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A História da Caipirinha – Versão Paratiense

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Qual a origem da Caipirinha? Já ouvimos algumas versões. Um documento do século XIX sugere que talvez ela seja paratiense. Será?

Em Paraty visitando alambiques de cachaça

Paraty, terra da cachaça e da caipirinha?

Na nossa última viagem visitando os alambiques do sul fluminense constatamos em documentos oficiais que o destilado de cana produzido em Paraty já era bastante prestigiado no período colonial.

“…a passagem que nela se faz para as Minas e a quantidade de aguardente de cana que ali se fabrica, lhe dão a opulência conhecida.” (D. Antônio Rollim de Moura, Conde de Azambuja, Governador de Goiás e Mato Grosso, 1750)

Nas quatro noites que passamos na cidade, além das pesquisas históricas e técnicas, buscando identificar características próprias de produção da cachaça paratiense, fomos atrás também de entender como a aguardente era usada na gastronomia local.

Nessas pesquisas, descobrimos muita coisa interessante sobre os drinques de Paraty.

A Caipirinha é paratiense?

A caipirinha é o drinque oficial do Brasil. Assim como sua matéria-prima principal, a cachaça, a bebida está protegida por lei como um patrimônio nacional. No entanto, pouco se sabe sobre a sua origem. A princípio, podemos supor pelo nome caipirinha que a bebida teria surgido no interior de Minas Gerais ou São Paulo, terra dos caipiras. Mas foi em Paraty, no Rio de Janeiro, que encontramos o registro mais antigo de uma possível inspiração para o coquetel nacional.

Em papo com o historiador paratiense Diuner Mello, descobrimos um documento de 1856 que relata as medidas tomadas por conta de uma epidemia de cólera na região. Entre os registros, está uma carta do engenheiro civil João Pinto Gomes Lamego que apresenta uma receita que daria origem ao que hoje chamamos de Caipirinha.

“…por isso, tenho provido que a necessidade obrigou a dar essa ração de aguardente temperada com água, açúcar e limão, a fim de proibir que bebessem água simples.” (Registro de Oficios da Câmera Municipal, pag. 139 , 1856).

Diuner Mello, pesquisador da história de Paraty

Diuner Mello, pesquisador da história de Paraty

De remédio popular, a caipirinha é hoje um dos coquetéis mais consumidos do mundo, tendo sido incluída pela Associação Internacional de Bartender entre os 7 clássicos da coquetelaria mundial, sendo bastante apreciada por estrangeiros que fazem questão de beber sua versão oficial com cachaça.

Nas nossas viagens, já ouvimos algumas histórias sobre as possíveis origens desse drinque nacional. Alguns historiadores falam que possivelmente seria originária de Santos, região das primeiras alambicadas de aguardente, outros dão os créditos à Carlota Joaquina – adepta da boa caninha e suas misturas com as frutas dos trópicos. Com as incertezas surgem até as versões inusitadas: Jô Soares no seu “O Xangô de Baker Street”, apresenta o Dr. Watson, amigo de Sherlock Holmes, como o pai da caipirinha. Pelo jeito, a origem do drinque tipicamente brasileira não é tão elementar assim…


Para chegarmos numa conclusão sobre a sua origem, ainda precisamos pesquisar muito, no entanto, a versão paratiense é até agora a mais antiga que temos nos arquivos do Mapa da Cachaça.

Jorge Amado e Gabriela, Cravo e Canela

Em 1988, foi gravado em Paraty uma versão cinematrográfica do livro Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado. Apesar da história se passar em Ilheús na Bahia, o centro histórico de Paraty foi cenário ideal para a trama de Gabriela, uma linda sertaneja interpretada na tela por Sonia Braga.

Durante os meses de gravação, a relação entre a equipe de filmagem e os paratienses foi tão intensa que os produtores de cachaça da cidade decidiram prestar uma homenagem à obra: a criação de uma aguardente com cravo e canela batizada de Gabriela.

Hoje, quase todos os produtores de cachaça de Paraty possuem sua versão da Gabriela, mas de acordo com os locais, a primeira garrafa teria sido uma criação da família Mello, produtores da famosa cachaça Coqueiro.

Coquetel Jorge Amado com Gabriela

Drinque Jorge Amado com Gabriela, maracujá e limão

As homenagens não pararam por aí. A bebida inspirou inclusive a criação de um drinque delicioso chamado “Jorge Amado”, que leva maracujá, limão taiti e claro, Gabriela. Infelizmente, nunca encontramos o drinque em bares ou restaurantes fora de Paraty, uma pena porque além de ser delicioso é também uma forma de lembrarmos do grande escritor brasileiro.

