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Por que a Caipirinha é nosso drink mais famoso?

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Até hoje a cachaça foi um "samba de uma notá só". Apesar da caipirinha ser um dos cocktails mais populares e consumidos no mundo, a cachaça ainda não entrou para o "hall da fama" dos grandes spirits. Entenda o porquê.

Pelas características agrárias do país temos a abundância de matéria prima. É natural que sejam desenvolvidos produtos que atendam às demandas de todas classes sociais. Produtos premium para uma elite sofisticada e exigente e produtos standard que atendam o consumidor ocasional e as categorias de entrada. Ainda tem os que são acessíveis aos menos favorecidos. Isso é uma lógica de mercado.

Foto de Caipirinha de Limão com Abacaxi

Como outros países lidam com suas bebidas nacionais

A Escócia por sua grande produção de cevada e trigo e o aprimoramento dos processos de maltagem de cereais, tornou-se o berço perfeito para o whisky. Assim como EUA e Canadá o foram para os whiskies de grãos como milho e centeio. A França por sua tradição no trato com as uvas produziu, além dos mais apreciados vinhos do mundo, brandies que viraram sinônimo de requinte, e ainda o calvados e as eaux-de-vie.

No México os colonizadores se depararam com uma planta muito esquisita: o agave. Parece um tipo de cacto, ainda mais quando vista no cenário dos áridos campos mexicanos de solo vulcânico. Os nativos cozinhavam seu miolo rico em lipídios e obtiam um suco que, após fermentado, recebe o nome de pulque. Os espanhóis, que também produziam excelentes vinhos e brandies, destilaram o pulque e criaram o que o mundo conhece, por denominação de origem, como tequila. E agora o México está explorando o mezcal: o mesmo destilado de pulque, porém sem as obrigatoriedades que o fariam chamar-se tequila.

Os países do Caribe também produziram álcool a partir de sua matéria prima mais abundante: cana de açúcar. Foi aí que eles inventaram o rum. Países como Cuba, onde a população é formada basicamente por descendentes de escravos da época do domínio espanhol, o rum é parte fundamental da cultura de seu povo. Ele é tão intimamente ligado do sagrado ao profano, do mais rico ao mais miserável, que é quase impossível não citá-lo como uma característica do povo cubano. Excelentes rums são exportados e apreciados pelo mundo afora, sendo o ingrediente principal de diversos clássicos e até mesmo o elemento fundamental de toda uma categoria de cocktails, muito popular entre os anos 40 e 60: os tiki drinks.

Como o Brasil trata sua bebida nacional

Aqui essa lógica é um pouco diferente por uma série de fatores que compõem os fios do tecido social do Brasil. Nosso desenvolvimento econômico historicamente deve-se à cana de açúcar. As primeiras “indústrias” do país foram os engenhos de cana e até hoje somos o maior produtor mundial. Somos um “país com pouco mais de 500 anos” de história altamente miscigenado, fato que nos confere uma bagagem cultural única porém pequena quando comparada ao velho mundo. Temos dimensões continentais, o que potencializou várias diversidades.

Como em outros lugares já citados, é de se deduzir que o destilado nacional seja o fio que costura essa variedade de raças, crenças e sotaques do povo brasileiro. Porém, a busca por aprovação internacional fez com que as camadas mais privilegiadas de nossa população negasse seus referenciais culturais adotando hábitos e costumes vindos de fora. Assim, a cachaça sempre foi julgada por sua ligação com os menos favorecidos – era dada aos escravos negros como forma de abrandarem a fome – foi condenada à marginalidade, algo do qual não devemos nos orgulhar.

Mendigos escoceses ou americanos são mais glamurosos que os nossos porque bebem whisky? Ou talvez os do leste europeu que bebem vodka? Ou ainda os mexicanos por beberem tequila? A resposta dessa pergunta é o triste quadro que a elite econômica brasileira historicamente vêm pintando há 500 anos com o objetivo de ser cosmopolita. Como ela é a formadora do mercado consumidor da mixologia no Brasil, não é difícil concluir que a cachaça ficaria de fora dessa onda.

