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Derrapadas na Valorização da Cachaça e da Caipirinha

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Veja que exemplo: a marca Johnnie Walker lançou a promoção “Whisky Day”, que dá desconto na dose e na garrafa de whisky em mais de 300 bares e estabelecimentos durante todas as quintas feiras do mês de abril. A promoção foi amplamente divulgada em jornais, sites e outros veículos e parece ter sido bastante bem feita, podendo ser, talvez, ser um exemplo para a Cachaça. A não ser, é claro, pelo seguinte detalhe: dentro dos 300 bares participantes, expressiva parte deles faz parte da rede de Cachaçarias “Água Doce”. Como se não bastasse incentivar o consumo do destilado estrangeiro, a rede chega a ser a única participante em cidades do interior paulista como São José dos Campos, Jacareí, Bragança e outras. Nas demais cidades onde vigora a promoção, ela ainda aparece como primeira opção da lista de quase todas – já que, no site, os bares aparecem em ordem alfabética.

Há muito tempo estive numa das unidades, enquanto escrevia o livro em 2009, e notei que o cardápio da mesma Cachaçaria era patrocinado por uma grande marca de… Vodka. Vodka? Sim, por mais contraditório que possa parecer, drinks exclusivos com a marca Smirnoff são preparados e incentivados a serem consumidos no estabelecimento a partir do próprio cardápio. Marcas de Cachaça, no entanto, não tem destaque parecido.

Daí para dizer que a Água Doce não estaria sendo fiel a seu trabalho de valorização da Cachaça Brasileira precisa menos de um gole. Mas a rede conta com uma das maiores e mais invejáveis – se não a maior – carta de Cachaças de qualidade no país, e suas mais de 90 lojas conseguem tornar acessível também, para o consumidor que a procura, a Cachaça de Qualidade por essas mesmas cidades que citamos – sendo, muitas vezes, um dos únicos lugares a se encontrar tais produtos. Eles tem, com certeza, seus méritos.

Pena é que a rede não conseguiu crescer ou se sustentar apenas com base nessa carta. Segundo seus representantes, em email que troquei com o dpto. de marketing da rede, “sem o apoio dessas grandes marcas [de vodka e whisky]” eles não teriam chegado ao número de franquias que têm hoje. Se pensarmos que muito consumidor que vai à Cachaçaria ainda tem preconceito com a bebida nacional, faz até certo sentido. Mas será que não dá para utilizar essa rede toda já montada para valorizar a Cachaça?

A Diageo, por exemplo, detentora das marcas Johnnie Walker e Smirnoff, é também proprietária da interessantíssima Nega Fulô, e tem feito um importante trabalho junto a esse alambique que foi por eles adquirido em 1999, mantendo desde então as características de uma produção artesanal de qualidade. A empresa promoveu também interessantes ações de divulgação, como fez em 2009 com o “Eu Amo Feijoada”, ação em que valorizava a combinação brasileira de Feijoada + Cachaça. No dia mineiro da Cachaça neste mesmo ano, fez o lançamento desta ação com uma degustação com o mestre cachaceiro Vicente Bastos Ribeiro, no bar Filial, na Vila Madalena (São Paulo). Fica aí uma interessante marca, da mesma companhia, para pensar em ações a serem desenvolvidas.

Outra coisa interessante que a Cachaçaria poderia fazer era possibilitar e incentivar que os clientes escolham Cachaças diferentes para sua caipirinha. Esse drink, como dissemos já nesse outro post aqui, é um importante caminho para se valorizar a Cachaça no Brasil – e no mundo. Um dos grandes furos da rede, na minha opinião, é não possibilitar ou incentivar o pedido da caipirinha com Cachaças diferentes. O famoso drink é feito apenas com um blend artesanal da casa – que pode ser muito bom também, mas não mais do que as centenas de outras opções existentes.

Ainda é importante lembrar que no quesito ‘valorização da Caipirinha’, a rede de cachaçarias não é a única a “comer bola”. Alguns especialistas sugerem que caipirinha pode ser feita com qualquer tipo de cachaça, e chegam até incentivar o uso das simplórias aguardentes industriais. Já outros afirmam que “Cachaça de verdade” não pode ser envelhecida e deve ser bebida só branca, jovem. E, além deles, a grande maioria afirma que o costume tomar a caninha numa talagada só – naquele copinho de pinga, sem gelo – como o correto. Será que é assim que nós vamos valorizar a Cachaça e toda a sua riqueza?

