Ao falar de Cachaça, em termos gráficos, de embalagem e de visual, o que costuma vir à mente é um visual mais rústico, do interior e não muito sofisticado. De fato, milhares de rótulos antigos tem uma riqueza gráfica – uma imensidão de histórias que se pode contar a partir deles próprios. Parte dessas histórias foram reunidas na exposição Rótulos de Cachaça, que aconteceu no início desse ano de 2011 no Instituto Thomie Ohtake, em São Paulo . Como disseram os palestrantes na ocasião de lançamento da expo, “há muita coisa nova que nem se compara – em termos de riqueza gráfica – ao que vem sendo feito atualmente no ramo da Cachaça”. De fato. Os rótulos empobreceram, não contam mais com ilustração e o trabalho tipográfico se limitou a “escolher a fonte mais bonita do computador”. Uma pena.

No entanto, há uma “nova vertente” do trabalho gráfico com a Cachaça que vem sendo criticada por alguns publicitários (a maioria dos meus amigos, inclusive!), mas que merece nossa atenção. Estou falando das Cachaças que começaram a ter uma linguagem mais próxima do público jovem e conectada com o mercado.

Embalagem da Sagatiba mais perto do público jovem

Para muitos dos meus amigos, algumas dessas Cachaças começaram a copiar a “linguagem” da vodka. Garrafa transparente, alongada; ausência de alguns ícones mais rurais e interioranos, esses tão comuns à Cachaça. Mas eu, para infortúnio de nossa amizade, discordo um pouco.

cachaça mais perto do público jovem com designs modernos

Apesar de estar numa profissão que, por convenção, tem profissionais que “não vão para o céu” (brincadeira), já que é o ápice do consumismo capitalista (mas não necessariamente, né?), tenho a felicidade de conviver com publicitários que acreditam que um trabalho bem feito deve respeitar a essência das coisas, da cultura e das pessoas, acima das imposições de mercado. É nessa esteira que, para meus amigos, negar a essência da Cachaça para ficar mais parecido com a categoria que vende mais – a vodka -, seria uma estratégia pouco louvável. Mas vamos com calma, pessoal.

A vodka é uma categoria cuja maior parte dos ícones gráficos remete a universos bem distantes do da Cachaça. São as insígnias “russas”, de “nobreza”, do gelo, do frio. Águias, dragões. Seres que não tem nada a ver com Brasil. E copiar isso – “ainda” – ninguém fez. Acontece que a vodka, por ser uma bebida que se diferencia menos em “sabor” do que em “qualidade” e “pureza” do álcool– é mais difícil de ser posicionada no mercado. Portanto ela precisa investir forte em publicidade para poder fazer a sua marca. Temos aí vários exemplos de publicidade/design no mundo da vodka: Skyy e sua garrafa azul, Absolut, Grey Goose, Cîroc e outras. Cada uma tem seu claim e reason to believe (a Cîroc é boa pois vem de uva, a Grey Goose é ultra Premium e engarrafada em Cognac, e por aí vai), mas todas seriam marcas muito menores sem a publicidade e o design para se vender. E Publicidade e Design são, QUASE por natureza, jovens e modernos.

Por isso, quando a Cachaça utiliza as mesmas estratégias publicitárias para se vender, sim, ela fica parecida com a vodka, ou com qualquer outra categoria que se utilize desses artifícios de maneiras nobres para enriquecer seu produto, e se apresentarem com o valor e cuidado que realmente merecem. Nas marcas que citei aqui, eu, pessoalmente, vejo interessantíssimos trabalhos de marca, e que foram capazes de começar a reverter aquele cenário de preconceito tão atrelado à Cachaça. Pedir uma caipirinha com alguma dessas marcas passou a ser uma coisa diferente, principalmente para o público mais jovem. E, na minha opinião, os novos “ícones gráficos” que elas vem trazendo em suas campanhas são muito interessantes, e podem ser o início de uma nova “cara” para a Cachaça.

Assim como elas, há também belos e menos conhecidos trabalhos de publicidade/Design e que podem ser elencados como trabalhos que conseguiram inserir bastante o vernacular e o cultural. Dêem uma olhada no rótulo da Maria Izabel, feita pelo ilustrador Jeff Fisher:

design do rótulo da Maria Izabel atrai o público jovem

… da Cachaça Moleca:

Cachaça Moleca tem design que atrai o público jovem

E da CanaRio:

Garrafa de cachaça Canaria - design para o público jovem

Bacanas, não? Todos jovens, modernos, que respeitam o consumidor e que, sim, falam a língua de quem mais consome caipirinha por aí. A pena – e teria que haver uma “pena” – é que a maior parte desses produtos e de outros que também apresentam bons trabalhos de design só são vendidos lá fora. Quando é que, aqui no Brasil, vamos ter um bom trabalho de design disponível no mercado também? É hora de olharmos para a nossa Cachaça com novos olhos.

 

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  • Adwalter
    maio 11, 2011 at 3:52 pm

    Minha cachaça foi a segunda no Brasil a utilizar disgner em seus rótulos e
    garrafas.

