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A História das Cachaças de Paraty

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Fizemos uma viagem pelo Sul Fluminense e percorremos mais de 2 mil quilômetros em busca das melhores cachaças artesanais da região. Nossa primeira parada foi em Paraty. Além de entender mais sobre o processo de produção, identificando características regionais passadas de pai para filho, fomos também atrás de encontrar traços culturais e históricos de um Brasil que produz cachaça desde 1532.

Paraty - História e Cachaça

Paraty – cidade sinônimo de cachaça artesanal

Nossa viagem começou em Paraty no litoral do Rio de Janeiro. A cidade foi um importante porto comercial no período colonial e sempre foi um dos principais pólos de produção de cachaça artesanal do país. Paraty é um dos muitos lugares no Brasil onde o destilado teve papel importante na economia e na criação da identidade local.

De São Vicente, a cana-de-açúcar foi trazida para o litoral do Rio de Janeiro ainda no século XVI. Em Paraty, com mão de obra escrava de africanos e índios guaianás, a cana era plantada nos morros, onde as chuvas constantes não proporcionaram condições favoráveis para a produção do açúcar. Foi então que encontram na fabricação da aguardente de cana uma alternativa para movimentar a economia local.

Não se sabe exatamente quantos alambiques havia na região no período do Ciclo da Cana-de-Açúcar, mas o uso da cachaça como moeda de troca por escravos na África e a participação de produtores de aguardente em conflitos históricos do século XVII, nos fazem supor que a fabricação do destilado já tinha grande importância econômica e influência política no Rio de Janeiro.

O conflito mais relevante da época foi a chamada “Revolta da Cachaça”. Em 1660, para inibir a produção da cachaça e valorizar a comercialização da bagaceira europeia, Portugal estabeleceu um excessivo imposto cobrado dos fabricantes da aguardente do Rio de Janeiro, que insatisfeitos com a taxação, se rebelaram contra a Metrópole. Aproveitando o levante, neste mesmo ano, Paraty começa uma série de movimentos buscando sua emancipação de Angra dos Reis e sua elevação à categoria de vila. Alguns anos depois, com apoio dos produtores de cachaça, ela se estabelece como “Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty”.

Alambique Antigo - Cachaça Coqueiro - Artesanal

Antigo alambique usado para destilar aguardente na Cachaçaria Coqueiro em Paraty

Com a descoberta de pedras preciosas em Minas Gerais, Paraty se torna uma importante rota por onde passavam mineradores, escravos e comerciantes. A indústria da aguardente aproveitou esse momento para se expandir e suprir uma nova demanda de mercado. Já no final do Ciclo do Ouro, em 1790, Paraty tinha 87 engenhocas de fabricar aguardente.

A pinga era transportada de Paraty para o interior em barricas de madeira carregadas por mulas. No tempo da viagem, a cachaça, pelo contato com a madeira, acabava se tornando amarelinha. Hoje, podemos observar que em Paraty há um predomínio de produção de cachaças brancas, enquanto que em Minas Gerais, os produtores optam por armazenar suas cachaças em barris para que elas adquiram cor, aroma e sabor provenientes da madeira.

Com o declínio da mineração, Paraty encontrou outro período de riqueza social, cultural e econômica exportando o café produzido no Vale do Paraíba. O Ciclo  do Café se mostrou como o período de maior prosperidade para os produtores da aguardente paratiense. Ao contrário dos grandes casarões erguidos pelos Barões do Café que encontramos pela viagem, a arquitetura do centro histórico de Paraty revela que sua população urbana era formada principalmente por comerciantes. Em 1805, a indústria da cachaça paratiense já produzia e comercializava mais de 1600 pipas por ano (cada pipa tem em média 490 litros).

Maçonaria - Casa Maçom em Paraty - Rio de Janeiro

Casa comercial de 1834 no centro histórico de Paraty com influência maçônicas

Com a crise da produção de café no Vale do Paraíba Fluminense na segunda metade do século XIX, a economia da região entrava em decadência. Como reflexo da crise, em 1852, foram produzidos apenas 413 pipas de aguardente em Paraty – um número muito inferior ao produzido no século passado. Em 1855, com a construção da ferrovia Dom Pedro II, que ligava São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, a cidade perde importância como rota de passagem por onde escoavam os produtos agrícolas e viajantes. O isolamento e as dificuldades econômicas, fizeram com que os donos de engenho, que acumularam riqueza no passado, apostassem na indústria de aguardente paratiense como forma de sair da crise. Em 1872, eram 53 engenhos produzindo 4090 pipas de aguardente por ano.

