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A Indicação Geográfica na Cachaça

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Renato Figueiredo discute a Indicação Geográfica na Cachaça e explica a importância e os benefícios de comprar uma Cachaça com selo IG.

A Indicação Geográfica da Cachaça

foto: usuário flickr thejourney1972 publicada sob licença creative commons.

Tudo começou com uma grande ameaça: a produção do novo mundo do vinho, em maior escala, que começava a competir com a produção artesanal francesa. A fim de proteger seu legado e o valor de sua produção, a França estabeleceu as primeiras “Denominações de Origem Controladas” (A.O.C, em Francês). Estas “DOC” delimitavam que o vinho de determinadas regiões (Bordeaux, Pessác-Leognan, Champagne, etc) precisava seguir algumas regras e, claro, ser produzido apenas ali para levar o título (vinho de Bordeaux, vinho espumante de Champagne, etc). Foi isto também que fez a Tequila: ou seja, para ser chamado de “Tequila”, a aguardente mexicana precisa ser produzida na região com mesmo nome e seguir algumas normas de qualidade. E na Cachaça, como isso funciona?

No Brasil, temos várias regiões muito famosas. Mas apenas Paraty (RJ) já tem o selo de Indicação Geográfica garantido e já implantado.

Selo de Indicação Geográfica de Paraty

Minas Gerais (todo o estado), Salinas (M.G) e Sul do país já teriam exemplares suficientes para se constituírem como região, mas ainda não o fizeram. Salinas já entrou com o pedido, mas ainda está em trâmite. A novidade é a região de Abaíra, na Bahia, que acabou de realizar o pedido de registro. Afora a estratégia de fazer frente à produção de outras regiões, o selo de indicação geográfica funciona como uma espécie de “patente” (ele é, inclusive, controlado pelo INPI, órgão responsável pelo registro e controle da Propriedade Intelectual no Brasil). Desta forma, o selo é merecido apenas por garrafas que seguem um determinado padrão de qualidade, o que impede os famosos “espertinhos” de produzirem Cachaças de inferior qualidade e aproveitarem-se da fama das regiões famosas para vender. Há, infelizmente, milhares de exemplos desta prática, por isso é tão importante o estabelecimento do selo e das regras.

Mas o que cada uma destas regiões têm de especial? Será o solo, o clima e as famosas peculiaridades do chamado “terroir”, como inteligentemente defendeu-se na França? Acho que a Cachaça é diferente. Falar que todos estes fatores geográficos e climáticos de um lugar é melhor que o de outro não é tão expressivo para a Cachaça quanto foi para o vinho. Sim, faz parte e pode fazer alguma diferença. Mas se lembramos que o Brasil colônia teve cana boa para todo lado, perde-se um pouco esse argumento. Tem cana boa no Nordeste, tem cana ótima no interior de São Paulo. Tem Cachaça boa em Minas, tem tão boa quanto no Sul. Em resumo: tem cana pra Cachaça de qualidade em tudo quanto é lugar. O que não tem, é claro, é cuidado, sabedoria, cultura e técnica para produzir Cachaça. Isso, amigo, não se copia mesmo!

Talvez vai ter gente que vai ficar um pouco brava comigo, principalmente quem clama pelo solo especial de Salinas e outras regiões para produção da cana (sugiro que você leia também meu post sobre o “Terroir na Cachaça“). Eu não discordo que ele exista, e que faça sim, alguma diferença na maturação, brix, e demais características da cana. Mas acho que, no caso de Salinas e de outras regiões, essas características são muito menos importantes do que a história, a cultura, a técnica, e os costumes envolvidos na criação diária da preciosa. Há que se falar, ao meu ver, das peculiaridades de cada lugar: seja o primoroso envelhecimento em Bálsamo de Salinas, a tradição saborosa mineira, a herança histórica de Paraty, a influência européia nas Cachaças do Sul… Enfim, estes são apenas alguns exemplos; cada região tem seu diferencial, e é neles que devemos trabalhar primeiro – não tanto nessas características de solo, clima, etc: todas elas tão intangíveis para o consumidor final, que não é técnico na bebida.

