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Devemos falar sobre os produtores informais da cachaça artesanal?

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A produção de cachaça informal movimenta um mercado milionário e abastece as prateleiras de todo o Brasil. Entenda mais sobre o papel dos produtores da chamada cachaça artesanal informal.

Para muitas famílias, geralmente localizadas nas regiões mais pobres do Brasil, produzir cachaça artesanal tem a mesma importância de se plantar um pé de feijão: é uma questão de subsistência.

De maneira informal, sem qualquer registro do Ministério da Agricultura ou conhecimento técnico, esses produtores não destilam pela arte ou por amor ao ofício. Nestes lugares, cachaça é uma cultura de produção que complementa a renda familiar.

Grande parte das bebidas informais não é feita com o compromisso de agradar paladares. O consumidor que passa pelo alambique e leva a sua PET cheia de pinga não compra pra degustar – o que se espera é apenas os efeitos do álcool. Não existe a alquimia de um produtor que escolhe a cana a dedo, que cultiva a sua levedura com cuidado ou inventa um blend de madeiras nobres. Por essa falta de compromisso, apesar de muitas vezes serem perfumadas ou até saborosas, as cachaças informais possuem elementos indesejáveis e perigosos como o metanol e o cobre.

Mas mesmo assim, nas minhas próximas viagens quero colocar um ou outro alambique informal no meu roteiro de visitas.

alambique informal de cachaça artesanal

Exemplo de alambique de cachaça artesanal informal que visitamos no norte de Minas Gerais.

No Brasil são registradas mais de 4 mil marcas de cachaça de alambique – número bastante expressivo. Mas se formos considerar as cachaças de alambiques informais podemos multiplicar esse número por 10 (uma estimativa feita pelo mercado, não conheço uma fonte que se propôs a investigar o número de fato – tá aí uma ideia). Mas a realidade é que em algumas cidades do norte de Minas, por exemplo, são encontrados centenas de produtores fazendo 5-10 mil litros de cachaça por ano no quintal de casa. Esse cenário se repete em muitos outros estados brasileiros.

O motivo para existirem tantos produtores informais é simples: cachaça barata vende. O pequeno produtor familiar tem seu preço condicionado pela grande indústria de cachaça que paga de R$1 a R$2 pelo litro de pinga produzido. Um desses produtores da cachaça curraleira (como também pode ser chamada essa pinga) me disse que o preço depende muito da safra e que muitas vezes são reféns dos valores impostos pela indústria.

No final da produção caminhões passam por essas pequenas cidades e se abastecem com centenas de milhares de litros de pinga que depois serão padronizados ou até mesmo redestilados em alambiques formais. Pelo preço barato da cachaça comprada de terceiros, a indústria consegue colocar no mercado uma cachaça formal com preços muito competitivos. Em muitas dessas empresas a cachaça comprada chega a representar até 60% da produção.

Partindo de fontes infomais a cachaça se espalha por todo o Brasil com rótulos, selos de conformidade e algumas até premiadas por quem mais condena a pinga curraleira.

Deixar de falar desses caras ou apenas destacar seus pontos negativos é excluir toda uma economia da cachaça, que possui mais trabalhadores do que a indústria automotiva nacional. Com o mercado desinformado quem sai perdendo é principalmente o pequeno produtor formalizado de cachaça artesanal – que não consegue justificar para o consumidor o valor agregado ao seu produto.

Para quem quer entender sobre o cenário de produção de cachaça no Brasil é fundamental olhar para os informais. São eles os responsáveis pelo abastecimento de muitas prateleiras. Torcer o nariz e condenar o pequeno produtor ilegal é uma grande hipocrisia, afinal a cachaça com registro que você tomou no bar pode ter sido destilada no curral de algum produtor da cachaça artesanal informal.

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Felipe Jannuzzi

Felipe Jannuzzi

Felipe é produtor multimídia. Estudou Imagem e Som na UFSCar e comunicação digital na USP. Na velhice, talvez sossegue e monte o próprio alambique, mas agora quer conhecer e divulgar todos os cantos do Brasil.

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Comentários

22 comentários

  1. Muito sério este assunto, em minha região fiquei sabendo que montaram uma cooperativa e com auxílio do Sebrae estão treinando e equipando os pequenos produtores, sem exploração. Parabéns Felipe e pessoal do Mapa, cada dia que passa admiro mais o trabalho de vocês.

  2. SUPER SIMPLES PARA OS PRODUTORES DE CACHAÇA

    A informalidade existe por muitos motivos o principal é a questão tributária que além de complexa é desumana. Não existe viabilidade econômica para pequenas fábricas. Contabilmente é muito difícil a sobrevivência de quem produz menos de 50.000 litros por safra.

    A grande saída seria a inclusão dos pequenos produtores no SIMPLES NACIONAL. Afinal se os pequenos não puderem produzir os grandes que empregam pouco tomam conta do mercado. Foi isto que aconteceu na Europa com as destilarias pequenas de wisk.

