cachaças Maria Izabel Laranjinha Celeste 

A cachaça composta azulada é marca registrada de Paraty com mais de 150 anos de produção, mas desde o início do século os produtores resistem a mudanças regulamentares que decretaram o fim de uma tradição. 

Pensar na história da humanidade passa inevitavelmente por pensar na história das bebidas e, em Paraty (RJ), a cachaça é parte inseparável da alimentação e das relações sociais que moldaram a região e o país. Entre os muitos tesouros culturais e históricos deste paraíso praiano está uma cachaça composta, marca registrada da cidade, que se destaca por seu tom azul-celeste quando colocada contra a luz. Cor do céu em dia ensolarado. 

É a Laranjinha Celeste! 

Esse é apenas um dos apelidos da cachaça composta azulada e o mais antigo de que se tem registro. A bebida adquire a tonalidade celeste de forma natural ao ser destilada com a adição um “travesseiro” feito de folhas de mexerica dentro do alambique. 

Tradição de família

Atualmente, a marca Laranjinha Celeste é usada pela Cachaça Maria Izabel, produzida no sítio Santo Antônio, em Paraty. A produção e exportação da bebida era uma tradição na família de Maria Izabel Gibrail Costa pelo lado paterno, retomada em 1996 pela produtora, após meio século parada.

A produtora aprendeu a arte da destilação com Pedro Peroca, filho do velho Peroca da Fazenda do Fundão, um importante produtor de cachaças de Paraty, cujo pai ficou famoso depois de ganhar a medalha de melhor cachaça do Brasil na Exposição Nacional de 1908, no Rio de Janeiro, com a cachaça azulada do Peroca.

Mas todo alambique de Paraty também possui sua versão tradicional da Azuladinha. A cachaça composta com folhas de tangerina está tão enraizada na cultura e história de Paraty que foi catalogada como Indicação Geográfica da cidade, no registro da primeira Indicação de Procedência de cachaças do Brasil.

Leia Mais: A Indicação Geográfica da cachaça de Paraty.

“O nome antigo Laranjinha Celeste vem da laranjeira, a origem dessa cachaça, e o celeste traz a questão da cor azulada, característica dela. Recentemente tornou-se mais usual o nome de cachaça azulada ou azuladinha, simplesmente”, conta Lúcio Gama Freire, produtor da Cachaça Pedra Branca e co-autor do recém-lançado livro “Mucungo: A história da cachaça em Paraty”.

Saiba mais sobre o livro “Mucungo: A história da cachaça em Paraty” aqui.

Como é feita a cachaça azulada?

A receita produzida pelos engenhos locais desde os tempos coloniais leva folhas de uma espécie caipira de mexerica na destilação, também chamada de mexerica mimosa ou de cheiro, tão perfumada que denuncia quem colhe os frutos verdes sem o consentimento dos donos.  

O resultado é uma cachaça jovem e aromática que remete no olfato e paladar ao frutado cítrico das tangerinas, sem ser enjoativa. Tão rica sensorialmente quanto encantadora de se olhar brilhando no copo.

A cachaça azulada é um elemento de identidade de Paraty que se espalhou por outras partes do país. Foi citada em “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, uma das mais importantes obras da literatura brasileira:

E figura entre as centenas de nomes dados à cachaça, presente nos dicionários e em praticamente todo livro sobre o destilado brasileiro que apresenta uma lista de sinônimos, nos quais ganha outras formas como azulzinha, azulina e azulosa. 

“Tudo em mais paz, me ofereceram: bebi da januária azulosa – um gole me foi; cachaça muito nomeada. Aquela noite, dormi conseguintemente”

Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas

A origem da Laranjinha Celeste

O termo Laranjinha Celeste remonta ao século 19, mas assim como a história do destilado brasileiro, essa cachaça composta não tem certidão de nascimento definida. O documento mais antigo, datado de 1866, destaca o envio de 28 garrafões de aguardente Laranjinha Celeste e sete pipas de aguardente branca para Portugal, mostrando que havia diferença entre as duas. Mas acredita-se que a bebida já era produzida na região pelo menos um século antes.

Há quem afirme por aí que o destilado foi criado especialmente para atender aos gostos do Imperador. Apesar da produção datar de um período próximo à vinda da família real para o Brasil, em 1808, não há nenhum documento que comprove essa versão.