 

RENATO FIGUEIREDO já foi um daqueles que pensava que a Cachaça não tinha condições de participar dessa briga com outras bebidas de forma párea. Mas, com alguma pesquisa e mais informações, descobriu que ela poderia sim, e tem até condições de se destacar. Contou tudo isso em seu livro “Estava no Seu Nariz, Mas Você Não Viu” (edição do autor, 2011), e hoje coloca sua cara a tapa aqui nesse blog todas as Quartas-Feiras por acreditar na força dessa bebida nacional. Fale com ele: [email protected]

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Renato Figueiredo

Renato Figueiredo é um Cachaciador: aprecia a Cachaça de um jeito gourmet, brasileiro, e sem chatice desnecessária. É autor do livro "De Marvada a Bendita: A História, a Gastronomia e as Curiosidades da Cachaça, a Mais Brasileira das Bebidas", no qual fala sobre este novo olhar sobre a bebida brasileira. (Ed. Matrix, 120p - nas livrarias).

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Comentários

7 comentários

  1. Boa noite Renato!

    Este exemplo que você deu é um dos muitos que ocorrem todo dia com a Cachaça por puro preconceito. O mais engraçado é que os melhores trabalhos feitos com a Cachaça, são realizados por estrangeiros. Caso da Leblon, Cabana, etc…
    A alguns anos atrás, em uma feira de Cachaça, o meu estande foi visitado por um produtor de vinhos português. Conversando sobre exportação, o mesmo disse o seguinte:
    “Como vocês querem que a Cachaça tenha valor no exterior e ganhe o mundo se vocês brasileiros, criadores do produto, não a dão”?
    Até hoje fico constrangido!

    Um grande abraço!

    Diretor Geral da Règis Armmont.

  2. Olá, Glener!
    Você disse tudo.

    Concordo com você. Embora tenhamos já interessantes trabalhos de marketing aqui no Brasil, e bastante gente empenhada sim, essas marcas que você citou tem feito um interessante investimento em marketing.

    Realmente é um grande constrangimento, e a situação que você passou é um bom exemplo. Imagina os gringos chegando aqui na Copa, pedindo caipirinha, a gente servindo nosso drink feito com vodka e, pior ainda, falando mal da Cachaça?

    Não dá, né?

    Abraços e mais uma vez obrigado pelos comentários.

  3. Parabéns pelo texto!
    Uma das maiores aberrações gastronômicas mundiais é, sem dúvida, caipirinha de vodka, como você citou no comentário.

  4. Olá, Paulo!
    Sem dúvida, a “caipiroska” está infelizmente tão famosa que até estão esquecendo que “Caipirinha” de verdade, é com Cachaça!
    Vamos torcer para isso mudar até 2014!
    Abraços!
    Renato.

  5. Renato,
    Esqueci de falar que gostei da reportagem que saiu no Vale Paraibano sobre o livro também. Sou de São José e grande apreciador de cachaças, apesar de ainda estar aprendendo sobre a bebida. Já são quase 40 garrafas na coleção.
    No Vale do Paraíba, já pude visitar o Alambique do Antenor e a Mato Dentro e foram experiências incríveis. Eu havia até começado um blog sobre destilados, mas não fui muito para frente com ele.
    http://destiladoblog.blogspot.com/
    Um abração e parabéns novamente.

  6. Olá, Paulo!

    Poxa, que bacana, você aqui da região também. Aqui tem muita coisa boa, quero visitar mais alambiques também, pois é sempre bacana a experiência.

    Seu blog parece ser muito interessante, não deixe de alimentá-lo não!

    Mantenha contato,
    Abraços!
    Renato.

  7. Você coloca varias questões que, eu penso, devam ser discutidas separadamente, é claro que a (boa) cachaça, está no mesmo nível que qualquer outra bebida de fama internacional e é preciso que haja empenho de marketing para que este fato seja reconhecido; e já que é assim, eu não consigo admitir uma (boa) cachaça, compondo uma caipirinha, assim como não faria uma caipirinha com meu whisk predileto Johnníe Walker não a faria com algumas das várias excelentes cachaças que são produzidas no Brasil, para isto existe a Vodka(que não tem sabor de nada) ou algumas cachaças de qualidade razoável.