    Att. JAIME DE SOUZA -ESPECIALISTA EM CACHAÇA PELA UNIVERSIDADE DE LAVRAS-MG

    • Ola Jaime boa noite comecei no final de 2013, como minha producao ainda e pouca, mas a minha preocupacao e fazer minha cachaca bem feita, que atenda e quem saiba degustar uma boa bebida, tenho tido bons elogios, principalmente da minha aguardente de manga, destilado somente de manga, ja tenho ela pura e envelhecida em tonel de balsamo. Como poderia te apresentar meu produto para voce, gostaria de ter seu aval, o meu objetivo e fazer um produto bem feito, e sua opiniao vai ser muito importante para mim, conto com voce. Posso mandar uma amostra para voce, da cachaca pura, e tambem da aguardente de manga pura e envelhecida. Atenciosamente, Obrigado

    • Olá Luiz Carlos, pela primeira vez leio esse blog e por isso faço este comentário em junho de 2016.
      Tenho lido que cachaças de frutas costumam produzir uma grande quantidade de metanol, principalmente daquelas frutas que contem muita pectina. Naturalmente vc atentou para esse detalhe e gostaria de saber sua experiência neste sentido.

  3. Felipe, todo o texto é muito verdadeiro.
    Sou do norte de minas e todas as cachaças de volume em Salinas e Januária, redestilam ou estandardizam. Sem exceção. Algumas, sequer alambicam.
    Também acontece no Nordeste e no Sul do pais, com produtores mais antigos ou recentes. Já ouvi dizer que até as produções industriais se utilizam deste modo, para ampliar a produção.
    Parabéns pela abordagem.
    Abc.
    Luciano Souto
    Cachaça Colombina

    • Olá Luciano, obrigado pelo seu comentário. Vamos continuar aqui escrevendo e falando sobre aquilo que acreditamos ajudar o mercado e o Brasil. grande abraço

  4. Isso merece um estudo sociológico e econômico mais sério. Existem impactos sociais importantes envolvidos aí. O caminho não me parece ser a perseguição desse produtor marginalizado. Ao contrário, penso ser necessário regularizar sua produção. Sem nenhum estudo e por intuição, eu diria que é preciso:

    (a) cadastrá-los e incluí-los em programas de capacitação, com o fim de melhorar a qualidade da bebida (principalmente do ponto de vista sanitário, mas do gastronômico também);

    (b) financiá-los para que possam se apropriar de tecnologias que lhes deem condições para produzir mais e melhor. Acredito que isso permitiria ao curraleiro optar por negociar sua produção com a indústria ou, se acha mais benéfico, fazer sua própria cachaça em menor quantidade, mas em maior qualidade, para vendê-la por outros meios. Com mais alternativas, os pequenos ficam menos reféns dos grandes; estes precisariam dividir mais seus ganhos com aqueles;

    (c) apoiar a organização dos pequenos em cooperativas, que lhes permitam sobreviver economicamente de forma mais digna.

    Enfim, as medidas precisam caminhar no sentido não de perseguir, mas de regularizar, capacitar, apoiar e melhorar a renda. Isso, me parece, é melhor do ponto de vista social, e conduz à produção de uma bebida de melhor qualidade.

  5. Há vários equívocos neste texto, o mais grave é tratar a cachaça feita há algumas centenas de anos por produtores rurais, da agricultura familiar, e em sua maioria bons produtores de tudo que plantam, colhem, ou beneficiam, como informal!!!, é de uma falta de conhecimento que assusta.
    Você esqueceu de mencionar o mais importante, quem fabrica cachaça ruim não vende. este é o principio, não direi de todos, mas da maioria esmagadora de produtores.
    Preste atenção na historia, há conhecimento tecnico sim. pelo visto vc passou em algum alambique tomou uma e escreveu o texto, fique lá por uma semana, um mês.
    A historia contada pelo colonizador passa longe da realidade.

    Euller Alves
    Cachacaria D’barra

    • Euller, se vc ler com calma vai perceber que o artigo fala justamente para olharmos com mais carinho para os produtores informais. Se pegar mais alguns minutinhos para ir além do texto e conhecer o site do Mapa da Cachaça vai perceber que destacamos justamente a cultura e história da cachaça que você nos acusa de não respeitarmos no seu comentário – inclusive o Mapa da Cachaça é reconhecido e premiado pelo Ministério da Cultura (2x).

      Ah… e tranquilamente podemos chamar os produtores não registrados de informais… qual outro nome vc daria?