Vivemos em um país com uma invejável diversidade de espécies vegetais, mas não conseguimos desenvolver uma coquetelaria tipicamente brasileira: todos os pedidos que chegam aos balcões contribuem para essa falsa sensação de internacionalização dos hábitos de consumo. Ao invés de incentivarmos nossos mixologistas e bartenders a explorarem a versatilidade da cachaça, e criarem um conjunto de técnicas e receitas genuinamente brasileiros, conferimos mais valor aos que estão up to date das últimas tendências globais.

Visão de negócios

Que diferença há entre um alambique de cachaça do interior e uma microdistillery dos Estados Unidos?

A falta bagagem ou conhecimento para fazer um planejamento de negócios e desenvolver a cachaça como produto, visto que não somos um país fundamentalmente capitalista que tem o consumo como aspecto cultural. Nossos produtores são os verdadeiros artistas. Muitos o fazem movidos por uma ligação emocional de suas famílias com a cachaça. Em muitos casos essa arte passa de pai para filho, assim como os métodos e meios produtivos. Isso perpetua o caráter “artesanal”, porém único de seu legado.

“Cachaçageist”

Brazil está na moda. Escolhido para sediar os dois eventos esportivos mundiais mais importantes, virou a terra prometida de europeus abalados pela crise econômica. Atenções internacionais, intercâmbio de referenciais culturais e a preparação da mão de obra para receber os estrangeiros que virão nos próximos 4 anos, criam um cenário perfeito para que a cachaça seja elevada à representação mais genuína do spirit brasileiro.

Para isso acontecer não depende somente de bartenders criarem novas receitas, isso posso garantir que acontece quase diariamente. Depende sim de nós, amantes da cachaça, mostrarmos seu valor, não ao gringo na balada, mas ao vizinho que ainda te designa pejorativamente como “cachaceiro”. Ao qual você deveria responder: “Com muito orgulho, afinal é o que o Brasil tem de melhor e mais genuíno para se beber!”

Que outros fatores vocês acham que contribuem para criarmos o ambiente propício onde a cachaça fale de igual para igual com todo outros destilados? Acham possível desenvolver a mixologia tipicamente brasileira e, com isso, mostrar ao mundo a versatilidade da cachaça? Como podemos melhorar a imagem da cachaça lá fora e para nós mesmos?

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Juniorwm

Juniorwm

Juniorwm é um artesão de cocktails. Vive em busca de novas técnicas e estados físicos dos ingredientes que usa em suas receitas. Apaixonado por sugarcane spirits, encontrou na cachaça tudo que precisava para construir e difundir uma coquetelaria tipicamente brasileira. Serve doses de conteúdo no @juniorwm e em seu blog Mundo Copo

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Comentários

6 comentários

  1. Gostei da análise.

    Tenho uma linha de pensamento mais ou menos no mesmo sentido. Só não concordo 100% com o ponto que responsabiliza, em parte, os consumidores por preferirem pedir as tendências mundiais nos balcões e preterir a nossa cachaça. O próprio México é um exemplo disso. Possuem uma característica muito parecida com o povo brasileiro onde a tequila e o mezcal também são largamente consumidos entre a população de menor renda, enquanto os de maior poder aquisitivo também seguem as tendências nos bares. Entretanto, eles conseguiram quebrar o preconceito da bebida a ponto de colocá-la no circuito mundial dos spirits. O “cabrón” que pede um drink em um bar, também se orgulha em beber a tequila! No meu ver, o tópico “Visão de Negócios” é X da questão.

