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Visitando a Cachaça Havana de Anísio Santiago

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Anísio Santiago começou a produção da cachaça Havana na década de 40 e criou uma das principais marcas de cachaça artesanal do Brasil

Anísio Santiago(1912-2002) foi o responsável pela fabricação e sucesso da cachaça Havana, produzida em Salinas (MG), cidade que se tornou referência entre todos os produtores de cachaça do país. Nesses dois anos pesquisando sobre o destilado brasileiro, eu conheci em livros e artigos a fama de Anísio Santiago, mas precisava ver de perto sua fazenda em Salinas para poder realmente entender esse personagem tão importante para a história da cachaça artesanal. Na semana passada, eu e Gabi tivemos a oportunidade de conhecer Salinas e seus alambiques quando fomos convidados pela APACS para participar do XI Festival Mundial da Cachaça. O alambique da Cachaça Havana era destino certo para nós e nossos companheiros de viagem, que temos em Anísio Santiago um exemplo de como uma cachaça feita com muito trabalho e dedicação pode conquistar o Brasil e o mundo pela sua qualidade, simplicidade e história.

Seca em Salinas da cachaça Havana - Salinas - Minas Gerais

Salinas é uma cidade pequena do norte de Minas Gerais, próxima à Bahia, com pouco mais de 39 mil habitantes e envolta por uma bonita região dominada pelo cerrado de clima semi-árido. Como de se esperar, fez muito calor nos dois dias que passamos na cidade, que costuma ver chuva apenas em março e abril, meses que continuaram secos obrigando os produtores a reduzirem a alambicagem desse ano. Mas posso afirmar, com conhecimento de causa, que cachaça não falta naquela terra. O principal apelo turistico de Salinas é a sua produção de cachaça que chega aos 4 milhões de litros por ano produzidos pelos mais de 25 fabricantes artesanais responsáveis por mais de 50 marcas. Apesar de não ter visto muita plantação de cana-de-açúcar, as cachaças locais estão em todos os lugares. Quando chegamos lá, fomos dar uma olhada nos preparativos para o Festival da Cachaça e vimos uma cidade que tem no destilado o centro da sua economia e cultura. Todos os principais produtores têm suas próprias cachaçarias para a comercialização da bebida e várias lojinhas do centro da cidade divulgavam seus produtos ao lado de autênticas cachaças salinenses. Já viu uma vitrine vendendo roupas masculinas e garrafas de cachaça? Em Salinas eu vi!

Cachaça em todos os lugares - Vitrine de loja em Salinas

Fica difícil imaginar Salinas sem as suas cachaças e pensando nesse casamento entre o destilado e a cidade, entendemos ainda mais a importância de Anísio Santiago. Na década de 1970, com o sucesso da Havana, em pouco tempo surgiram novas marcas que se tornaram tradicionais como a Boazinha, Seleta, Salinas, Indaiazinha, Lua Cheia, dentre outras. A fama do produtor da Havana colocou Salinas no mapa da produção das cachaças artesanais de qualidade, aumentando o volume de produção e trazendo renda, empregos, turistas e notoriedade ao município. Seguindo uma receita vencedora, os produtores salinenses têm na Havana e em Anísio Santiago referencias para a sua produção, como uma forma de padrão de qualidade. Praticamente todas as marcas que encontrei por lá são, assim como a Havana, envelhecidas em bálsamo, madeira que dá à cachaça uma coloração amarelo-ouro e um sabor que lembra o anís. A admiração local pelo produtor desafia até os principios de competição de mercado, quando outros cachaceiros classificam a Havana como a melhor cachaça do Brasil, como afirmou inúmeras vezes o Sr. Ivo Morais, produtor da Cachaça Pelicana.

No alambique das cachaças HavanaAnísio Santiago, gravamos um vídeo com Osvaldo Santiago, filho de Anísio e atual produtor da tradicional cachaça salinense. No vídeo, Osvaldo comenta a admiração que tem pelo pai e da sua importância para a cidade de Salinas e para a cachaça artesanal.