      E a cachaça foi produzida com ferramentas dos colonizadores (alambique de cobre). Os índios nativos faziam fermentados de frutas e como vc deve saber cachaça é destilada.

      abraços

      • com os impostos abusivos do governo com os pequenos para proteger os grandes produtores todos vao desistir e voltar para a informalidade os consumidores odeiao falar de imposto da cachaça quando se vende 10 garrafas sobra duas para oprodutor isto e abuso contra que quer trabalhar

  6. Parabéns Felipe pelo artigo, acho muito oportuna sua pesquisa, realmente é o que acontece com os pequenos produtores, produz sua cachaça de forma rudimentar e na sua maioria vende aos produtores formais.
    já viajei para os lados do norte de minas e presenciei esse tipo de produção e comercialização. Salinas, conhecida mundialmente pelas grandes marcas “Havana” “seleta” “boazinha” dentre outras, fez com que muitos aventureiros, outros até com tino de empreendedor, sem qualquer conhecimento técnico sobre a fabricação da cachaça, abre sua empresa na cidade, compra a produção dos produtores pequenos, engarrafa e lança no mercado com o rótulo de “Cachaça de Salinas” e assim por diante, ganham muito dinheiro as custas do humilde produtor com a venda de uma cachaça sem qualidade. em fim, alguém precisa voltar os olhos para esses povos a fim de capacitá-los.

  7. Achei este assunto muito interessante mas acho que o vilão dos alambiques informais, São as altas taxas de impostos cobradas na produção e venda de cachaças .

  8. Muito boa a matéria, parabéns. Ressalto que a informalidade também está relacionada a: falta de extensão Rural, carga tributária insustentável e que de certa forma a cachaça reflete nossa desigualdade sócio econômica. Lembro que a informalidade contempla outros universos como o de produtores comprometidos com o sabor sim e com a salubridade do produto até porque em muitos dos casos além de produtores, são consumidores e têm em sua família e amigos os consumidores.

  9. Sem querer tirar o pão da mesa de ninguém, mas ilegal é ilegal e nao pode haver meio termo no tratamento legal que se dá!! Ao aceitarmos certas situações estamos prestando um desserviço à economia e ao País. Vejam nosso Congresso…quantos desserviços!! É o triste retrato do nosso povo!
    E o malefício que estes informais causam aos nque produzem a própria cachaça e envasam e gastam com promoção?! Não é injusto também???
    A polêmica é boa!!!
    Abraços e parabéns ao Mapa por trzer o assunto à tona!

  10. Parabéns pelo exelente relato da mais pura realidade do que o governo brasileiro faz com os pequenos produtores de cachaça, lembramos q
    ue esta perseguição vem desde os tempos do lmperio. A mais antiga industria naconal e expoliada e desasistida e não menos marginalizada.

    • Walmar concordo com vc , imposto da cachaça do Brasil de 1532 que foi trazido por Martins Afonso as primeiras mudas de cana para o Brasil e depois que descobriu a cachaça ai foi cobrados os impostos para construção de Lisboa; com isso ficou esse amargo imposto apesar que no Brasil imposto não é novidade mais o da cachaça é um absurdo.

  11. Ola boa tarde,concordo em parte com vc neste comentário que vocês sobre os produtores de cachaça informal no Brasil; porém nem todos por ser informal quer dizer que ele não seja profissional; o que acarreta essa desproporcionalidade no quesito informalidade é os grandes encargos que são cobrados dos produtores. “Eu sou um deles por estes motivos mas as portas do meu pequeno Alambique esta aberta pra quem quiser vir olha como ela é fabricada e degustarem e se quiserem fazer analise é com maior satisfação que vou receberem quem quer que seja. (Porque pode ser informal ou formal se quem não produz não tiver consciência vai ter um produto final de péssima qualidade. ) Fiz uma experiencia fui na expô cachaça esse ano e experimentei as mais famosas das cachaças de minas e não vi nenhuma diferença da que eu faço. E tem outra e a deles disseram que era envelhecida 2 anos outras 1 em toneis de carvalho e outras madeira. A minha cachaça sem ser envelhecida acredito que esta igual ou melhor que as famosas. Eu tenho vontade de formalizar mais infelizmente é muito difícil pra quem esta começando. Se quiser colocar o meu Alambique no mapa da cachaça esteja a vontade ok.

    • Boa tarde Alceu.
      Aonde vc está locado.
      Qual a sua cidade.
      Eu gostaria de entrar em contato.

  12. AnpenmousSeotembyr 30, 2011Dan,I think Google demanding that paid links have the nofollow attribute is just their attempt to reduce the quantity of people trying to buy links. If people think paid links are going to be nofollowed, they won’t be as likely to try and buy them. No one would pay for a nofollowed link, unless it had a high probability for CTs and referral traffic. I wonder what percent of paid links actually have the nofollow attribute attached to it? I’m guessing a very miniscule number.

  13. Texto interessantíssimo!
    Por falta de informação e até mesmo de vender seu produto a preço justo, os pequenos produtores que em geral são os mais cuidadosos no preparo da branquinha acabam se prejudicando e ficando escravos do capitalismo desmedido.
    Isso precisa mudar!