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A Cachaça é o Brasil no Exterior

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Futebol, Amazônia e Copa do Mundo aparecem na pesquisa mundial como produtos relacionados ao Brasil, mas Cachaça ainda não. Como podemos mudar isso?

A consultoria CNT/Sensus realizou, a pedido da semanal Veja, uma pesquisa a respeito da imagem do Brasil no exterior. As notícias são boas: milhares de pessoas (na verdade, 1 bilhão a mais!) já ouviram falar sobre o Brasil, e cativamos uma imagem cada vez mais simpática lá fora. Mesmo que a realidade aqui talvez não esteja melhorando na mesma proporção que nossa imagem, este clima favorece a atenção ao nosso país e, claro, a tudo que vem dele, inclusive a Cachaça. No entanto, futebol, Amazônia e Copa do Mundo aparecem na pesquisa, mas Cachaça não. Aproveitando a deixa, resolvi falar um pouquinho mais hoje sobre a divulgação de nossa Cachaça no mundo estrangeiro.

A cachaça é o Brasil no exterior - exportações brasileiras

Uma amiga me mandou esta foto há alguns meses, que mostra algumas marcas da nossa bebida vendidas na Áustria. Pela própria imagem, já dá para imaginar como os gringos se atraem pelo valor do “exótico” brasileiro, pela coisa da “terra”: basta notar a embalagem trançada de uma, os brindes da outra e a tradição estampada no rótulo da primeira. De fato, a Cachaça tem conquistado o mundo antigo por fornecer um sabor diferente daquele que seus habitantes já estavam acostumados: em busca de alternativas à vodka, ao whisky e ao conhaque, os estrangeiros encontram na Cachaça um destilado de paladar fresco – e único. A Alemanha, talvez por não ter um destilado tão mundialmente famoso quanto a França (conhaque), Itália (Grappa) e outros países, é um dos que mais consomem nossa branquinha. A envelhecida, aliás, ainda é pouco presente lá, visto que o maior volume de exportação (que ainda é pequeniníssimo comparado à nossa produção anual) é das industriais. Há, inclusive, que se tirar o chapéu para o trabalho das aguardentes industriais e seu esforço para valorização da bebida, tanto lá fora quanto aqui também. Mas elas trazem algumas questões para discutirmos.

CACHAÇA OU AGUARDENTE?

Uma coisa que eu costumo defender é que a aguardente industrial é uma bebida com qualidades diferentes da Cachaça artesanal de alambique (entenda mais essas diferenças entre cachaça artesanal e industrial). No entanto, a legislação permite que se utilize o termo “Cachaça” tanto para uma quanto para outra (decretos 3.061/01 e 3.072/02). Muita gente que trabalha pela valorização da bebida (inclusive eu, admito) torce um pouco o nariz para isso, pois desfavorece que as pessoas conheçam as características peculiares da bebida produzida de uma forma mais “gourmet”, nos alambiques. Aqui dentro, creio eu, é muito importante que as pessoas conheçam as diferenças entre os dois “tipos” da bebida, pois pouca gente conhece o lado mais “saboroso” do álcool da cana. No entanto, chamar a Cachaça LÁ FORA apenas de “aguardente” é talvez desvalorizar seu tão forte caráter individual – afinal, “aguardente” é um nome “técnico” para qualquer bebida. O que fazer então? Que nome ou denominações adotar? Como “Cachaça” e “aguardente industrial” se confundem pela legislação, eu sugiro que se você quiser se referir a nossa caninha feita com esmero pelos bons produtores de nosso país, você use o termo “Cachaça de Alambique de Qualidade”. Uma boa estratégia, já que a legislação iguala todo mundo, é que os produtores da bebida “gourmet” comecem a se diferenciar um pouco. Assim, talvez, possamos chamar atenção para as qualidades escondidas desta bebida. Afinal, mostrar as diferenças entre uma aguardente industrial e uma Cachaça de alambique ainda é muito válido – e necessário para elevar a imagem da Cachaça como um todo, note-se isto. No entanto, lá fora é importante que os gringos conheçam a bebida por um nome só: Cachaça.

KA-SHA-SA?

