Cultura

Cachaça, alma do Brasil

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Uma criação dos Cachaceiros da Távola Redonda. Por Maurício Ayer, Elvis Campello e Vinicius Reis, com contribuições de Deusdete Nunes, Evelyn Inocêncio, Fernanda Kurebayashi, Gilson Rosa, Zé Marcio Fernandez e Leandro Nagata.

Barril de Cachaça - Xilogravura

São Benedito, padroeiro,

Me proteja o ano inteiro,

Que eu sou bom cachaceiro!

 

Senhoras, senhores, bem-vindos sejam

A esta casa aberta e generosa

Que nos recebe a todos pra uma prosa,

Saberes e sabores aqui vicejam.

Agora vou pedir vossa licença

Para falar da nossa água benta

O bálsamo sagrado em nossa crença

E o que não se souber a gente inventa.

Peço atenção ao relato que se abriu:

Cachaça é a alma do Brasil.

 

Zarpou de sua costa o lusitano

No Atlântico traçou uma diagonal

E lá do outro lado do oceano

Sagrou-se grande líder mundial

E nos porões das suas caravelas

Trazia os alambiques de barro

Mudas de cana verde e amarela

Assim começa a história que vos narro

Da aguardente que aqui surgiu

Cachaça é o destilado do Brasil.

 

Alambique de Cachaça - Cordel

 

Quem primeiro fez a aguardente?

Foi aqui no litoral, em São Vicente?

Ou foi na Ilha de Itamaracá

De onde começou a se espalhar?

Ou na Bahia, em Porto Seguro,

Com um destilador de barro escuro?

Inspirado na bagaceira ibérica,

Foi o primeiro espírito da América,

Que a nação brasílica serviu,

Cachaça deu origem ao Brasil.

 

Pois disse o mestre Câmara Cascudo

“Mói o engenho, destila o alambique”

Açúcar é do mé irmão em tudo

E só Gilberto Freyre que me explique.

Em casa de coser méis fazia o negro

A água mineral dos coronéis

Guardava em tonéis e pelo emprego

Não recebia nem tostões nem réis.

Sal do suor e o sangue do gentio,

Cachaça conta a história do Brasil.

 

Plantar as mudas na estação chuvosa

Ver se desenvolver cana frondosa

Pra colher quando bate a estiagem

E antes de levar para a moagem

Tirar a palha e lavar a areia,

Garapa corre para a dorna cheia

Onde irá trabalhar a levedura

Então vai pro alambique e a prata pura

Desliza docemente pro barril.

Cachaça vem da terra do Brasil.

 

Ipê, louro-canela, araribá,

Bálsamo, umburana, castanheira,

Carvalho, amendoim, jequitibá,

Grápia, sassafrás e cerejeira,

É tanta madeira e tanto aroma,

Que não dá pra entender essa redoma

Que o mundo fez em torno do carvalho,

Qual fosse única carta no baralho,

Perdendo a distinção a mais sutil.

Cachaça é múltipla como o Brasil.

 

Cheguei para beber no bar da praça

O garçom logo anotou “um uísque?”

Falei “esse pedido você risque

Que o que eu quero é uma boa cachaça”.

Talvez um coquetel, rabo de galo?

Que tal uma caipirinha bem gelada

Acompanhando uma feijoada?

E com caju, então, eu nem te falo!

Com torresminho ou carne de pernil,

Cachaça põe a mesa do Brasil.

 

Xilogravura Cordel Cachaça

 

Mas gente, a responsabilidade

É nossa com guris de pouca idade

Ao beberrão lembrar que tem Lei Seca

Não pega em direção quem está zureta

Seja no campo ou seja na cidade

Pois morrerá de morte violenta

E assim jogar no lixo a mocidade

Também com a vida alheia ele atenta.

Cumprimos nossa obrigação civil,

Cachaça tem que cuidar do Brasil.

 

Desde pequeno eu via o meu véi’

Meu avô com o copinho a apreciar

Sempre antes e depois de trabalhar.

Na idade certa, eu também provei,

Aprendi: não se bebe em martelada

Seja quente ou fria, pura ou casada,

Cachaça feita com o coração,

A cauda não dá rasteira não

Nem a cabeça ataca o corpanzil,

Cachaça é um ensinamento do Brasil.

 

Minha amiga está gripada, coitadinha?

Não perca tempo, tome uma caipirinha,

Ponha num copo mel, limão e alho,

Misture tudo com o santo remédio

– Sem vodca ou saquê, isso é sacrilégio! –

Amanhã, eu lhe afirmo e não falho,

Você levantará animadinha

Exibindo um sorriso de rainha

E um brilho no olhar primaveril.

Cachaça é a saúde do Brasil.

 

Mas pra quem passa dessa pra melhor

O inferno não há de ser nenhuma desgraça

Pois dizem que no céu não tem cachaça

Que graça vai ter lá, nosso Senhor?

Ou será que o avesso é que acontece

Os anjos de verdade à Terra descem

E na sala das dornas vêm buscar

Sua parte da marvada pra provar?

Eu trago junto ao peito o meu cantil,

Cachaça é a religião do Brasil.

 

E o samba quando soa o que é que pede?

Despacho de macumba ou de umbanda?

Depois da capoeira o que se bebe?

No futebol ou quando passa a banda?

Se nasce o filho com quê bebemora?

Se morre, bebe o morto e com quê chora?

Se fica no estrangeiro muito tempo

Procura a sinuosa e toma um alento,

Que volta o remelexo pro quadril,

Cachaça está no sangue do Brasil.

 

E vamos pôr bagaço na caldeira

Que a branca corajosa brasileira

Vai conquistar o povo da Alemanha,

Japão, Estados Unidos e Espanha.

Nossas colunas a todo vapor

Levaremos ao mundo o teu calor

Para todos os lugares, bares, lares,

Colombo, abre a porta dos teus mares

Para mostrar nossa força mercantil,

Cachaça é a riqueza do Brasil.

 

Nosso povo há de deixar o preconceito

E junto com a branquinha tomar jeito.

O néctar destilado pelo cobre

O que já foi o cobertor de pobre,

Realiza o lindo milagre da cana

No copo do povão e do bacana

Recebe a mesma deferência nobre,

Quem aprecia acerta, não se engana

Me diga quem viu fado mais gentil,

Cachaça é o orgulho do Brasil.

 

Pois bem, meus senhores, minhas senhoras

Vamos deixá-los degustar da boa

Enquanto vem o almoço em boa hora

E a sua melodia à língua entoa.

Nosso país foi feito de três líquidos

Suor, sangue e cachaça, tenho dito,

Nas raças somos sim um povo híbrido,

Que escolheu o futuro mais bonito.

Nas matas verdes, sob o céu de anil,

Cachaça é a pátria do Brasil.

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Cachaceiros da Távola Redonda

Cachaceiros da Távola Redonda

Os Cachaceiros da Távola Redonda são uma ordem etílico-cultural dedicada à cachaça e às muitas ideias que a danada faz surgir; os cachacistas integrantes são Deusdete Nunes, Elvis Campello, Evelyn Inocêncio, Fernanda Kurebayashi, Gilson Rosa, Leandro Nagata, Maurício Ayer, Vinicius Reis e Zé Marcio Fernandez.

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