Para finalizar, deixo uma provocação para os meus amigos e amigas bartenders e mixologistas: Por que num país de dimensões continentais, com uma enorme variedade de frutas tropicais, com um dos povos mais criativos do mundo e com uma aguardente de tamanha qualidade como a cachaça temos apenas a Caipirinha como nosso drinque oficial?

caipirinha com cachaça do Mapa da Cachaça

Vamos inventar novas receitas com cachaça?

Fotos: Leo Bosnic e Felipe Jannuzzi

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Felipe Jannuzzi

Felipe Jannuzzi

Felipe é produtor multimídia. Estudou Imagem e Som na UFSCar e comunicação digital na USP. Na velhice, talvez sossegue e monte o próprio alambique, mas agora quer conhecer e divulgar todos os cantos do Brasil.

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Comentários

9 comentários

  1. Meu caro felipe.
    A questão da caipirinha é uma questão política, de comércio internacional, simplesmente. Não se atentou para o direito protetivo `as outras formas de preparo da cachaça com outras frutas que não o limão. Para que estrangeiros não patenteassem essa bebida, como tentaram fazer com o açaí e com outras tantas coisas que são daqui mas que despertam o rápido interesse dos estrangeiros, o lobbie em brasília privilegiou a caipirinha como nosso drink oficial (cachaça, limão e açúcar) e o colocou na lei rapidamente, sem consulta popular ou maior aprofundamento no assunto.
    A questão sobre o nome dos outros drinks feitos com cachaça é um tema polêmico, pois legislativamente, caipirinha é só com limão e não podemos desrespeitar a lei, porém, acho sim que temos um potencial enorme de frutas que harmonizam perfeitamente com os diversos tipos de cachaças, da pura até as mais envelhecidas.
    No meu ver, hoje estamos amarrados pela legislação e caipirinha é a bebida com limão, mas…qual o outro nome se poderia dar para a bebida com as outras frutas? Ainda não sei! Abraços

    • Guiba, tem política, mas com esse texto e pesquisa, quis mostrar o viés histórico – que acho bem interessante. Nessa pesquisa, fui atrás da receita original com limão. Mas também não vejo problema se a pessoa pedir uma Caipirinha de Morango ou Maracujá. São coisas que a cultura incorpora – e as criações da língua serão sempre mais rápidas do que a burocracia. Não vejo polemica se essas “caipirinhas” respeitarem o uso da cachaça :) O que eu acharia legal é ver mais coquetéis feitos pensando na aguardente brasileira – o nome fica por conta do pai da criança. abração

  2. O site de vcs é demais.acho importantíssimo o trabalho de vcs.Se não me engano as folhas ds laranjinha celeste é de tangerina,não???

  3. Adorei os artigos e os vídeos. Gostaria de receber mais informações no meu email, já que sou um fã da caipirinha e da cachaça.

  4. Ola caros amigos e apreciadores de uma boa cachaça.

    Eu moro a dez anos na Inglaterra e gostei muito da materia sobre a caipirinha e obvio sobre cachaça!
    Eu sou o Embaixador da cachaça Leblon no Reino Unido e acho que o único que realmente organiza palestras e treinos para bares sobe a cachaça e sobre cocktails com cachaça.
    Nosso problema e que nao temos um apoio do governo Brasileiro para divulgar melhor a categoria e com isso perdemos muito para as outras categorias de destilados, um ótimo exemplo e o da tequila, sempre que tem um evento ou festival voltado a produtos destilados a tequila sempre se destaca por que eles tem um ótimo local mostrando todas as tequilas que o pais produz ou pelo menos as que ja estão no mercado europeu. Por isso eu acho que deveríamos ter um incentivo melhor do governo para divulgar melhor a cachaça.
    Sobre os cocktails nos temos uma variedade gigante de cocktails com a base de cachaça os europeus sempre fazem algo especial com cachaça e se eu estou divulgado e explicando sobre cachaça de alambique e claro sobre a marca Leblon que e fenomenal. Para que todos saibam o que esta sendo feito com cachaça estou colocando o link de ideias para cocktail com cachaça.
    http://lebloncachaca.com/category/bar-chef/
    Espero que aproveitem e se tiverem vontade de saber sobre cocktails com a base de cachaça posso divulgar isso toda a semana.
    Muito Obrigado

  5. Difícil saber qual das versões é verdadeira. Fato é que cachaça, limão e mel sempre estiveram presentes como medicamento para gripes, resfriados, dor de garganta tá. Daí para virar drink, só falta saber quem apelidou de caipirinha. Mas, com certeza, a ideia foi identificá-lo como “bebida do interior – caipira”. Por isso a versão santista me parece muito provável.

  6. Concordo plenamente com Guiba. Não tomo outra bebida alcoolica,Somente a caipirinha. Isto é, limão, açucar e cachaça, mas da branca. As famosas amarelinhas alteram o sabor. Uma caipirinha feito em casa, sem gelo, lendo um bom livro é bom demais.
    Silvio Orlando