Algumas pessoas já me perguntaram se eu não acho o nome “Cachaça” um pouco difícil demais para ser pronunciado. Eu concordo com elas. Além dos fonemas representados pelo “ch” e “ç” serem pouco familiares para não falantes do português, o cedilha não existe em algumas línguas. Torna-se, talvez, exótico demais, e proposto a não agradar muito: você experimentaria uma pizza, um strogonoff e uma lasagna ou um Apfelstrudel, uma Schnaps e um Gewürztraminer? Os últimos nomes assustam mais e parecem menos aptos a nos agradar, não é mesmo? No entanto, quem conhece sabe que o primeiro é um delicioso doce de maçã, o segundo é uma denominação para aguardente de frutas, e o terceiro uma variedade de uva que produz um vinho branco bem frutado e mais doce. Se num primeiro momento eles assustam, por outro lado podem também criar uma identidade única daquela iguaria. Tal dificuldade pode transformar-se em benefício se bem trabalhada. Só lembrar que no português “whisky” também não era palavra das mais fáceis de se pronunciar – mas acabou pegando. Algumas marcas até têm feito isto bem, e até ensinam os gringos a pronunciar o nome da bebida. Hoje, creio eu, é importante darmos continuidade para o nome “já escolhido”, e não trabalhar contra o esforço que já vem sendo feito.

A Cachaça é o Brasil Exterior por Renato Figueiredo - Leblon - exportações brasileiras

“EFEITO HAVAIANAS”

Outra coisa importante a ser dita: tem muita Cachaça que só existe lá fora. Eu já até mostrei aqui no Mapa algumas embalagens de cachaça rebuscadíssimas, mas que eu nunca vi para vender no mercado nacional. Os chinelos Havaianas sejam, talvez, o maior exemplo de como um produto antes popular e ignorado passou a ser acessório de moda e atingir preços e vitrines dignos antes apenas da “alta moda”. Embaladas talvez por esta história, o “Efeito Havaianas” contagiou muitas marcas, mas muitas delas talvez esqueceram que primeiro as sandálias precisaram humildemente se fortalecer por aqui, ao invés de apenas desembarcar com sotaque estrangeiro e um alto valor agregado na bagagem. Muito cuidado! Acho excelente estamos presentes lá fora, mas, se não investirmos em preparar melhor nosso território por aqui, corremos o risco de recair em problemas como o que eu conto aqui logo abaixo.

CAIPIRINHA

Outro importante nome lá fora é a Caipirinha. Já reconhecida pela Associação Internacional dos Bartenders como “drink oficial”, a receita é a principal forma de consumo e introdução da Cachaça lá fora. No entanto, qual não é minha surpresa, ao encontrar no site da própria associação a alusão à “Caipiroska”? Culpa da Associação ou culpa da cultura brasileira que ainda não soube valorizar sua verdadeira caipirinha feita com uma bebida mais macia e agradável ao paladar, como uma boa Cachaça de Alambique? Deixo a questão para o juiz da vez, mas o que é importante é não esquecermos de olhar primeiro para o que está aqui embaixo de nossos narizes, pois nenhuma imagem se sustenta sem uma boa dose de realidade. Antes de educar os gringos, é necessário mostrar para o brasileiro o quanto ele ganha ao “trocar” (ou seria “voltar às origens”?) o álcool de sua caipirinha por uma Cachaça de qualidade. Se para o brasileiro a imagem e a valorização real do que temos aqui não for mais praticada, de nada adiantará o mundo olhar o Brasil com outros olhos. É hora de aproveitar este momento de maior “auto-estima” e fortalecer tudo aquilo que temos de valor, mas que antes ignoramos.   Foto: agradeço a Monica Herzer por me enviar a foto!

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Renato Figueiredo

Renato Figueiredo é um Cachaciador: aprecia a Cachaça de um jeito gourmet, brasileiro, e sem chatice desnecessária. É autor do livro "De Marvada a Bendita: A História, a Gastronomia e as Curiosidades da Cachaça, a Mais Brasileira das Bebidas", no qual fala sobre este novo olhar sobre a bebida brasileira. (Ed. Matrix, 120p - nas livrarias).