É claro que uma série de regras para produção de qualidade, a exemplo do vinho, devem ser respeitadas, tais como: utilização da cana em períodos não superiores a 24h depois de cortada, fermentação natural sem agentes “catalizadores químicos” (apenas nutrientes reguladores), normas de envelhecimento e padronização da Cachaça plenamente acordadas e cumpridas e enfim: uma série de outros detalhes. Para garanti-los no entanto, é necessário apoio governamental, em termos de organização, financiamento e incentivo – pois não é, de forma alguma, tarefa fácil cumprir tudo isto sozinho. Outra alternativa paralela é a organização em associações, sejam elas formais ou apenas como apoio mútuo entre produtores de uma região – assunto que urge discutirmos mais por aqui, aliás.

Nesse aspecto, há que se parabenizar os produtores do Sul do Brasil, que, como região e como “associação”, tem apresentado profissionalismo em Cachaças de excelente qualidade. Presentes em feiras, interessados em debates técnicos, e cada vez mais despontando em concursos, essa região tem tudo para ser a próxima a receber a atenção dos amantes da caninha. Fica um aviso para as outras não perderem esse bonde! Há muito espaço para todo mundo crescer junto na Cachaça, ah, como há! Não quero ser injusto também com ninguém, é claro que há Cachaças muito boas sendo feitas aí, por todo o Brasil; com exemplares na Bahia, no Espírito Santo, em Pernambuco, no Rio Grande do Norte, em Goiás… Enfim! Tem caninha para todo lado! Mas sabendo valorizar as peculiaridades de cada uma, todas vão ter seu espaço garantido na grande estante da Cachaça.

 

P.S: Para você que se interessou pelo assunto de Indicação Geográfica, eu conto muito mais sobre isto no meu livro “De Marvada a Bendita”, publicado pela editora Matrix. Dê uma olhada!

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Renato Figueiredo

Renato Figueiredo é um Cachaciador: aprecia a Cachaça de um jeito gourmet, brasileiro, e sem chatice desnecessária. É autor do livro "De Marvada a Bendita: A História, a Gastronomia e as Curiosidades da Cachaça, a Mais Brasileira das Bebidas", no qual fala sobre este novo olhar sobre a bebida brasileira. (Ed. Matrix, 120p - nas livrarias).

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Comentários

16 comentários

  1. Oi Renato. Muito bom o texto. É legal sabermos que temos, assim como o vinho e o tequila, um selo de identificação geográfica pra cachaça. Eu acho interessante também valorizarmos a questão do terroir e usarmos isso como elemento de distinção entre as cachaças. Afinal, o que irá distinguir uma cachaça de Paraty e uma cachaça de Salinas? Para o uso do selo não seria necessária uma distinção, uma característica específica de cada região produtora, elementos que definem uma cachaça de região X ou Y. Acho isso riquíssimo e poderá criar padrões de qualidade para diferentes regiões de produção. O que acha?

  2. Além das regiões citadas tem também o Triângulo da Cachaça. Eu não sei direito, mas parece que é uma região entre três grandes bacias hidrográficas. O pessoal aqui já ouviu falar?

  3. Pingback: O "Terroir" na Cachaça | Mapa da Cachaça

  4. Oi, Felipe!

    Obrigado pelo seu comentário. Para quem está acompanhando o diálogo, acho que é um exemplo de que, mesmo aqui dentro do MdC, temos espaço para troca sadia de ideias.
    Eu entendo seu ponto, e, pensando nele e no comentário de outros leitores, escrevi o post de hoje (“Terroir na Cachaça” http://mapadacachaca.com.br/blog/o-terroir-na-cachaca/), tentando me fazer mais claro. Depois que você o ver, me dê sua opinião e vamos continuar o debate.
    Concordo que “terroir” e solo sejam importantes, mas acho que devem ser menos expressivos do que são para o vinho. E, como você disse, o selo de IG não depende exclusivamente dele.