O mito da Cachaça Havana foi construido em cima da sabedoria de um produtor que, mesmo com a fama, manteve sua produção em pequena escala, com apenas 6 mil litros por ano, sempre primando pela qualidade e envolvendo sua cachaça em causos, mitos e fatos que funcionaram muito melhor do que qualquer campanha elaborada por marqueteiros. Um exemplo que ajudou a divulgar a cachaça foi quando a família Santiago perdeu o direito de utilizar a marca, processada pelo rum Havana Club, e por isto passou a rotular as garrafas com o nome “Anísio Santiago“. O processo fez com que Salinas e sua mais famosa cachaça virassem pauta em diversos jornais e revistas mundo afora. Ao final do ano passado, no entanto, um corajoso juiz peitou a causa e a cachaça conquistou novamente seu nome de batismo e voltou a se chamar Havana.

Anísio Santiago era um brasileiro simples, que gostava de um jogo de truco de vez em quando e que fazia cachaça de qualidade não pela grana ou porque gostava de beber (ele não bebia!), mas porque queria ver seu nome associado a uma cachaça especial – a qualidade estava acima de qualquer retorno financeiro. Com honestidade, trabalho bem feito, Anísio fez sua fama por todo país, conquistando sempre as primeiras colocações em rankings nacionais e sendo unanimidade entre todos os especialistas. Em fevereiro de 2012, Anísio completaria 100 anos de vida e acho que ficaria feliz em ver sua cachaça reconhecida como uma das principais do país, com uma garrafa custando mais de R$ 500 reais, recompensando seus esforços em não aumentar a quantidade em detrimento da qualidade. Ou não, talvez ele nem ligasse para isso, e se contentasse em apenas subir no seu caminhão Chevrolet Leadmaster adquirido no Rio de Janeiro em 1947 e partir para mais uma alambicada.  Agora é tarefa dos familiares de Anísio Santiago e da cidade de Salinas manterem vivo o mito e seguirem a visão romantica do renomado produtor de que é possível produzir uma cachaça boa, em pequena quantidade, com tradição numa pequena fazenda longe das grandes capitais.

 

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Felipe Jannuzzi

Felipe Jannuzzi

Felipe é produtor multimidia. Na velhice, talvez sossegue e monte o próprio alambique, mas agora quer conhecer e divulgar todos os cantos do Brasil.

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Comentários

16 comentários

  1. Felipe Jannuzzi, parabéns pelo texto impecável. A família de Anísio Santiago agradece pela divulgação de um modo singular de produzir cachaça artesanal de primeiríssima qualidade sob as marcas Anísio Santiago e Havana. Resta aos filhos e netos de Anísio Santiago manter este legado que tanto vem dignificando a cachaça brasileira. Muito obrigado!

    • Queremos voltar outras vezes! Parabéns pela produção e qualidade, Roberto. Quero ler seu livro e conhecer mais sobre Anísio e Havana. grande abraço

  2. Felipe,
    Obrigado pela visita e pelo texto elogioso a Salinas e à “cachaça-mãe”!
    Um abraço,

  3. Magnífica reportagem, a presidenta Dilma num autêntico tapa com luva de pelica presenteou o presidente Raul Castro com 2 garrafas de cachaça Havana. Vocês mostraram que empresas sérias não aumentam a quantidade para não perder a qualidade .

  4. olha sou um profundo admirador e adoro saborear uma boa cachacinha ou seja uma branquinha ou amarelinha ,pois desde meus 08 anos comecei a gostar de um bom aperitivo; destas de salinas fora a havana eu aprecio muito a rainha de salinas é ótima…………….

  5. Parabéns pela reportagem. Sempre quis saber um pouco mais desta maravilhosa cachaça.

  6. Tenho interrece em trabalhar com os produtos de vcs .quero saber precos telefone podem me enviar lista de produto e forma de .pagamentos

  7. É possível qualquer pessoa conhecer o alambique Anísio Santiago? Gostaria de conhecer o endereço. Grato

  8. Bom dia, comprei 3 garrafas de havana em que a tampa se encontra completamente enferrujadas, o rotulo me parece muito antigo e o lacre da tampa está com todas informações porem já são muito mais muito velhos, comprei de um senhor que fechou seu boteco há mais de 10 anos em MG, quero saber se de fato vale um bom dinheiro? Obrigado.

  9. Parabéns Família Santiago por manter esse legado. Se um dia eu puder conhecer Salinas com certeza quero visitar essa maravilha de lugar e poder provar esse verdadeiro suprasumo da cachaça. Abraço à todos. E parabéns pela reportagem.