    Outra coisa a se pensar é a falta da marca “standard” ser amigável a coquetelaria. As duas ou três marcas “standard” e populares para confecção da nossa caipirinha, até mesmo em bares de alto nível, possuem características agressívas demais para serem exploradas por nossos bartenders buscando a popularização da bebida. Tanto é, que estas características fazem com que muitos clientes peçam até a aberração de substituir a cachaça por vodka ou sake em suas caipirinhas! Inconcebível, mas entendível quando percebe-se que as duas são bebidas de características planas. Jose Cuervo, Smirnoff, Johnie Walker Red Label… Marcas mundiais que acharam o equilíbrio entre preço, qualidade e mais do que isso, características que permitem à mixologia popularizá-las. – Ah, mas o Brasil tem inúmeros rótulos de cachaça com características que atenderiam este ponto. Sim, mas pagamos o preço por nosso standard já estar culturalmente associado a um patamar de qualidade, característica e preço que nos prende em um círculo vicioso difícil de quebrar.

    Junior WM, muita abobrinha ou faz sentido?

    Saúde

  2. Excelente análise Juniorwm.
    O ambiente propício que contribui para que a cachaça fale de igual para igual com os outros destilados passa obrigatoriamente por uma seleção criteriosa das cachaças a serem trabalhadas. Existem ótimas cachaças industriais e muitas péssimas cachaças artesanais. Critérios técnicos e o fator custo x benefício sem dúvida devem prevalecer nesta escolha para que a bebida corresponda às expectativas dos profissionais e até surpreenda os paladares dos formadores de opnião.
    Outro ponto acredito que seja o nível de informação/conhecimento do consumidor. Talvez aí tenhamos uma situação interessante: a elite consumidora não é a elite pensante desse país. Ainda bem! Influencia muito nas características econômicas mas o fato é que a elite intelectual deste país não é formada por eles. Vejo algumas marcas que estão consagradas por um público “elitista” simplesmente devido a um belo trabalho de marketing. Sofisticação nem sempre é o caminho para romper o preconceito com a cachaça, o que falta é educação, valorização da cultura brasileira e muito marketing.
    Sem querer ser pessimista, mas já o fazendo, acredito que veremos, em breve, as grandes como a Diageo, atirando pesado na direção neste mal explorado mercado com produtos standard um pouco melhores que os atuais. Eles sabem vender. Europeus e americanos, que já adoram o sabor da caipirinha (feita com cachaça ruim) por ser a tradução de tudo que eles querem ao chegar no Brasil – sol, praias paradisíacas, sabores exóticos, produtos típicos e muito entretenimento, serão os primeiros alvos ao pisarem em nossos estádios e centros olímpicos.
    Trabalhos sérios como os dos diversos profissionais que escrevem artigos no MdC e outros tantos que há anos lutam pela cachaça, têm um impacto muito maior do que se imagina.
    Abraço.

  3. Parabéns pelo artigo, concordo com todas as considerações, atuo no setor da cachaça fazem 8 anos e ao longo deste tempo percebi que se continuarmos tratando a cachaça apenas como uma bebida jamais conseguiremos desmitificar essa figura marginal da cachaça, houve muitos avanços nos últimos anos, mas ainda temos um longo caminho a ser percorrido, porem conseguiremos apenas se o setor se unir definitivamente e começarmos a tratar a cachaça como um patrimonio cultural e histórico do Brasil.
    A cachaça esta presente praticamente desde o descobrimento de nosso Pais, fez parte de momentos importantes da nossa história.

    Parabéns ao Mapa da Cachaça e toda sua equipe pela contribuição que tem dado ao setor.

  4. Grande texto, Juniorwm! Muito oportuno quando, dias atrás, no sorteio dos grupos para a Copa do Mundo, o vídeo que mostrava cenas rápidas de cada cidade-sede, cometeu o que considero um tiro no pé daqueles. Na hora de mostrar Belo Horizonte, uma cena traz um grupo de pessoas num bar fazendo um brinde com o que? Com taças de vinho. Justo Belo Horizonte.