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Comentários

10 comentários

  1. Renato, como sempre muito bom seu post!

    E concordo com você … “Se para o Brasileiro a imagem e a valorização real do que temos aqui não for mais praticada, de nada adiantará o mundo olhar o Brasil com outros olhos. É hora de aproveitar este momento de maior “auto-estima” e fortalecer tudo aquilo que temos de valor, mas que antes ignoramos”.

    Parabéns pelo trabalho!
    Abraços
    Sandra

  2. Pois é Renato;
    Prova de tudo isso que você escreveu; como a propaganda da bebida em si, ou falta dela, além da não valorização da genuína cultura nacional, que vemos na edição da Revista Veja de 18 de janeiro de 2012, em sua página 33, uma propaganda de saquê. E nessa propaganda há a tentativa de se associar a bebida a comidas, drinks e comportamentos; assunto que já foi discutido no mapa da cachaça.
    Temos mesmo é que ficar de olhos bem abertos!
    Abraço.

  3. Pois é, Murilo! É engraçado ver como outros destilados fazem tanta propaganda e se apropriam de territórios nos quais a Cachaça se daria muito bem, como o do sabor e da gastronomia! Forte abraço.

  4. Ótimos comentários Renato! A propósito, parabéns pelos excelentes trabalhos em prol da cachaça.
    A questão da estruturação interna para alancar as vendas de cachaça no exterior é ponto primordial, porém, infelizmente, a maioria dos produtores de alambique não dispõe dos recursos necessários para uma implementação tecnológica para aumento da produção ou mesmo marketing de sua marca. Todo capital é utilizado de forma cíclica na produção.
    Nestes 9 anos em que trabalho com assistências técnicas, consultorias e degustação de cachaça, a reclamação dos produtores que conheço é a mesma: elevados impostos, custos de produção cada vez maiores e pequeno volume de vendas.
    Uma saída que vejo para esta situação é uma mudança de postura do poder público, facilitando a liberação de crédito ao produtor para incremento de produção ao invés de aumentar os impostos para venda, promovendo em seus múltiplos meios de propaganda nossa autêntica bebida e desenvolvendo as políticas de estímulo ao setor, as quais permanecem por anos no congresso aguardando aprovação. Esta mudança é possível e deve ser iniciada por nós, aqueles que compreendem ser a cachaça mais do que uma simples aguardente.

    Abraço.

    Leandro Espinoza – químico e especialista em tecnologia de produção de cachaça

  5. Caro Leandro,
    Agradeço muito os comentários e a contribuição. Também acredito muito na valorização do produto através da propaganda e de medidas públicas governamentais.
    O que você acha da produção em cooperativas, ou outros tipos de associações entre produtores? Acho que é uma medida importante. Gostaria de ouvir sua opinião, e, claro, a de quem nos acompanhe aqui também nesse diálogo.

    Forte abraço,
    Renato Figueiredo.

  6. Renato,
    Acredito muito no poder transformador das cooperativas, temos excelentes exemplos de algumas que estão se saindo muito bem.
    A cooperativa torna possível a realização de uma mudança que é essencial para o setor: profissionalização. Através de cooperativas vários produtores conseguiram financiamento público para investimentos em produção, implementação tecnológica e estrutura para exportar o produto. Até mesmo coisas mais simples, como uma análise da cachaça para atendimento aos parâmetros de qualidade estabelecidos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA, só foi possível para a maioria dos produtores de alambique após a formação de cooperativas.
    Para saber mais sobre o assunto, recomendo a leitura dos artigos cujos links seguem abaixo.

    Abraço.
    Leandro Espinoza

    http://www.unimep.br/rni/n7/RNI_n7/artigos/RNI_n7_art04.pdf

    http://agricultura.ruralbr.com.br/noticia/2011/02/recursos-beneficiam-cooperativa-produtora-de-cachaca-3199693.html

    http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/Repositorio/Cachaca_de_Minas_000fjd717w802wyiv809gkz51uz0mxbc.pdf

    http://www.fbes.org.br/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=1268

    http://www.fomezero.gov.br/noticias/economia-solidaria-impulsiona-cooperativa-de-cachaca-em-goias

  7. Leandro! Agradeço muito os comentários e suas dicas a respeito das cooperativas. Merece até novos posts para discutirmos mais o assunto.
    Forte abraço!
    Renato.

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