Além das regiões citadas tem também o Triângulo da Cachaça. Eu não sei direito, mas parece que é uma região entre três grandes bacias hidrográficas. O pessoal aqui já ouviu falar?

  3. Mapa da Cachaça

    fevereiro 18, 2012

    Oi Matheus, não conhecemos o Triângulo da Cachaça. Conte mais. Onde fica?

  4. […] naquela bebida. O que eu vou discutir aqui, continuando a discussão da semana passada (neste post), é como devemos lidar com este conceito para o caso da Cachaça.Como falei antes, tudo começou […]

  5. Renato Figueiredo

    fevereiro 29, 2012

    Oi, Felipe!

    Obrigado pelo seu comentário. Para quem está acompanhando o diálogo, acho que é um exemplo de que, mesmo aqui dentro do MdC, temos espaço para troca sadia de ideias.
    Eu entendo seu ponto, e, pensando nele e no comentário de outros leitores, escrevi o post de hoje (“Terroir na Cachaça” http://mapadacachaca.com.br/blog/o-terroir-na-cachaca/), tentando me fazer mais claro. Depois que você o ver, me dê sua opinião e vamos continuar o debate.
    Concordo que “terroir” e solo sejam importantes, mas acho que devem ser menos expressivos do que são para o vinho. E, como você disse, o selo de IG não depende exclusivamente dele.

    Forte Abraço! Renato.

  6. Renato Figueiredo

    fevereiro 29, 2012

    Caro Matheus,

    Obrigado pelo seu comentário. Eu não conheço o “Triângulo da Cachaça”, apenas o triângulo mineiro. Queria saber mais, se puder nos contar.
    Várias outras regiões merecem destaque também. Tem associações fortes trabalhando em Pernambuco, tem um crescimento de marcas em Monte Alegre do Sul, tem regiões pontuais produzindo Cachaças premiadas e muito mais.
    Nem sempre “cabe” falar de todas em todo post. Mas prometo estar atento a todas estas regiões; sem querer favorecer uma ou outra e agradeço comentários como o seu!

    Abraço,
    Renato Figueiredo.

  7. Carlos F Gomes

    março 13, 2012

    Permita-me lembrar de um detalhe sobre a origem da cachaça, que foi lá pelos lados de Diamantina, na época áurea do ouro e dos diamantes nas serras do Espinhaço.
    Os escravos foram os primeiros a produzirem a cachaça por um fato curioso e inesperado, estavam eles fazendo rapadura com o tacho no fogo cheio de caldo de cana, sempre mexendo com uma pá de madeira,e que por algum motivo tiveram que parar e então retiraram o tacho do fogo, deixando de lado por alguns dias. Após algum tempo, voltaram com o tacho ao fogo e logo começaram a notar uma espuma branca que borbulhava e evaporava e este vapor subia até a cobertura onde condensava e caia em gotas. Ao cair nas mãos dos escravos eles lambiam e gostavam e diziam , “pinga” boa e como eles tinham sempre as costa feridas pelas chicotadas, quando ali caia uma gota eles dizima “ água ardente “.
    Consta ser esta historia a origem da cachaça e seus diversos nomes, sendo os mais comuns a pinga e aguardente
    Agora é só conferir .
    Gostaria de saber masi sobre as origem da cachaça, pois cosnta que alguns dizem que foi na regiãode São Vicente , em SP, mas acho a mair provavel que tenha sido nas senzalas
    e naturalmente na região de Diamantina.
    Vamso conferir?
    Carlos

  8. […] pode ser utilizada por um produtor daquela região, se ele seguir aqueles determinados padrões (saiba mais neste post aqui). Minas Gerais ainda não tem esse selo para a Cachaça, mas a branquinha é tão ou mais famosa […]

  9. António

    maio 24, 2012

    Tudo certo, com muita propriedade, com um pequeno pormenor: a primeira zona demarcada de vinho foi estabelecida pelo Marquês de Pombal em Portugal, relativamente ao que hoje se chama “Vinho do Porto “.

  10. Eduardo Sabino

    fevereiro 18, 2015

    Você está correto.

  11. […] de Salinas e abre as portas para os Estados Unidos e, principalmente, para a Europa”.Salinas é a segunda região brasileira reconhecida oficialmente pelo INPI como indicação de procedência para produção de cachaça. A primeira foi Paraty, no Estado do […]

  12. SECRETARIA DO TURISMO

    julho 20, 2012

    FESTIVAL DA CACHAÇA,CULTURA E SABORES
    30 anos
    DIAS: 16 A 19 DE AGOSTO DE 2012.
    EM PARATY (RJ)
    PS: já tem o selo de Indicação Geográfica garantido e já implantado.

  13. […] comidas típicas do local.As cachaças de Paraty e de Salinas são as únicas do Brasil a receber a indicação de procedência pelo INPI, comprovando suas qualidades e estimulando as vendas no mercado brasileiro e internacional. A […]

  14. […] sair de São Paulo rumo à Paraty, cidade sinônimo de cachaça, que junto com Salinas detém o selo de Indicação Geográf…, ou seja, a produção é controlada e leva um carimbo de qualidade atestando sua procedência. Em […]

  15. […] Muitas vezes, há grandes chances de produtos de regiões já famosas (como Paraty e Salinas, etc.) serem muito bons. Mas infelizmente há produtores que se aproveitam desta fama e oferecem um produto que deixa a desejar. Por isto ainda não dá para confiar, de olhos fechados, em qualquer marca desses locais. Para evitar comprar cachaça ruim, seria necessário controlar a “denominação de origem”, ou seja: atestar que toda produção de uma região famosa seja feita dentro de padrões de qualidade específicos. É isso que acontece com o vinho, através da chamada D.O.C (Denominação de Origem Controlada, ou “A.O.C”, em francês), ou mesmo com a Tequila. Aqui no Brasil, estes selos ainda estão em processo de implantação. Paraty é a primeira região a empregar a Indicação Geográfica da Cachaça! […]

  16. JOÃO MADEIRA CAMPOS

    setembro 30, 2014

    Sou um recente produtor de “Cachaça de Qualidade”e me interesso por tudo que se publica na produção desta bebida que está entre os destilados mais importantes do mundo. Produzo no estado de Goiás que tem clima e solo semelhante ao de Salinas com a vantagem de chover mais no período das chuvas. Durante a estiagem, que vai de maio a outubro, nosso Brix fica em torno de 22 a 24 º.
    Gostaria de saber qual os limites da região denominada “Triângulo da Cachaça”.

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