    Forte Abraço! Renato.

  5. Caro Matheus,

    Obrigado pelo seu comentário. Eu não conheço o “Triângulo da Cachaça”, apenas o triângulo mineiro. Queria saber mais, se puder nos contar.
    Várias outras regiões merecem destaque também. Tem associações fortes trabalhando em Pernambuco, tem um crescimento de marcas em Monte Alegre do Sul, tem regiões pontuais produzindo Cachaças premiadas e muito mais.
    Nem sempre “cabe” falar de todas em todo post. Mas prometo estar atento a todas estas regiões; sem querer favorecer uma ou outra e agradeço comentários como o seu!

    Abraço,
    Renato Figueiredo.

  6. Permita-me lembrar de um detalhe sobre a origem da cachaça, que foi lá pelos lados de Diamantina, na época áurea do ouro e dos diamantes nas serras do Espinhaço.
    Os escravos foram os primeiros a produzirem a cachaça por um fato curioso e inesperado, estavam eles fazendo rapadura com o tacho no fogo cheio de caldo de cana, sempre mexendo com uma pá de madeira,e que por algum motivo tiveram que parar e então retiraram o tacho do fogo, deixando de lado por alguns dias. Após algum tempo, voltaram com o tacho ao fogo e logo começaram a notar uma espuma branca que borbulhava e evaporava e este vapor subia até a cobertura onde condensava e caia em gotas. Ao cair nas mãos dos escravos eles lambiam e gostavam e diziam , “pinga” boa e como eles tinham sempre as costa feridas pelas chicotadas, quando ali caia uma gota eles dizima “ água ardente “.
    Consta ser esta historia a origem da cachaça e seus diversos nomes, sendo os mais comuns a pinga e aguardente
    Agora é só conferir .
    Gostaria de saber masi sobre as origem da cachaça, pois cosnta que alguns dizem que foi na regiãode São Vicente , em SP, mas acho a mair provavel que tenha sido nas senzalas
    e naturalmente na região de Diamantina.
    Vamso conferir?
    Carlos

  7. Pingback: Drink especial para Semana do Café e da Cachaça Mineira | Mapa da Cachaça

  8. Tudo certo, com muita propriedade, com um pequeno pormenor: a primeira zona demarcada de vinho foi estabelecida pelo Marquês de Pombal em Portugal, relativamente ao que hoje se chama “Vinho do Porto “.

  9. Pingback: Cachaça de Salinas ganha selo de Indicação Geográfica pelo INPI | Mapa da Cachaça

  10. FESTIVAL DA CACHAÇA,CULTURA E SABORES
    30 anos
    DIAS: 16 A 19 DE AGOSTO DE 2012.
    EM PARATY (RJ)
    PS: já tem o selo de Indicação Geográfica garantido e já implantado.

  11. Pingback: Festival da Cachaça, Cultura e Sabores de Paraty 2012 - Mapa da Cachaça | Mapa da Cachaça

  12. Pingback: Por que fazer uma Expedição Mapa da Cachaça? | O Brasil com S

  13. Pingback: Dicas para Comprar Cachaça de Qualidade - Blog ServeJá - Blog ServeJá

  14. Sou um recente produtor de “Cachaça de Qualidade”e me interesso por tudo que se publica na produção desta bebida que está entre os destilados mais importantes do mundo. Produzo no estado de Goiás que tem clima e solo semelhante ao de Salinas com a vantagem de chover mais no período das chuvas. Durante a estiagem, que vai de maio a outubro, nosso Brix fica em torno de 22 a 24 º.
    Gostaria de saber qual os limites da região denominada “Triângulo da Cachaça”.