“Conhecendo e pesquisando, inclusive para o levantamento do livro sobre a história da cachaça em Paraty, a gente vê que é muito pouco provável que a cachaça azulada tenha sido desenvolvida em outra região do país. Paraty é a cidade que tem os registros mais antigos não só da produção, como do envio da aguardente azulada para a Europa”, diz Lúcio Gama Freire.

carta antiga escrita a mão onde consta a menção a exportação de Laranjinha Celeste

A carta mais antiga que cita a Laranjinha Celeste é de um representante comercial dos ancestrais portugueses de Maria Izabel. O documento estava guardado na casa de uma tia paterna e por muito pouco não foi parar no lixo, após a morte da proprietária, durante uma limpeza para a venda do imóvel.

“Essas memórias estavam no chão para serem jogadas fora. Eu peguei tudo, pois sou muito ligada à minha ancestralidade, guardei e fui vendo esses papéis de família com calma. Tinha até o pedido de namoro do meu tataravô à minha tataravó do início dos anos de 1700; outras cartas falam da produção de aguardente da família na mesma época”. 

Em Paraty também se produzia a laranjinha, com flores de laranjeira. No livro “Mucungo: A História da Cachaça em Paraty”, são citados outros documentos de 1896 e 1897 que trazem o registro de cargas do porto de Paraty para o Rio de Janeiro, as quais incluem o envio de garrafões de “Laranjinha”, sem o complemento celeste.

Para Maria Izabel, a Laranjinha não se tratava da mesma cachaça chamada de Laranjinha Celeste, pois não ganhava o tom azulado na destilação, se mantendo visualmente muito parecida às cachaças brancas. Esse é um dos indícios que levam a acreditar que a Laranjinha Celeste citada no documento histórico era mais semelhante à receita atual da azuladinha de Paraty que leva folhas de mexerica (e não de laranja) na receita. 

Lúcio Gama Freire conta que além das folhas, uma outra receita usada em Paraty aplicava as flores da tangerina para a produção da cachaça azulada, porém, essa prática deixou de ser comum por dois principais motivos: primeiro, a destilação da aguardente especial ficava condicionada apenas ao curto período de floração das tangerinas, e segundo, porque ao colher as flores,  a produção de frutas era severamente comprometida. 

Resistir para manter a tradição 

A cachaça e aguardente composta azulada está catalogada como Indicação de Procedência de Paraty, com registro concedido à Associação de Produtores e Amigos da Cachaça Artesanal de Paraty (APACAP) pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) desde 2007. 

No entanto, ela não pode ser comercializada fora dos alambiques, pois deixou de ser registrada pelo Ministério da Agricultura (MAPA) pouco tempo depois. O motivo alegado foi a ausência das folhas da tangerina no caderno de especificações da ANVISA que informa quais frutas, ervas ou plantas podem ser utilizadas na composição de bebidas.

Alguns alambiques que tiveram o registro aprovado antes da mudança ainda continuaram comercializando a cachaça composta azulada de forma legal até o fim da vigência da documentação, porém, hoje, ninguém mais consegue uma nova autorização. A produção, embora reduzida, não parou. Um risco assumido pelos produtores para não deixar morrer a tradição.

Para salvar a cachaça composta azulada da extinção, a APACAP iniciou, há cerca de uma década e com o apoio de pesquisadores universitários e do SEBRAE, um longo estudo com rigor científico. Na pesquisa, foram colhidas amostras das folhas de mexerica usadas no preparo e das cachaças prontas dos alambiques locais para determinar a composição do destilado. 

Os resultados mostraram que a forma como a cachaça azulada é produzida em Paraty não extrai das folhas da tangerina nenhum elemento em quantidade que possa ser prejudicial à saúde humana, ao contrário, o produto além de apto para o consumo ainda apresenta propriedades benéficas ligadas ao óleo essencial de citrus.  

“Vamos recorrer à ANVISA e ao MAPA para provar que a cachaça azulada, não só é um produto cultural, histórico e tradicional de Paraty, como não apresenta nenhum problema de toxicidade para o consumo humano. Entendemos que não existe nenhum impedimento ao retorno dos registros, além de burocracia”, finaliza Freire.

Referências: 

Leão, Flávio; Freire, Lúcio G. Mucungo: A história da cachaça em Paraty. Paraty (RJ), Ed. Autor, 2021.

Câmara, Marcelo. Cachaça: prazer Brasileiro. Rio de Janeiro, Mauad, 2004.

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Ana Paula Palazi

Ana Paula Palazi

Jornalista, repórter, especialista em jornalismo científico e cachaceira. Atualmente, misturando comunicação, cachaça e percepção pública da C&T num mestrado pela Unicamp

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  • Mariza Cândida de souza
    fevereiro 8, 2022 at 9:02 pm

    Olá gostaria de comprar esses cubinhos de madeira,dadinhos de madeira 1kg sem tosta,como devo fazer pra comprar??

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