    • mapadacachaca
      maio 12, 2011 at 8:28 am

      Olá Adwalter. Que interessante. Como chama a sua cachaça?

  • Paulo Cezar R Braga
    maio 11, 2011 at 7:26 pm

    Renato,
    Parabéns por outro ótimo texto. Como é bom saber que há pessoas pensando a cachaça de forma séria no Brasil.
    Creio que os rótulos mais modernos, como o da Leblon e o da Sagatiba, servem bem para as casas noturnas e para o público mais jovem. Talvez até para a exportação. Nesses casos, associar modernidade e design ao produto é fundamental.
    No entanto, faço parte dos conservadores. Quando um amigo foi escolher uma cachaça estes dias lá em casa apontou para a Lua Cheia e disse:
    -Quero aquela li, deve ser boa, tem cara de cachaça!
    Os rótulos mais rústicos, para mim, fazem parte do universo cultural da cachaça e já estão no imaginário popular.
    Vale lembrar que a tequila conquistou sucesso mundial sem deixar de lado suas garrafas espalhafatosas!
    Abraço!

  • renato
    maio 12, 2011 at 11:17 am

    Olá Paulo!
    Obrigado pelo comentário e por acompanhar a coluna!
    Você tem razão, exato, cada cachaça para seu público. E ainda há outras que não citei aqui, e que poderiam estar na lista também – mas é uma pena que a maioria não está disponível no mercado nacional!
    Como publicitário, preciso dizer que o público “jovem” e, mais do que o público em si, o “espírito jovem” deve estar na Cachaça se ela quiser também “assumir” um espaço que É DELA dentro do consumo alcoolico que fazemos hoje – baladas, restaurantes, etc. Ao meu ver, a Cachaça hoje ainda é muito “pontual”, principalmente para quem bebe álcool, mas não bebe Cachaça: fica sendo aquela coisa da viagem ao interior, a visita ao amigo que gosta de Cachaça ou uma ocasião ou outra… Eu acho que a Cachaça pode estar mais presente como outra opção para os consumidores de outros alcoois. E para isso, vejo que uma “nova cara para ela” é, TAMBÉM, fundamental.
    Agora, quanto àqueles que sempre souberam o que era bom, como você e seu amigo, aí sim, acho que valorizar e curtir a embalagem tradicional da Cachaça é super genuíno, e deve ser valorizado também! Afinal, como eu disse no post, tem muuuita riqueza aí!
    Um abraço!
    Renato.

  • renato
    maio 12, 2011 at 11:19 am

    Adwalter,
    estou impressionado com a profusão de rótulos e embalagens de sua Cachaça! Que bacana!
    As fotos do site (http://www.cachacasantaterezinha.com.br/) são um pouco pequenas, e não consegui ver muito bem se todas tem o mesmo nome. Tem?
    São todas suas?
    Abraços,
    Renato.
    P.S: Fica aí no site do Adwalter um exemplo da riqueza e variedade de Cachaças e embalagens Brasil afora! Abcos!

  • Illan Oliveira
    maio 13, 2011 at 12:51 pm

    Renato,

    Parabéns pelo artigo, pois a embalagem e identidade visual têm uma grande importância na divulgação e expansão do produto no mercado.
    Não tenho conhecimentos técnicos de Design mas, ao meu entender, a cachaça tem características próprias e únicas em relação a outros destilados, além das relações culturais e históricas com o Brasil, que podem ser exploradas de forma equlibrada a considerar os Conservadores como o senhor Paulo (e o amigo) com as técnicas e inovações da publicidade e do design.
    Hoje encontram-se em muitas cachaças, uma história relacionada ao rótulo e ao seu nome, que “faz parte” do produto e cria um enredo que leva a um bate papo sobre cachaça, afinal uma boa cachaça é acompanhada de uma boa prosa.
    Acredito que o caminho para a cachaça brasileira é mostrar ao mundo a sua própria identidade, a identidade Brasileira.

    Um brinde à cachaça.

    abs

  • renato
    maio 13, 2011 at 8:18 pm

    Illan, acredito muito em tudo o que você disse também!
    Obrigado pelo comentário!
    Forte Abraço!

  • […] e “descolada”. Com a campanha “Academia Sagatiba de Caipirinha” (que já comentamos aqui), traz o universo da “inteligência” de uma forma cômica e a proposta da utilização da […]

  • A Cachaça no Exterior | Mapa da Cachaça
    janeiro 19, 2012 at 10:12 am

    […] coisa importante a ser dita: tem muita Cachaça que só existe lá fora. Eu já até mostrei num post algumas com embalagens rebuscadíssimas, mas que eu nunca vi para vender no mercado nacional. Os […]

  • Rubens
    agosto 15, 2014 at 4:04 pm

    Onde comprar a Cachaça Moleca??? Será que seria um bom presente de aniversário para quem toma Whisky vir a conhecer uma boa Cachaça ou teria outra melhor? Qto custa a Moleca?

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