Roda D´Água para produzir cachaça

Roda D´Água com mais de 12 metros usada para moer uma enorme quantidade de cana-de-açúcar para produção de aguardente no final do século XIX.

O que acabou desestabilizando a indústria da aguardente em Paraty foi a abolição da escravatura em 1888, tornando a mão de obra escassa e cara, afinal nunca foi trabalho fácil plantar cana-de-açúcar na irregular e chuvosa Serra do Mar. Apesar das crises que levaram a diminuição do volume de cachaça, Paraty nunca deixou de produzir a sua aguardente de cana. A produção paratiense era tão famosa e valorizada no Império que a própria palavra paraty passou a ser usada como sinônimo de cachaça.

Carta do século XIX na cachaça Maria Izabel

No alambique da produtora Maria Izabel, encontramos uma carta de 1876 informando o estoque de cachaça que deveriam ser enviados para Portugal

Com a criação da estrada Cunha-Paraty em 1954  e da rodovia Rio-Santos na década de 70, Paraty volta a ser uma importante rota de passagem, agora valorizada pelo seus atrativos turísticos, como as belas praias e monumentos históricos e culturais. A indústria da cachaça viria a encontrar um novo período de prosperidade com a produção voltada para abastecer a demanda local trazida por visitantes de todas as partes do mundo. A Festa da Pinga de Paraty, comemorada todos os anos na cidade com milhares de pessoas, marcou esse novo momento da cachaça paratiense sendo realizada pela primeira vez em 1982.

Em 2013, são sete produtores de cachaça artesanal na cidade. A maioria deles produz no máximo 20 mil litros de cachaça por ano, um número pequeno comparado com o volume produzido no passado, mas coerente com a proposta de priorizar a qualidade e não a quantidade da bebida fabricada. Um dos maiores desafios dos produtores locais para aumentar o volume de produção é ter autonomia na cana-de-açúcar plantada e colhida nas proximidades dos alambiques. Por falta de recursos, estrutura e terras, considerando que Paraty é cercada por reservas naturais, os produtores locais ainda precisam comprar boa parte da cana de outras cidades.

Os poucos engenhos que continuam produzindo cachaça seguem as receitas dos seus antepassados e acreditam na criação de uma identidade local – feito que garantiu o selo de Indicação Geográfica concedido pelo INPI em 2007. Ao conversar com os produtores, vemos que eles acreditam na valorização do processo de produção próprio de Paraty, como o uso da mesma variedade de cana, a fermentação utilizando leveduras selvagens e fubá de milho, a destilação de uma cachaça com teor alcoólico acima dos 42% e priorizando uma boa cachaça branquinha, aquela que prevalece o aroma da cana-de-açúcar.

Maria Izabel - Laranjinha Celeste

Em Paraty, Maria Izabel produz a aguardente composta Laranjinha Celeste

Para quem for visitar a cidade e quer uma amostra de uma produção tipica, não pode deixar de levar a Laranjinha Celeste, uma versão atual de um dos destilados mais famosos do período colonial, que leva folhas de laranjeira no processo de fabricação, dando uma cor azulada e um aroma cítrico à aguardente – um belo exemplar de bebida cheia de histórias e sabores – características próprias do destilado brasileiro.

Fotos: Felipe J. e Leo Bosnic

Agradecimentos: Diuner Mello – historiador

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Felipe Jannuzzi

Felipe Jannuzzi

Felipe é produtor multimídia. Estudou Imagem e Som na UFSCar e comunicação digital na USP. Na velhice, talvez sossegue e monte o próprio alambique, mas agora quer conhecer e divulgar todos os cantos do Brasil.

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Comentários

5 comentários

  1. Um texto bem elaborado para no final não passar de uma brilhante propaganda da cachaça “LARANJINHA” ? E as outras ? Meu Deus, é mensalão , dinheiro na cueca, venda do pré sal, genuino, PT, e agora LARANJINHA..

    • Antenor, é que a Jaranjinha Celeste é antiga pra caramba. Mas não teve jaba, não. Bacana ter achado o texto bem elaborado. Em outros textos do Mapa, citamos diversas outras cachaças de Paraty – quando a menção faz sentido dentro do contexto do artigo a gente fala mesmo. abração

  2. Felipe essa Laranjinha é uma renovada da antiga “Azulete” produzida por Mazinho, já falecido, na antiga Fazenda Murycana há cerca de 40 anos quando o conheci na Estrada Paraty-Cunha, abs.