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Menos jambu e mais Caipirinha para a valorização da coquetelaria nacional

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Afinal do que adianta falarmos de jambu, priprioca e catuaba se não conseguimos nem defender a receita original da Caipirinha?

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Caipirinha, receita antiga brasileira e em 1995 registrada na lista dos drinques oficiais do mundo no congresso da Internacional Bartenders Association (IBA).

O recente aumento de bares especializados em coquetéis nas principais capitais brasileiras pode nos fazer pensar que nossa história com coquetelaria seja recente. Mas somos um país com tradição em misturar frutas, sementes, raízes, ervas com fermentados e destilados. Dizem que Carlota Joaquina, mulher de D. João VI, adorava misturar frutas com aguardente de cana.

É comum encontramos pelo país receitas de garrafadas, curtidas ou misturas preparadas para lazer, remédio ou até para rituais religiosos. Toda Páscoa, no interior de São Paulo, por exemplo, centenas de pessoas participam do ritual do “Fecha Corpo”, quando tomam cachaça com guiné e arruda para espantar os males do corpo e da alma. Em mercados municipais e botecos pé sujo, e atualmente em bares sofisticados, encontramos cachaça com cataia, jambu, carqueja, puxuri, priprioca que nos revelam histórias e sabores. Parte do processo de valorização de uma possível coquetelaria nacional é reconhecer o potencial desses ingredientes.

Recentemente, a catuaba foi a grande estrela dos nossos carnavais pelo seu preço barato e discurso afrodisíaco. A onda agora é a da “cachaça de jambu” e seu efeito de formigamento na boca. Minhas apostas para os próximos anos estão nas nossas cascas e raízes amargas para receitas nacionais de vermutes e bitters. Acho tudo isso fantástico, mas na minha opinião, se quisermos que nossa coquetelaria evolua, precisamos falar de um coquetel clássico que vem sendo menosprezado, a Caipirinha.

Protegida por um decreto de 2009 como autentica receita brasileira e incluída pela Associação Internacional de Bartender entre os 7 clássicos da coquetelaria mundial, a Caipirinha é um coquetel refrescante, delicioso e memorável, ainda mais quando preparada com uma boa cachaça. Apesar disso, outras bebidas aproveitam da sua fama para deturparem a receita original e substituem a cachaça por um destilado tido como superior – puro preconceito replicado pelo mercado, bartenders e consumidores num ciclo vicioso.

Em Paraty, um dos berços da cachaça, Caipirinha pode ser servida com cachaça, rum ou vodca. #fail

Em Paraty, um dos berços da cachaça, Caipirinha pode ser servida com cachaça, rum ou vodca. #fail

Um recente dado divulgado pela marca de cachaça Leblon, aponta que 6 a cada 10 Caipirinhas não são feitas com cachaça. Quando te oferecem uma Caipirinha feita de vodca, saquê ou rum, e isso já deve ter acontecido com vocês diversas vezes, estamos deixando de reconhecer a cachaça como patrimônio nacional centenário e uma das bandeiras da nossa coquetelaria.

Para começarmos a falar sobre uma coquetelaria nacional o primeiro passo é começarmos a defender nossa cultura, nossas receitas tradicionais e nossos ingredientes com séculos de história. Começar o movimento de valorização da coquetelaria brasileira pode ser tão simples quanto misturar cachaça, limão, gelo e açúcar.

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Felipe Jannuzzi

Felipe Jannuzzi

Felipe é produtor multimidia. Na velhice, talvez sossegue e monte o próprio alambique, mas agora quer conhecer e divulgar todos os cantos do Brasil.

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Comentários

2 comentários

  1. Caiprinha sem cachaça branca de boa qualidade é o mesmo que querer fazer um negroni sem campari, não existe. E a recita clássica com limão-taiti (Citrus × latifolia), gelo e açúcar (eu prefiro na forma de xarope, pois garante a miscibilidade total) é perfeita, não só pra curtir um bom dia de praia e sol, mas para acompanhar petiscos e aquele churrasco ou feijoada.
    Temos de aprender a valorizar nosso produto 100% nacional, a cana chegou ao Brasil em 1504 em Fernando de Noronha, e desde 1516, há notícias de alambiques nas capitanias de São Vicente e Pernambuco, e já em 1534 produção de cachaça em alambique na hoje Santos SP.
    Bebida das mais antigas das américas e do mundo, temos de valorizar o nosso, como é possível o méxico vender só no mercado externo cerca de 70% de sua produção de tequila estimada em 200 milhões de litros, gerando riquezas da ordem de 1,4 bi de dólares, e aqui o volume exportado em 2017 ficou em cerca de 1% do volume total da produção, com volume de pouco mais de 16 milhões de dólares.